domingo, 15 de abril de 2007

Uma Vizinha Maravilhosa

O nosso cronista maior, Luiz Fernando Veríssimo, uma das penas mais lúcidas e mais saborosas do Brasil – Não se usa mais pena. Que pena! -, escreveu um artigo que leio em página da Internet: Uma Vizinha Maravilhosa. Falava de certa moradora há pouco chegada no bairro e que passou a ocupar um apartamento em frente ao seu. Uma mulher, como explica, que existe e não existe. Em outras palavras, para o escritor o cotidiano passa a ser uma mescla de realidade e de ficção, quando expressa o pensamento no papel ou como se costuma fazer hoje: quando materializado no écran do computador.

A partir daí assumi a condição de observador do meu entorno, sem desejar encontrar gente maravilhosa, mas interessado nessas rotinas domésticas, sobretudo aquelas dos finais de semana, nos quais há surpresas e fugas do repetitivo de todos os dias. Talvez os sábados e os domingos tenham mais utilidade do que as manhãs, as tardes e as noites dos chamados dias úteis, à exceção do que se assiste nas televisões do Brasil. Não importa imaginar, como Veríssimo, que a penitente faz tudo em função do vizinho mais antigo. Como na crônica do mestre, ela existe e não existe, tudo ao mesmo tempo.

Em prédio do tipo caixão, no segundo andar, depois de dois lances de escada, chega, pelas seis da noite em geral, uma criatura de seus quarenta anos. Mora só, já notei, mas muito raramente traz a sua companhia masculina. Jovem, bem mais novo que ela, cujo papel nos feriados é o de transitar em casa vestido em trajes menores. Ela abre as janelas todas como se precisasse de ar e vai ao banho. Sai do chuveiro às carreiras, com uma toalha enrolando a cabeça. Mulher bonita tem isso, envolve-se dessa maneira e deixa o resto a descoberto. Veste-se com uma camisola azul e vai assistir aos programas da telinha.

Vez ou outra desce e fica em frente ao edifício esperando alguém. Não se pode divisar bem se o acompanhante de ocasião é o mesmo dos feriados ou se não é. Parece não ser! Passeia, vai aos bares mais badalados ou assiste aos filmes em cartaz, mas cuida em voltar logo, pelas dez no máximo, pois amanhã é dia de branco, pensa. Cumpre o ritual de sempre e cai nos braços de Morpheu. O estado civil não se consegue esclarecer nesses contactos à distância, mas por certo é separada, sem filhos de um casamento efêmero, fortuito ou de um marido que não lhe soube apreciar os dotes físicos e intelectuais.

É do tipo pícnico, diria Lombroso, que teria uma paixão fulminante, se vivo fosse e por cá viesse. Baixinha e um tanto gorducha, cheinha melhor diriam, com destaque para um busto bem sucedido e cadeiras alargadas, como cumpre ser. Há pouco acrescentou umas gramas a mais e com certeza faz regime para resgatar pretéritos. Cuidadosa com a pele passa cremes e mais cremes no corpo, na face e nos braços, mas dedica-se à manutenção de sua performance glandular, fazendo movimentos circulares no tórax sempre. É fácil notar que usa condicionador do bom, importado, quiçá.

Nos feriados nunca dispensa a música mais antiga, as de Nelson Gonçalves especialmente. E Dolores Sierra ganha os ares da rua e todos já sabem, até as crianças, que nascida em Salamanca, cumpriu a rudeza da vida na beira do cais, em Barcelona, como tantas que vi. Há até quem brinque e indague: “Onde nasceu Dolores Sierra?”. Toda gente conhece a resposta! Ao que parece sente falta do pai, porque não deixa de ouvir uma letra a propósito dessas ausências sofridas, com toda certeza, na orfandade: “Naquela mesa/Está faltando ele/E a saudade dele/Está doendo em mim/...”. Dói mesmo! E como dói!

Toma uma lata de cerveja, cuja marca não se pode identifica saber de longe, depois dorme como uma justa diante do Criador e só acorda pelas cinco ou seis horas. Perde o sono da noite, porque com o passar dos anos o travesseiro fica ingrato, cansado, talvez, de acolher e acalentar. Por isso, arruma o guarda-roupa e nunca vi tanta peça de vestuário sendo posta e reposta ou exposta nos cabides e nas gavetas. Há lugar para tudo, imagino, para aquelas de maior luxo e as de seu cotidiano. Quando termina, a noite vai alta e não existe opção diferente do simplesmente deitar e dormir ou madornar, como dizia a minha tia velha.

E assim vai. Existe e não existe!

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segunda-feira, 9 de abril de 2007

Folhas Secas

Li e reli a carta de uma senhora alemã de 79 anos à sua nora, pernambucana deste rincão e tirei dali lições que vou guardando para o meu doravante. Diz a missivista que vive o outono da existência, sentindo a lentidão a lhe tomar o todo, pouco a pouco, no pensar sobretudo. Mas, recomenda com sabedoria à jovem nora que guarde os domingos para o Criador ou os reserve à família. E conta que em seus passeios aos bosques germânicos, vez ou outra, recolhe uma folha solta ao vento, largada ao léu. Nota que é seca, amarelada, embora traga, sempre, pequenas manchas verdes, as quais desaparecem depois de guardada por entre as páginas de um livro qualquer. A dona Ângela Efken, certamente, não imaginava que um aprendiz de cronista fosse tomar as reflexões de sua missiva e aproveitá-las em ocasião assim, de recolhimento d'alma e meditação do espírito, num domingo qualquer de tropicalidade aflorando. Uma reconciliação com o sentimento, então!

Eis a plenitude da idade, o ápice da experiência existencial! Foram anos e mais anos contados em décadas reunindo vivências e convivências, convívios, afinal, sintetizados assim, num filosofar, posso dizer doméstico, a sagrada forma de se apontar veredas a serem seguidas, caminhos a percorrer e estradas a passar. E é nesse outono ou nesse ocaso e nunca por acaso que o conhecimento do dia-a-dia, das práticas de vida, deve ser transferido, mesmo que haja a lentidão no gesto ou mesmo que o ato e o fato de pensar exijam um desusado sacrifício. A maturidade tem isso, traz o dano e a debacle, o declínio, pois, mas promove a serenidade e a paz, permite que a reflexão conduza os destinos e inibe a pressa irrefletida, tão comum na juventude e uma constante, quase, na adolescência dos anos. E a dona Ângela Efken enaltece a família, a célula mater e recomenda Deus, que é tudo, a concórdia e a humildade, a harmonia e o sossego.

A lição maior, todavia, está nas folhas secas recolhidas ao léu, nas gélidas paragens germânicas, todas com manchas verdes e que murcham quando deixadas por entre páginas de livros. Toda gente, do começo ao fim dos tempos, preserva nos interiores marcas assim, do viço e da força, para se alevantar dos baques ou para superar obstáculos, pedras do caminho e percalços nos atalhos da vida. Há sempre um recomeço! Uma mudança, uma transformação, a metamorfose da criatura, numa readequação aos cenários da existência! Verdadeira reengenharia humana! Ninguém, todavia, deve se encolher e restar prisioneira, de si ou dos outros, sob o risco de murchar, de perder o brilho e a cor, de se tornar um nada, que a nada pode criar. Só a criatividade realiza o homem, porque o aproxima, mais e mais, do Criador, que fez a tudo e a todos, que estabeleceu as leis da natureza e sustenta o Universo em sincrônicos movimentos de rotação e translação.

Viver é um exercício difícil, uma sucessão ou uma alternância de ganhos e de perdas que inquietam profundamente o ser. Há uma cruz reservada a cada um! Algumas mais pesadas, lenhos de madeira bruta, à semelhança de rochas, que tornam a trajetória penosa e sofrida, que abrem incuráveis chagas! Outras, mais leves! A criatura, porém, enfrenta tudo isso, vai contornando momentos e dando a volta em minutos, desespera-se e chora o pranto sentido, rasga-se em lágrimas e parece sucumbir. Sente-se, por vezes, um palhaço no picadeiro da vida, arremedando humores que não tem e achando graça no nada do nada! Reconhece, afinal, as dificuldades da hora e se ergue! Há, sempre, um sorriso guardado, uma expressão de afeto reservada e um afago emergente! Aos que foram melhor aquinhoados e cuja aflição é menor, que não cumpriram a paixão e a morte, cabe compreender, entender a inquietude alheia, sem exigências, pois.

O verde da esperança há de vencer a palidez amarelada dos fracassos estabelecidos e das ruínas sentidas, afastando as ameaças do cinza de todas as derrotas e do preto de outras desgraças funestas.

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