quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A História dos Cachorros

Enquanto eu morava ali, nos limites – já disse isso – da Boa Vista com Santo Amaro das Salinas, mais Santo Amaro que Boa Vista, havia uma senhora muito distinta nas cercanias, viúva, embora muito nova. Sendo assim, precisava trabalhar pra fora e o fazia aplicando as suas habilidades de costureira. Fosse ao tempo de minha avó paterna, Beatriz de prenome, mereceria o pomposo título de modista, como era do costume nomear pessoas assim, com predicados similares. A minha avó tinha uma ou duas dessas modistas e com elas contava quando precisava coser um vestido, fosse preto, de seu quase eterno luto ou azul marinho, escuro, próximo do negro, de um certo abrandamento dos rituais da perda marital. Hoje, acabaram com o costume e após a Missa de 7º dia poucos lembram do extinto. Ninguém usa mais o chamado luto fechado e tampouco o fumo, com o qual os rapazes demonstravam a dor das perdas.
As três filhas da senhora eram amigas das minhas, também, três filhas, na correspondência de uma para uma ou seja a primogênita, a do meio e a caçula amigas e colegas de colégio das respectivas em minha prole. Assim sendo, conviviam numa e noutra casa. Raramente se desentendiam e ai, naturalmente, iam às tapas. Participavam na rua lateral das brincadeiras e dos folguedos inventados por um dos meninos, tido e havido como sendo o Prefeito da Rua, tal a dedicação com que fornecia a bola do vôlei ou os jogos de mesa, à semelhança do Banco Imobiliário. Sem falar que costumavam jogar com o significado das palavras, o que, por certo, as fez mais ricas no que toca ao vocabulário. Quando estava na Universidade Federal de Pernambuco, era comum à minha caçula utilizar-se de palavras próprias da liturgia acadêmica, tais como: capelo e samarra. Ninguém sabia o sentido dessas estranhas e quase jurássicas palavras.
Numa tarde qualquer de um mês que não lembro mais, a senhora recebeu uma visita importante, gente de classe alta, mulher fina e elegante. Visita que chegou trazendo três cães de raça pura, puríssima, os quais se soltaram no jardim e no terreiro da casa de Dona Florbela (nome fictício). Corriam desembestados por todos os cantos e fuçavam os recantos que encontravam, como se promovessem um verdadeiro resgate do espaço que não dispunham no apartamento que habitavam. Uma festa canina, pode se dizer! Um desses encontrou até um rato de grande porte – um gabiru –, passando-lhe os dentes mal afiados. Foi serviço para o cachorro largar a presa magnífica com que se deliciava. Afinal, largou o indesejado animal e voltou para Boa Viagem, bairro nobre do Recife, habitado por gente da burguesia e objeto das tentações da classe média.
Lá pras tantas da noite, passando das 23 horas já, a dondoca liga para Dona Florbela e se queixa que os seus animais de estimação estavam vomitando muito. Indagava se havia o que suspeitar na casa da costureira, modista para outros. A senhora pensou, pensou e lembrou que havia veneno para rato espalhado no jardim e outras doses distribuídas no quintal. Expressou, então, a existência do velho “1080”, de uso proibido pelas autoridades sanitárias, o que fez a outra mulher, Clotilde (nome fictício) de prenome, estremecer nas bases. Um veterinário que morava perto foi acordado e chegou ainda zonzo para atender os bichos. E conversa vai, conversa vem, feneceram todos, morreram nos braços firmes bem tabalhados de Clotilde. Foi um horror! Mas, como toda tragédia tem uma comédia pelo meio, cuidei em fazer uma paródia, imitando uma cantiga velha que ouvia das empregadas de casa nos anos de menino. Começava assim: “A história da maçã é pura fantasia/...”.
“A historia dos cachorros é pura fantasia/Eu li num almanaque um dia de manhã/O cachorro estava com fome/E comeu o tal veneno/Comeu com casca e tudo/Não deixou nem um pedaço...”. E isso foi cantado e decantado várias vezes. Ainda hoje, quando encontro uma das filhas de Dona Florbela, não hesito e vou logo entoando os versos, paródia da velha cantiga. É nisso que dá dividir a moradia com a rataria, como fazíamos todos naquele lugar. Era rato por cima de rato. Catita e gabiru, rato de esgoto e rato doméstico. Tanto rato, tanto rato, que uma vez fui calçar um sapato e havia uma catita acomodada no bico do calçado. A minha filha mais velha também, e ainda hoje tem cuidado, quando vai se calçar de manhã cedo, para sair.
(*) Se interessar comentar, não hesite, comente no espaço do Blog mesmo ou escreva para pereira@elogica.com.br ou para pereira.gj@gmail.com Isso agrada o autor. Mas, se não desejar, não comente, nada diga. Mas, leia!


quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Mãos ao Alto

Era uma noite de sexta-feira ou uma noite de um sábado qualquer, quando ele bateu em minha casa pela primeira vez. Bateu e falou de uma forma inusitada: "Vizinho! Vizinho!". Levantei de onde estava e o atendi, ouvindo a inesperada pergunta: "Eu moro aonde?". Querendo fazer blague, sem notar, talvez, que ele estava bêbado, respondi: "Por que o amigo não compra o Guia Prático, Histórico e Sentimental do Recife, escrito por Gilberto Freyre?". Foi pior, pois o meu interlocutor de ocasião conhecia, pelo menos alguma coisa, do sociólogo de Apipucos e quase entra nos detalhes de Casa Grande & Senzala ou quase entra nas peculiaridades ecológicas e edáficas de Nordeste. Era meu vizinho, realmente, mudara-se naquele dia e não fixara bem a sua moradia. Bastou explicar como era seu apartamento, para lhe orientar a voltar para o convívio familiar.
Noutra ocasião, voltou a bater, noite alta já e o pedido foi ainda mais estranho: "Vizinho! Vizinho! Paga o meu táxi!". Ora, mais essa é boa, quase digo. Não disse! Fui lá fora e indaguei quanto lhe custara a corrida, de onde viera e para onde ia? Era pouco, não hesitei, honrei o compromisso do homem. No dia seguinte a esposa atenta trouxe o dinheiro em espécie e me pagou. A verdade é que residia nos limites de Santo Amaro das Salinas com a Boa Vista e, vez ou outra, enfrentava situações assim, em tudo incomuns. Já andei contando outros episódios, como aquele de um vigia, igualmente embriagado, que seqüestrara o meu cão e cobrara R$ 1,00 pelo resgate. Paguei para me livrar da cantilena, mas o penitente tinha uma cadela no cio e o diabo do cachorro voltou ao cativeiro. Diante da nova cobrança de resgate, com preço dobrado, disse-lhe as últimas e neguei o valor de uma bicada a mais na bodega da esquina.
De outra feita, o tio de um vendedor de cachorro-quente, conhecido por Boy, ligou para mim, no final de semana, também e achando que eu resolvia toda e qualquer bronca do mundo, apresentou-se e fez a solicitação pendente: "Boa noite senhor! É o tio do Boy!". Fiz de conta que tinha grande intimidade com o Boy e continuei a conversa: "Diga lá o que houve?". E ele explicou com riqueza de detalhes o seu intento: "É que morreu a avó do Boy, em Vitória de Santo Antão, e eu preciso de uma caminhonete para trazer o corpo!". "Ora, meu senhor, não sou agente funerário, não disponho desse tipo de veículo e de mais a mais, é proibido fazer esse transporte sem a devida autorização!". Mas, dei ao suplicante o telefone de um amigo de minhas filhas, Fofurinha, por apelido, cuja resposta fez o tio do Boy indignar-se: "Diga à avó do Boy que ressuscite, tome uma Dipirona e só morra na segunda-feira!". Foi um deus-nos-acuda!
Naquela rua acontecia o que o diabo duvida de costas em qualquer sexta-feira santa que se preze. Certa vez, abri a porta da garagem e vi uma quantidade enorme de fotografias jogadas fora, juntas, reunidas no pé de um grande oitizeiro. Apanhei os retratos, um por um, e fui observar de que se tratava ou de quem se tratava. Mostravam cenas de uma família em viagem pela Europa e a tirar pelos oferecimentos escritos no verso de cada um daqueles postais, traziam instantâneos e poses da mulher e dos filhos com o novo companheiro, um gringo, tudo oferecido ao marido largado, deixado no Brasil. Coisas assim: "Aqui numa viagem de trem. Eu e Richard! Você nunca me daria isso!". Ou assim: "Aqui, as crianças brincando com a neve, acompanhadas de Richard! Você nunca falou em neve!". E por ai vai! Ora, foi uma pândega, porque as meninas levaram a esquisita coleção de fotos para o colégio e passaram a identificar os colegas em cada um daqueles personagens. Uma verdadeira patuscada!
Numa manhã de segunda-feira, quando os estudantes passavam em direção aos respectivos colégios e os carros que faziam de minha porta o maior estacionamento público de veículos, um padre velho acabara de celebrar sua Missa matinal e voltava para casa. Foi assaltado e gritou. Eu estava à janela e vi, saquei de uma arma - houve tempo em que tinha um revólver - e fazendo como um cowboy, dei um tiro no solo do jardim e diante do susto ou da inesperada abordagem quase litúrgica, gritei palavras com nexo e outras, inteiramente, desconexas, sem que tivessem ligação alguma com o fato:"Ladrão safado! Mãos para o alto! Renda-se! Rogério, Sileno, Vadeco!". Chamei pelos parentes com os quais tinha mais proximidade. Não sei se buscava proteção ou se os convocava assim para pegar o gatuno. Valha-me Deus dos céus!
(*) - Esta é a primeira crônica do ano de 2009. Depois de um ano inteirinho escrevendo e obtendo do leitor a melhor acolhida. Tive perto de 17.500 visitas, o que me satisfez e o que me estimula a continuar nessa faina, a de escrever e a de publicar. Sou grato e desejo aos que acessam o Blog de todas as partes do mundo felicidade e paz. Hei de continuar por aqui, os que se interessarem comentem para pereira@elogica.com.br ou para pereira.gj@gmail.com Ou não comentem e não escrevam.