domingo, 7 de novembro de 2010

Consertador de Panelas

Como esquecer do consertador de panelas, que passava oferecendo os seus préstimos às custas do toque cadenciado e peculiar de um pequeno varão de ferro sobre uma frigideira usada? O simples escutar dessa musicalidade característica, produzia na cozinha um rebuliço e as peças de alumínio furadas eram, de logo, selecionadas e entregues ao especialista na arte do remendo. Voltavam novas, praticamente, trazendo no fundo, sempre, o acréscimo de que precisavam e tinham a destinação habitual, a do cozimento, a depender, apenas, da receita do dia. Quando a galinha ia para a mesa, por certo que fora comprada ao homem que a cavalo trazia dois caçuás de penosas, um de cada lado. Cabia ao comprador sustentar a ave pelas asas e optar pela de peso maior, pois que o preço era unitário somente, não interessando os quilogramas a mais, de um ou de outro exemplar. 
Musicalidade mais apurada, entretanto, era a do amolador de tesouras, de facas, também, que usava um instrumento assemelhado a um realejo, do qual nasciam as notas da oferta. Um desses tinha parte do antebraço amputada, mas com um revestimento de couro, uma luva apropriada, manuseava a peça, cega por hora. Usava um carrinho que vinha empurrando e ao primeiro sinal de serviço a ser realizado,  invertia a posição, alinhava a polia grande de borracha e com o pé num pedal artesanal girava o esmeril. Na realidade, terminava desgastando as lâminas a serem amoladas e em casa de toda a gente algumas das facas não serviam mais para atender às visitas ou aos mais cerimoniosos da família. Eram facas da cozinha, dizia-se.
O vendedor de pirulitos, com uma tábua toda furada e os doces cônicos encaixados, usava um apito e ia passando adiante o seu produto de fabricação caseira, que pregava nos dentes. Já o homem das vassouras e dos espanadores era diferente, trazia um material de cabos coloridos e de pilosidade formando desenhos, para o chão da casa e a poeira dos móveis, além de vender, também, o vasculhador, que passado no teto sacudia as aranhas, afugentando-as das teias. Tinha um grito característico, chamando a atenção para a sua variedade em material assim, destinado à coleta do lixo doméstico, o grosso e o fino. Mas a oferta da lã de barriguda para travesseiro era cantada em versos sem muita rima: “Eu tenho lã de barriguda/Para travesseiro.” E como não havia a espuma de hoje, sintética e mais prática, conseguia boa freguesia nas ruas por onde passava. Era preciso encher esses apetrechos, que nos servem à cabeça, para um bom e reparador sono, a intervalos de tempo certos.
O peixe, do mesmo jeito, chegava à porta de casa, vinha em dois balaios, os quais, sustentados por cordas à ponta de um suporte de madeira carregado às costas, pendiam livres, quase, balançando, pra lá e pra cá, à medida que o vendedor andava pelas ruas e oferecia o produto gritando. Alguns desses homens do peixe faziam verdadeiros malabarismos com os balaios. Paravam, então, e apresentavam as espécies e as espécimes de que dispunham, utilizando-se depois da tábua para preparar as postas, tudo segundo as preferências do freguês. Peixe fresco, ao tempo, sem a ação, às vezes deletéria, do gelo, que da carne branca rouba o sabor. Com os anos, apareceram os frigoríficos e a albacora popularizou-se na mesa do recifense. Mas, o nome desse bicho dos mares era muito aplicado como apelido para as mulheres gordas, ricas em adiposidades.
E o vendedor de cambará? "Olha a bolinha de cambará/Dois pacotes é um vintém...” Há, ainda, quem sinta saudade do velho acendedor de lampiões das ruas do Recife! Desses não lembro! Não esqueço, todavia, do acendedor das lâmpadas dos velhos postes de metal de meu bairro, ligando as chaves e alumiando o tempo.

(*) Foi difícil encontrar as fotografias apropriadas ao texto. Quase não há registros desses figurantes das ruas. Assim, segue o texto, escrito há mais de uma década pra trás, mas atualizado em lembranças e saudades. Comente o leitor no espaço mesmo do Blog ou o faça para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com  

domingo, 31 de outubro de 2010

Os Macacos da UTI

Corria o ano da graça de 2005, era o mês de janeiro e eu estava doente, tinha duas vértebras fraturadas e uma dor constante, forte e incômoda. Eu não podia, sequer, me levantar da cama e até as refeições fazia deitado. Comia o arroz com feijão de colher e ainda tinha que acrescentar a carne, que vinha cortadinha para facilitar a ingestão. Os médicos se dividiam e não havia um diagnóstico definitivo. Com uma suspeita de câncer, não queriam me operar, de nada serviria me reparar a coluna, porque a morte viria de logo. A verdade é que nada havia de tumoral e eu encontrei um profissional abnegado que assumiu o risco de minha operação. Depois de 13 horas no bloco cirúrgico, eu estava um caco e quase morro na UTI. Ou eu já cheguei no hospital virado num caco.

Mas o trágico ou o quase trágico tem o cômico para se contrapor e é o que conto agora. Ansioso como me encontrava, fui medicado pelo plantonista com um produto farmacêutico que me fazia delirar ou mesmo alucinar. Eu já sabia a cor do comprimido e as horas de minhas viagens farmacológicas. Era um horror! As coisas começaram na UTI mesmo e eu lembro de ter visto na porta de entrada um grupo de japoneses que trabalhava comigo na universidade, chegando para uma visita. Gritei de lá, de meu leito: “Deixa entrar! São meus amigos!”. Não entraram! Foram barrados, como vi em minhas divagações fantasiosas. Reclamando da enfermeira – não sei se reclamei de verdade – soube que ela havia guardado os cartões dos pretensos e virtuais visitantes. Os japoneses onde chegam deixam cartões! Eles nunca foram lá, soube depois.

O pior é que via sempre um dos auxiliares de enfermagem numa parte superior da enfermaria, avarandada, uma criação de meu imaginário, de onde fazia caretas para mim e de onde ameaçava inundar tudo com a água que podia manipular dali. Era um sofrimento danado e não adiantava tirar os olhos, porque mesmo assim o via em cada posição de meu olhar. Eu vinha causando um transtorno grande no lugar e reconhecia isso, mas a ansiedade era enorme. Sendo assim, de hora para outra, a televisão coletiva passou a exibir caracteres, forjados em minha imaginação, que recomendavam calma, tranquilidade e serenidade. Que eu me calasse e deixasse de incomodar os outros. Aquilo ali era uma UTI, todos estavam doentes, uns mais e outros menos, mas eram todos portadores de alguma injúria orgânica, por isso não aguentavam mais as minhas reclamações e as minhas queixas.

No quarto, em certa ocasião, minha mulher chegou para dormir comigo e eu estava trombudo, fisionomia fechada, calado, ensimesmado. Ela indagou o que se passava e eu expliquei: “Você foi hoje à televisão Globo e mostrou o seu livro no programa de Ana Maria Braga. Gostei do título, mas não precisava dizer que é casada com um Reitor e que eu tinha uma amante, dando o nome de uma ex-namorada minha.”. Ela levou na brincadeira e fez tudo para que eu dissesse o título de seu livro nessa alucinação do cão e eu não disse. Mas, não aceitei naquela noite que ela dormisse comigo. Afinal: “Todos estão ai fora comentando que eu estou doente, você fica comigo e eu tenho uma amante lá fora! Não dá!”.

A do médico que fez o meu ecocardiograma eu já contei por aqui, mas vou repetir. Não sei porque cargas d’água achei que estava em Lisboa e disse ao profissional: “Ilustre colega lisboeta: como explicar a rapidez com que cheguei aqui? Imagine que Cabral levou meses de Lisboa ao Brasil e eu quase não precisei esperar para aportar por cá?”. E ele, muito admirado com a pergunta, respondeu: “O seu médico lhe explicará tudo!”. Mas, como achei que estava numa fila de espera, na qual havia um cachorro, também, ainda indaguei: “Por favor! Onde está o cachorro que me antecedeu aqui?”. A resposta foi a mesma: “O seu médico lhe explicará tudo!”. Falando em bicho, ainda na UTI, identifiquei nos bolsos de um enfermeiro filhotes de macacos bem aconchegados. E na hora da visita disse a minha mulher: "Cuidado! Esse enfermeiro leva dois macacos nos bolsos!". É demais!

Quando identifiquei a droga que me causava essas estranhas manifestações, pedi ao médico que suspendesse. E assim foi feito! E eu voltei ao normal. A verdade é que tendo visto a morte de perto, passei a dar um valor extraordinário ao exercício da vida.

VIVA A VIDA!

 
(*) - Escrevi o texto como forma de mostrar aos leitores que nem tudo está perdido quando assim parece. E que a vida vale a pena, mesmo quando se tem limitações.Eu venci e hoje trabalho como nem sei o que, escrevendo o dia inteirinho.  Comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com