Quando se tem 17 ou 18 anos de idade, nem se imagina o que vem pela frente. Pensa-se, apenas, em aproveitar o momento e a hora, nada mais. Acho que foi isso, exatamente isso, que me contaminou naquela noite de 13 de janeiro, do um ano já distante mais de quatro décadas na contabilidade do meu tempo: 1963. Eu misturei o sagrado com o profano. Mas, já naqueles anos eu vislumbrava uma aproximação entre o sacro da veneração e da adoração com o pecaminoso e sujo do mundano, quando via os estandartes das procissões e os comparava ao pavilhão de um clube de carnaval dos meus agrados ou dos meus mimos: Os Brotinhos. É tudo a mesma coisa, refletia comigo mesmo, em minha mente tomada pelos pensamentos do mundo. Por isso, fui à procissão e depois terminei fazendo uma visita à casa de Dona Sophia.
Eu tinha passado no vestibular de medicina e a mãe de meu colega, a quem na faculdade coubera o apelido de Jia, fizera uma promessa de que se fôssemos aprovados acompanharíamos a procissão, sustentando o andor, inclusive. Confesso que neste particular, força não tive para manter aquele enorme peso sobre os meus ombros, por mais que tentasse e por mais que quisesse cumprir o trato com os céus; trato, aliás, que não fora exatamente meu, como pode depreender o leitor. Mas, fizemos, eu e ele, o percurso todo com o préstito, cantando e rezando, de vela acesa na mão, como todo e qualquer penitente naquela noite. Lembro que andamos pelo pátio do colégio inteiro e que não precisamos sair na rua. Era, como muitos anos depois vim saber, uma procissão interna.
No final, vencido o tempo do sacro, o meu ilustre companheiro de tantas jornadas, fez o convite:
- Vamos à casa de Dona Sophia?
- Boa noite Dona Sophia! Como vai a senhora?
Depois dessa saudação simplória o Jia fez a apresentação de praxe:
- Apresento-lhe o meu amigo Geraldo Pereira, calouro, como eu, de medicina, recém aprovado, também, no vestibular.
- Explique o que é o Monte de Vênus?
Eu não sabia, por hipótese alguma, mas a explicação veio rápida da parte dela, seguida da explanação quase científica da importância que tinha a protuberância feminina durante o intercurso sexual, quando servia de almofada aos movimentos dos amantes. Daí, justificou, a valia de se manter a pilosidade inteiriça, sem cortes e sem aparas, sem deplilação também, contrariando hoje todas as mulheres do mundo. Foi de tal forma sensual em sua descrição, que ainda hoje somos admiradores declarados dessa proeminência que dá graça e frescor à mulher. Com a discrição das senhoras de boa origem fez a demonstração prática e prometeu novas descrições anatômicas, contanto que nos iniciasse na matéria. Nunca mais esqueci isso! Lembranças sacras e profanas desse meu tempo distante, dessas iniciações de tantas décadas pra trás!(*) - Lembranças de momentos que se encantaram no infinito de todos os pretéritos. Curiosidades inscritas agora em minhas recordações assim perpetuadas, na largueza do inteiramente virtual. Comente para pereira@elogica.com.br ou para pereira.gj@gmail.com Ou não comente, nada escreva ou nada deixe redigido.




