terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Preço da Honra

O Nordeste é uma Região de muitas histórias, de lendas cujas narrativas passam de geração a geração, nas palavras carinhosas das avós ou no frasear lúdico das tias velhas, condenadas ao caritó, quase sempre, no outrora dos anos. Gente do cabelo branquinho, como a neve que recobre a imensidão das montanhas de onde vieram muitas dessas fábulas. A Comadre Florzinha, a Caipora ou o Curupira foram cantados e decantados por Ascenço Ferreira, em versos que resgatam a pureza do popular; de um popular, nem sempre rural, porque urbanizado, também ou rurbanizado. Histórias e estórias que preenchem o imaginário da gente matuta e da gente sertaneja, cujo tempo, tantas vezes, é consumido em conversas fiadas em fim de tarde nos alpendres modestos de simplórias moradias ou nas amplas varandas das casas grandes. Essa arte de fiar conversa ainda persiste nos interiores do Brasil.
É uma história assim que ouvi de quem nasceu e se criou na Paraíba, de nome Margarida Hercílio, lugar como muitos outros deste Nordeste de Deus, sofrido e ao mesmo tempo resignado, cheio de crenças e repleto de assombrações, onde o povo, à falta do que fazer ou em que se ocupar, levanta essas questões ligadas às almas penadas ou aos espíritos zombeteiros. Povo de muita fé, de esperança ainda maior, carregado de amor, de zelo, de piedade e devoção. O caso se passou pras bandas do Sítio Pedra Branca, onde dois grandes amigos tinham se juntado numa sociedade informal para fabricar sapatos e seguiam muitíssimo bem no mister de oferecer ao couro a desejada forma de um calçado, que desse conforto e permitisse o andar ou o passear pelas picadas e pelos atalhos abertos no meio do mato.
Um dos amigos era encarregado de comprar o couro a muitas léguas de distância, e fazia o caminho todas as semanas, em dia e hora acertados antes com o fornecedor, contanto que não falhasse o esforço e a missão. O material já vinha curtido, pronto para a manufatura. Mas no caminho o viajante nunca deixou de flertar com a morena bonita e faceira que morava perto do ingazeiro. Os olhares se cruzavam quando o galope do alazão dava sinais de proximidade daquele passante habitual, semanal sempre. Até que se achegaram e se enamoraram, para depois noivarem. E conversa vai, conversa vem, Mariazinha foi desonrada por Miguel de Santana. E na roça, ainda hoje, prevalecem os costumes da virgindade preservada e da honra sustentada a todo custo. A gravidez despontou e o casal jurava fidelidade eterna.
A fabriqueta dos amigos ia cada vez melhor, com a produção aumentando a olhos vistos. Sapatos e mais sapatos eram vendidos e para a nova demanda o couro vinha se tornando escasso. Era preciso buscar novo fornecedor e a localidade escolhida por Miguel, comprador oficial da quase empresa que se formara, foi Santa Cecília, para onde partiu assim que pôde. Foi esquipando em seu alazão de estimação, mas não pôde evitar que numa ribanceira despencassem os dois, o animal valente e o homem encarregado de trazer o couro: tombaram e morreram. Por lá ficaram, no ermo do lugar. Mas Miguel tinha uma dívida que não se deixa neste mundo de Deus, sequer por morte. Por isso, a alma do moço teve que ficar nos afazeres da sapataria, forjando os calçados todos que podia, numa proporção nunca vista. Sapatos e mais sapatos todos os dias. Ao sócio explicara que passara por um acidente grave, ficara perdido no meio dos agrestes e para não morrer de fome vendera o cavalo.
O companheiro, todavia, Jonas de prenome, achava estranho o fato de seu velho amigo nunca almoçar em sua companhia. No intervalo do meio-dia desaparecia e entrava na mata. Não resistiu, certa vez, e foi atrás de ver o que se passava, o que fazia Miguel, afinal, por entre as árvores. E viu o sócio tomado por um arco de fogo que o consumia, queimando-lhe as carnes e fazendo arder em chamas todo o corpo. Escutou, com os ouvidos bem abertos, os gemidos dele, o sofrimento que passava ali, com aquele castigo que ignorava as razões. Não era possível admitir isso, ficar sem saber desse martírio a que se submetia Miguel e resolveu, então, falar e pedir explicações. E foi com perplexidade que ouviu na voz trêmula do colega a narrativa dos fatos. E escutara, mais do que atento, a dívida que deixara e de que precisava agora.
Não descansaria em paz se Jonas não se casasse com Mariazinha e dessa forma pagasse a desonra que fez. O companheiro de jornada pensou e refletiu com os seus botões. No fim, no fim, decidiu-se pelo casamento, mesmo sem conhecer a noiva, parceira no doravante dos dias e partiu para a casa da família. Chegando lá conversou com a moça em particular, vencendo os protestos do genitor admirado, desorientado, indeciso e contou o ocorrido, assistindo as lágrimas rolando na face jovem da quase menina, como era. Disse que casaria para salvar a sua honra e pediu a mão dela ao pai. Marcaram a data e na igreja do lugarejo fizeram a cerimônia, sempre com a presença, visível apenas para Jonas, da alma de Miguel.
E quando voltaram para casa, Miguel como acompanhante cativo daquele périplo, viram a toalha branca posta na frente da porta de entrada, simbolizando, como sucede nos sertões esturricados, a preservação da honra. E pisando no alvo do pano despediram-se os noivos de seus pais e Jonas abraçou-se com o amigo que sofria com o fogo quase eterno. E ainda viu, mais adiante, o companheiro de tantos anos subindo aos céus numa roda de luz cuja luminosidade encantava a qualquer um que pudesse vislumbrar a cena.
E por lá, ainda, se conta nesses anos de meu Des, que Miguel entrou no reino dos céus, mas garantiu a salvação, também, do amigo Jonas, pela fidelidade de uma amizade que só se encontra nos distantes sertões, onde a honra de uma moça vale o sacrifício de uma vida. Entre os dois está Mariazinha, toda vestida de branco, uma noiva que viveu feliz, teve muitos filhos, netos e bisnetos.


(*) Texto enviado sob a forma de gravação (voz) para o concurso Talentos da Maturidade. Como não fui selecionado, sinto-me livre para divulgar. Trata-se de uma história que me foi contada por Margarida Hercílio, recepcionista do Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (NUSP), da UFPE. Comentários no espaço do Blog mesmo ou para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Literalmente na Fossa

Há tempo pra tudo, está escrito. Tempo para semear e tempo para colher. Há também um tempo das alegrias e um tempo para se curtir uma fossa, com as tristezas todas dessa condenação tantas vezes injusta. Nos meus anos de adolescente ou no meu tempo de jovem, dizia-se que experimentar uma fossa era suportar a dor da ruptura. Muitos amores feneceram e foram chorados na musicalidade dos cantores da época. Waldick Soriano gritava, em alto e bom som: “Eu não sou cachorro não...” E Nelson Gonçalves se deixava embalar por Maria Bethânia, cuja inspiração nasceu do imaginário fértil de Capiba, pernambucano ilustre e talentoso: “Maria Bethânia tu és para mim,/A senhora do engenho/Em sonhos eu vejo/Maria Bethânia/És tudo que eu tenho...”
Já vi muita gente amargar os horrores dessas fraturas do amor. Gente que se senta num canto de bar e bebe todas. Ouve um dos cantores especializados nessas baladas de todos os lamentos e deixa a fantasia ganhar os ares das ilusões perdidas. Até o Carnaval é pródigo – ou foi pródigo no passado – em letras de interminável lamúria, dos queixumes duradouros e do lengalenga do pranto das ruínas ou dos fracassos. Lembro-me de um amigo, apelidado de Cururu Pei-Pei, que chorou horrores, quando a sua musa encantada o trocou por Lambreta. No dia da despedida de solteiro, quase emborca todas no velho bar do Parque13 de Maio: A Cabana. E aquela musa, para quem foram as lágrimas do Cururu, terminou viúva, como a mãe, sem o sapo que lhe amava e sem o outro, com cognome de um veículo hoje em desuso: a lambreta. Não puderam amar aquela musa encantada. E eu nem sei dela hoje, tampouco de Cururu Pei-Pei.
Mas, há uma outra fossa, aquela que se vive literalmente falando, isto é, a do contacto direto com o material escatológico. Foi o que me aconteceu em três ocasiões distintas. Uma dessas, francamente, amigo leitor, não há jeito lembrar, mas das outras duas, recordo sem saudades. É que vinha, certa vez, pela rua Carneiro Vilela, nas proximidades da Igreja Episcopal Carismática, à noite, durante uma chuva forte. Estacionei o carro e quando fui trancar o automóvel, sem prestar atenção, mergulhei numa boca-de-lobo e fui bater no fundo, molhando-me todo, da cabeça aos pés. A sorte é que a água do enorme buraco não era outra senão aquela de origem pluvial. Lá no fundo da abertura, ainda deu para notar que havia dois caminhos hidráulicos, isto é, um para o rio, destino de todas as águas que caem dos céus e outra para a continuidade da encanação. Saí todo molhado, não precisa dizer, mas fui ao compromisso que tinha, em que pese a admiração dos circunstantes.
De outra feita, voltava da faculdade para o almoço e trazia de carona um velho amigo, cujo hábito era esse, o de andar sempre comigo. Precisava antes ir ao centro da cidade, já não lembro mais pra quê ou por quê. A verdade é que estacionei o carro e vim andando à rua que desejava. Não vi a abertura de uma tampa do saneamento diante de um prédio e fui ao fundo, literalmente na fossa. Sai dali sem ajuda de ninguém, porque os transeuntes não param para socorrer um penitente sujo até a alma de fezes. Era o que estava acontecendo comigo. A bolsa ficou a salvo por ter permanecido na calçada, mas eu voltei daquele alçapão imundo, com fragmentos de restos humanos presos à minha roupa branca – roupa de médico –, um verdadeiro horror. Não adiantava parar um táxi, pois não se transporta quem está nessa situação, sujo e fecalóide, pelo que o jeito foi seguir a pé, contando os postes até em casa.
Interessante foi a minha passagem pela Universidade Católica, uma forma que tinha de cortar o caminho para a moradia. As pessoas me olhavam e me passavam a impressão de estarem admiradíssimas. Era como se pensassem, diante da figura de um homem bem vestido, todo de branco, com uma pasta 007 à mão, mas repleto de fezes: “Este senhor costuma passar por aqui tão bem e agora está assim, pior que um vagabundo!”. Gente que me conhecia, ligeiramente, virou o rosto e gente que nunca me vira, com nojo de meu estado, deu as costas e fugiu daquele cenário, cujo ator era eu, um suplicante que parecia expiar os pecados todos do mundo. Ora, Deus do céu, se existe perdão para as minhas faltas, creio que o episódio me serviu à absolvição. Se não me assegura as benesses do paraíso, deve me levar à transitoriedade do purgatório.
É desnecessário dizer que quando abri o portão de minha residência a reação foi geral e irrestrita: “Vá tomar banho, imediatamente, no banheiro de detrás e depois venha cá, contar a sua desdita!”. Que horror!
Eis ai a expiação dos pecados, literalmente, numa fossa! Eu te esconjuro cão dos infernos!

(*) Ofereço essas linhas aos companheiros que já passaram por coisa semelhante e tanto quanto eu se emporcalharam nas fossas abertas nas ruas das cidades grandes. Leia e comente no espaço do Blog mesmo ou para pereira@elogica.com.br ou pereira.gj@gmail.com