sexta-feira, 20 de julho de 2007

Vento Encanado

Às vezes fico imaginando que nasci e me criei noutra era e não no século XX, tal o número de mudanças e de transformações que venho assistindo. É como se tivesse vindo ao mundo na pré-história! Naturalmente muito do que foi introduzido no cotidiano das coisas trouxe benefícios, mas houve também prejuízos a serem contabilizados e nesse cálculo do negativo inclua-se a globalização da linguagem produzida pelas redes de televisão. Hoje, nas cidades mais distantes e nos arrabaldes das metrópoles, fala-se da mesma maneira que os remediados da sorte das capitais. As antenas parabólicas, que se distribuem nos sertões nos agrestes, uniformizaram as palavras e as sentenças. Na Mata de igual forma, não há mais peculiaridade em se exprimir um sentimento. Agora, tanto faz o lugar e até a literatura de cordel contaminou-se, virou global.

O meu dia-a-dia, nos tempos de menino e nos anos de adolescente, era pachorrento, os fatos e os gestos se sucediam com a lentidão própria da época – nas décadas de cinqüenta e de sessenta – sem a pressa de hoje. Tinha hora pra tudo. Para acordar e tomar café, para chegar em casa e almoçar, para cear e jantar. Na atualidade as pessoas não têm hora mais para nada, sentam-se à mesa em momentos diferentes, servem-se e saem às carreiras. Dormem pouco e se atormentam com os compromissos, aqueles que foram cumpridos e os demais, não inteiramente superados. O comprimido que fecha a pálpebra é o mesmo que dificulta o raciocínio e atrapalha os negócios. A meninada só ia pra cama depois de ouvir Jerônimo–O Herói do Sertão e de comentar os diálogos de Aninha com o Moleque Sacy. Que beleza! Tudo tão inocente! Tudo tão puro!

Na saleta, onde os meninos faziam as refeições, ficava a petisqueira, na qual costumava-se guardar os alimentos, sobretudo as frutas, quase que diariamente compradas na porta de casa. Os talheres, também, incluindo as colheres de pau e a louça; a louça boa, nova e a louça velha, usada de anos. Aqueles pratos e aquelas terrinas com o nome de meu bisavô tinham uma origem respeitosa, vieram da Inglaterra, disso ninguém se apercebeu melhor e muita coisa quebrou-se. Havia uma posição à mesa que recebia uma rajada de vento nos meses de inverno. Minha mãe não descuidava: “Menino! Cuidado com o vento encanado!” E esse vento encanado ainda hoje assusta gente! Descansado o almoço, era facultada a qualquer das crianças tomar um banho, desde que com todas as portas dos quartos fechadas para evitar o maldito do vento.

E o tempo passou, maltratando a gente!
(*) Uma homenagem do autor ao mês de julho, o mês dos ventos.

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sexta-feira, 13 de julho de 2007

Cartas de Amor

Comprou um livro com designação e destinação mais que específicas, a tirar pelo título da obra, quase um opúsculo na verdade: Cartas de Amor. Leu o todo do texto com o arrebatamento dos apaixonados e o releu depois, com a calma dos amantes saciados, passando folha por folha, grifando aqui e ali palavras incompreensíveis em seu vocabulário, contanto que pudesse escolher uma daquelas missivas para a eleita de seu coração e fez a cópia manuscrita da que considerou a melhor. Ora, afinal, os flertes dos últimos meses, correspondidos sempre, davam-lhe a impressão, nítida e forte, de um namoro à vista, materializado até, em furtivos encontros pras bandas da Sorveteria Xaxá, na qual se reuniam rapazes e moças daquelas cercanias, da rua Gervásio Pires sobretudo. Meninos e meninas que cresceram e viraram gente!

Mas, não esperava que as tias da casadoira moiçola decretassem o veto cruel aos afetos que guardava e aos afagos que nunca ensaiara! A proibição veio, de logo, assim que descobriram as saídas mal explicadas e as idas desnecessárias ao Colégio Coração Eucarístico de Jesus, onde estudava à tarde, no Curso Pedagógico. E por isso, não deveria aproveitar as folgas que havia no serviço dos Fuzileiros Navais, para sair em plena manhã e se encontrar com o soldado de cujo número ninguém mais se lembra! Passou a andar de guarda-costas, com uma ou duas de suas parentes, irmãs do pai, pois que mãe não tinha, vigiando-lhe os passos. A rua inteira se apresentou em solidariedade ao amigo destroçado, que chorava as lágrimas dos impedimentos amorosos ou o pranto das separações impostas.

De nada serviram essas manifestações de apoio e desvelo, o homem não se cansava de repetir as palavras do Cristo: “Tudo está consumado!” Varou madrugadas em confissões intermináveis aos garçons da velha Cabana, no Parque 13 de Maio e salvou sonhos, sem antecipar do poeta a expressão do sentimento maior, a do espírito, que embala a alma: “Quem salva sonhos! Salva vidas!” Ficava horas a fio defronte à casa, moradia de sua musa encantada, encastelada agora sob as sete chaves desses rigores dos antanhos, aproveitando-se de uma ou de outra aparição na janela ou das ocasiões em que vestida com o encarnado forte da saia e com a pureza virginal do branco de sua blusa, dirigia-se à escola, uma tia à frente e outra tia atrás! Apreciava-lhe a face, de uma porcelana lúdica, quase, como aquela das bonecas que ela própria tivera nos anos da infância.

Desesperou-se e correu à livraria, percorreu a rua da Imperatriz todinha, parou no estabelecimento que levava o nome daquela via pública, de um comércio que se foi encantado no tempo deste Recife dos pretéritos vividos e adquiriu o desejado exemplar de suas vontades. Selecionou a epístola mais bonita que achou e rabiscou no alvo do papel: A perspicácia que te caracteriza, dá margens a que o meu amor por ti se concretize... . E não houve quem lembrasse de mais nada da seqüência daquelas declarações de amor, que recordo, tomou duas páginas do pergaminho tupiniquim, do melhor que existia, adquirido por lá mesmo, na secção de papelaria da loja de livros do judeu, Berestein por sobrenome. Escrevera, mas não entendera o sentido das frases e dos parágrafos, confessou, pedindo-me que lhe esclarecesse os pensamentos e até os sentimentos. Eu, também, não sabia!

E os anos se passaram, um pra lá e outro pra cá, casaram-se com gente diferente e tiveram filhos, plantaram árvores e colheram os frutos. Livros não escreveram, que os saiba pelo menos, para contar que sequer a perspicácia serviu para selar o amor que supera a dor. A meninada, da mesma forma, foi se aninhando em braços femininos! Alguns - poucos, todavia -, com as moças do lugar. Distantes, agora, nessa roda viva do existir humano, de quando em vez se encontram no efêmero das conversas, pois que a intimidade do antes foi perdida, como defende Luiz Fernando Veríssimo e remontam cenas desses outroras, mas se vão, novamente, cada qual pra seu lugar, onde não há espaço para lembranças de passagens assim, simplórias, porém carregadas de sentimentos!

E os amores se esvaíram com o peso dos anos!

Um bom final de semana aos leitores do Blog

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