Vez ou outra ia vê-lo nas masmorras do hospital psiquiátrico em que vivia. Ele me identificava de logo e me recebia com a maior festa. Fazia um sinal característico de parentesco, friccionando os dedos indicadores das duas mãos. Os companheiros de enfermaria se achegavam e se candidatavam a um trocado que fosse ou a outra lembrança qualquer, capaz de os distrair por alguns minutos. Às vezes dava e às vezes não dava! Quando entrava no hospital perto das 18 horas, me arriscava sempre a ouvir um terço rezado pelas irmãs na capela do nosocômio enorme e irradiado para todos os setores, através de auto-falantes distribuídos pelos corredores. Era um horror à parte e só contribuía para piorar o estado de saúde daquela gente tão sofredora. Gente – vejo hoje – que não viveu, que não teve qualidade de vida suficiente. Gente sofredora e marginalizada.Espaço para a publicação de crônicas.Uma página especialmente dedicada à poética dos sentimentos e à prosa das lembranças. Mas também um lugar virtual para a reflexão, para a discussão de ideias e de ideais.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
A Tragédia Anunciada ou A Comédia Denunciada
Vez ou outra ia vê-lo nas masmorras do hospital psiquiátrico em que vivia. Ele me identificava de logo e me recebia com a maior festa. Fazia um sinal característico de parentesco, friccionando os dedos indicadores das duas mãos. Os companheiros de enfermaria se achegavam e se candidatavam a um trocado que fosse ou a outra lembrança qualquer, capaz de os distrair por alguns minutos. Às vezes dava e às vezes não dava! Quando entrava no hospital perto das 18 horas, me arriscava sempre a ouvir um terço rezado pelas irmãs na capela do nosocômio enorme e irradiado para todos os setores, através de auto-falantes distribuídos pelos corredores. Era um horror à parte e só contribuía para piorar o estado de saúde daquela gente tão sofredora. Gente – vejo hoje – que não viveu, que não teve qualidade de vida suficiente. Gente sofredora e marginalizada.segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Uma Argola no Pênis
E por falar em nunca mais a vi, lembrei da última. Era muito comum atender às prostitutas da zona do baixo meretrício. Uma delas chegou embriagada, sem saber direito o que falava, dizendo as maiores besteiras. Tinha uma ruptura anal e o cirurgião decidiu-se pela intervenção com anestesia, mas foi necessário esperar que passasse os efeitos do álcool e com ela fiamos conversa por um bom tempo. Desejava esconder o fato de seus familiares, os quais ignoravam a sua condição e a origem de seu dinheiro. É sempre assim! Foi feita a sutura conforme as normas do procedimento e a penitente saiu da sala cambaleando. Não havia maca disponível e o cheiro anestésico tinha sido mínimo. Chorava como uma desenganada, com medo que os parentes descobrissem a sua profissão e o seu problema proctológico agora. Desapareceu no horizonte das coisas e ninguém mais viu. Pior do que essa, só o homem que passara uma argola no pênis e para se tirar foi preciso chamar o serralheiro do hospital em casa. Passava das três horas da manhã e o homem veio indignado, dando socos nos ares, dizendo horrores. Só a serra elétrica resolveu o caso.
E há muita coisa mais a ser contada!
(*) O meu amigo Jia receba esta crônica e lembrando da pizza, lembre também daquelas noites que já vão longe na contabilidade do tempo. Quem desejar que comente para pereira.gj@gmail.com ou para pereira@elogica.com.br Termino publicando, mesmo, um livro com essas histórias pitorescas
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Um Menino Peralta
Antes desse desfecho, porém, o meu pai, católico fervoroso, como já comentei, achou que sendo ele um estudioso da vida de D. Frei Maria Vital, Bispo de Olinda, que não simpatizando com a causa maçônica, seguidor que era da Cátedra de Pedro, terminou preso, decidiu-se – o meu pai – por me levar ao túmulo do prelado. Ele era um homem horroroso e eu tinha medo daquela barba enorme. Mas, eu não tinha saída, deveria mesmo comparecer à Basílica da Penha e ajoelhado junto ao lugar em que estava o homem, rezar assim: “Dom Vital! Fazei que eu melhore, porque o meu pai não agüenta mais!”. Embora não entendesse bem o que eu tinha e como poderia melhorar, compreendia que a situação era grave e só um milagre me salvaria.
(*) A crônica é inédita e vai integrar um volume que devo publicar com o título: Histórias Pitorescas de um Reitor e o Pitoresco de Outras Histórias. Devo contar o que passei de original e cômico – às vezes trágico – em alguns dos cargos que exerci na Universidade. Mas, também, todas as histórias que tenho. Muitas histórias já! Ao leitor deixo a possibilidade de comentar o texto, como forma de opinar em relação ao livro e seu título ou em relação ao texto. Comente para pereira.gj@gmail.com ou pereira@elogica.com.br ou ainda não comente e não se pronuncie, nada expresse e nada exprima.
domingo, 3 de agosto de 2008
Uma Toalha de Banho
(*) – Crônica que ofereço ao meu dileto colega e vizinho de rua, João Sabino Pinho, que atende esses meus pedidos e o faz de uma forma afetuosa e gentil. E que ofereço a outro, igualmente abnegado, pronto para me atender, sempre: Salvio Freire.
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