sábado, 26 de maio de 2007

Folhas Secas

Li e reli a carta de uma senhora alemã de 79 anos à sua nora, pernambucana deste rincão e tirei dali lições que vou guardando para o meu doravante. Diz a missivista que vive o outono da existência, sentindo a lentidão a lhe tomar o todo, pouco a pouco, no pensar sobretudo. Mas, recomenda, com sabedoria, à jovem nora que guarde os domingos para o Criador ou os reserve à família. E conta que em seus passeios aos bosques germânicos, vez ou outra, recolhe uma folha solta ao vento, largada ao léu. Nota que é seca, amarelada, embora traga sempre pequenas manchas verdes, as quais desaparecem depois de guardada por entre as páginas de um livro qualquer. A dona Ângela Efken, certamente, não imaginava que um cronista bissexto fosse tomar as reflexões de sua missiva e aproveitá-las em ocasião assim, de recolhimento d'alma e meditação do espírito, num domingo qualquer de tropicalidade aflorando. Uma reconciliação com o sentimento, então!

Eis a plenitude da idade, o ápice da experiência existencial! Foram anos e mais anos contados em décadas, reunindo vivências e convivências, convívios afinal sintetizados assim, num filosofar posso dizer doméstico, a sagrada forma de se apontar veredas a serem seguidas, caminhos a percorrer e estradas a passar. E é nesse outono ou nesse ocaso e nunca por acaso, que o conhecimento do dia-a-dia, das práticas de vida, deve ser transferido, mesmo que haja a lentidão no gesto ou mesmo que o ato e o fato de pensar exijam um desusado sacrifício. A maturidade tem isso, traz o dano e a debacle, o declínio, pois, mas promove a serenidade e a paz, permite que a reflexão conduza os destinos e inibe a pressa irrefletida, tão comum na juventude e uma constante, quase, na adolescência dos anos. E a dona Ângela Efken enaltece a família, a célula mater e recomenda Deus, que é tudo, a concórdia e a humildade, a harmonia e o sossego.

A lição maior, todavia, está nas folhas secas recolhidas ao léu, nas gélidas paragens germânicas, todas com manchas verdes e que murcham quando deixadas por entre páginas de livros. Toda gente, do começo ao fim dos tempos, preserva nos interiores marcas assim, do viço e da força, para se alevantar dos baques ou para superar obstáculos, pedras do caminho e percalços nos atalhos da vida. Há sempre um recomeço! Uma mudança, uma transformação, a metamorfose da criatura, numa readequação aos cenários da existência! Verdadeira reengenharia humana! Ninguém, todavia, deve se encolher e restar prisioneira, de si ou dos outros, sob o risco de murchar, de perder o brilho e a cor, de se tornar um nada, que a nada pode criar. Só a criatividade realiza o homem, porque o aproxima, mais e mais, do Criador, que fez a tudo e a todos, que estabeleceu as leis da natureza e sustenta o universo em sincrônicos movimentos de rotação e translação.

Viver é um exercício difícil, uma sucessão ou uma alternância de ganhos e de perdas que inquietam, profundamente, o ser. Há uma cruz reservada a cada um! Algumas mais pesadas, lenhos de madeira bruta, à semelhança de rochas, que tornam a trajetória penosa e sofrida, que abrem incuráveis chagas! Outras, mais leves! A criatura, porém, enfrenta tudo isso, vai contornando momentos e dando a volta em minutos, desespera-se e chora o pranto sentido, rasga-se em lágrimas e parece sucumbir. Sente-se, por vezes, um palhaço no picadeiro da vida, arremedando humores que não tem e achando graça no nada do nada! Reconhece, afinal, as dificuldades da hora e se ergue! Há, sempre, um sorriso guardado, uma expressão de afeto reservada e um afago emergente! Aos que foram melhor aquinhoados e cuja aflição é menor, que não cumpriram a paixão e a morte, cabe compreender, entender a inquietude alheia, sem exigências, pois.

O verde da esperança há de vencer a palidez amarelada dos fracassos estabelecidos e das ruínas sentidas, afastando as ameaças do cinza de todas as derrotas e do preto de outras desgraças funestas.

Comentários também para pereira@elogica.com.br













segunda-feira, 21 de maio de 2007

Águas de Aldeia

A velocidade do tempo agora é diferente, as horas voam e os dias correm. A semana começa e termina numa rapidez impressionante. Levanto da cama, faço uma refeição ligeira e sigo às pressas para a hidroginástica, mergulho na piscina e exercito o corpo em manobras que interessam à musculatura toda. Volto para casa e me arrumo, saio outra vez, trabalho aqui e ali, lugares com salários e outros gratuitos e voluntários. Depois do almoço, o descanso, à tarde as horas de estudo, das leituras e das escritas. Assim, acabo de ter uma pesquisa publicada e enviei outra para uma revista. A participação no Conselho Estadual de Cultura estimula a dedicação à história da medicina e devo me voltar para escrever um livro sobre o médico de Nassau. Mas isso leva tempo. Que agitação! Um vaivém! Um ramerrame! Uma danação, diria o matuto se assim vivesse!

Surpreendi-me fazendo essas reflexões quando os feriados passaram e as minhas filhas com os meus genros se foram, levando a alegria das convivências parentais. Mal o sábado emergiu decretando o feriadão, já a terça-feira amanhecia trazendo a certeza das vésperas do retorno às atividades laborais. Olhei para cada uma e três filmes se sucederam no meu imaginário, do nascimento aos dias de hoje, da primeira e da segunda, ambas casadas, da terceira também, próxima como está dessa adoção da vida a dois, para cumprir o desiderato bíblico: “Crescei e multiplicai.” Tenho certeza que fiz como o condor: empurrei a cada uma para o primeiro vôo. Uma se vai para Madri, a segunda para o Ceará e a caçula para as Alagoas, parece. Ninguém imagina o que será de um filho aos dez anos de idade! E é isso mesmo! Mas há de se ter coragem para sacudir o filhote e fazê-lo voar!

Estou de volta à sacralidade do condomínio Bosque das Águas de Aldeia, onde agora posso reunir com mais conforto a família inteira. Aqui ouço o trinar madrugador do canário-da-terra, com direito ao corruchiar dos amores externando paixões. Canários abarrancados, como dizia ao mestre Francisco Brennand dia desses, mestre das artes e admirador da beleza dos pássaros. Sento no alpendre de casa e vejo a ventania estimulando o balanço sincrônico das folhas, assisto o saltitar do sabiá-gongá e o cantar melodioso da sabiá-branca. Por cá estão outros também, gente do porte de um Aldo Paes Barreto, que pontifica nos comentários sobre economia ou está um Paulo Caldas, da Bagaço e da Rua dos Arcos, cronista quase bissexto. A cada um posso encontrar, domingo sim e domingo não, na galinha à cabidela que um outro Paulo vem servir.
Vez ou outra coincide avistar na estrada Geraldo Freire na caminhada diária. De nada serve buzinar. Paulo Jardel, raramente o vejo, comprando frutas certa vez ou em sua casa numa visita, quando pude admirar uma coleção de quadros de pintores de Pernambuco. Coleção muito parecida à que deixou meu pai na sala de casa. Mas, sentado à ceia sempre está Alfredo, que faz o seu comércio na Ceasa e curte a paz dos anjos por aqui. Há pouco me comunicou, quase oficialmente, as negociações de Paulo Caldas para trazer Jessier Quirino a esses bosques paridos das intimidades hídricas. Renato Pina anda pra lá e pra cá, mas continua pegado com os começos da Faculdade de Medicina. Gilliat Falbo faz meses não o vejo por cá e Mozart – reitor –, de igual forma. Toda essa gente está em meus entornos a cada final de semana. Até Vizeu vai chegando por aqui! Que seja bem-vindo!

No fim do dia que o trabalhador deveria comemorar, a televisão mostrou os estragos da chuva e o computador expôs novas denúncias de roubo e de fraude. Voltei à realidade das coisas. Nada mudou! Nada muda!
Comentários também para pereira@elogica.com.br