quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Um Domingo no Recife

Os antigos domingos do Recife eram bem diferentes desses de hoje! Dia de se juntar a família e de se fiar conversa com a parentada toda, atualizando a temática do inteiramente mundano. Tempo de parar e rever na paróquia do bairro ou na matriz do centro os pecados da semana, um a um contados ao cura, da forma a mais cochichada possível, contanto que não se pudesse ouvir da fila as faltas e as falhas. A penitência, determinada pela gravidade dos pensamentos, das palavras e das obras, era cumprida à risca! Três padre-nossos e três ave-marias. Intervalo mais que sabático para se fazer a demorada leitura dos jornais, com especial atenção ao caderno literário e aos fatos do esporte. O Santa Cruz jogando com: “Jorge de Castro, Aldemar e Edinho”. Momento reservado ao almoço diferenciado, da galinha de cabidela ainda não vulgarizada, selecionada no terreiro de casa dentre aquelas fora da postura e do choco, servida à mesa com sangria de bom vinho.

Quando o dia amanhecia ouvia-se de todo lado o repicar seguido dos sinos da cidade, um aqui e outro ali, alhures também, chamando os fiéis, que às vezes eram mais do que infiéis, para as missas. De casa, um périplo saia às ruas! Os meninos e as meninas à frente para serem vistos pelos pais mais atrás e finalmente, naquele séqüito que antecedia a liturgia e o rito, a avó e as tias, lentamente, como andam, ainda hoje, os velhos bem velhos. Na igreja era preciso ocupar mais de um banco para caber tanta gente! Os filhos, todavia, ficavam sob o rigoroso cuidado do pai e da mãe, metade para cada um, com o objetivo de aprenderem adequadamente o comportamento durante o ato da canônica liturgia. Nas passagens de maior significado a constelação familiar se ajoelhava, menos a avó e a tia velha, dispensadas pelo monsenhor, Camareiro Papal como era, do sacrifício dessa posição respeitosa. E cada qual portava um livro de orações, mais ou menos volumoso, a depender da idade. Todos, porém, traziam o terço, mas poucos os que se ocupavam com os mistérios: uns gozosos e outros dolorosos. Eu não gostava da forma como se classificavam os mistérios – os gozosos especialmente – achava sujo chamar assim. Não sabia as razoes da sujeira, entretanto!

O resto da manhã de domingo era preenchido quase sempre por um filme, no São Luiz ou no Moderno, a cuja sessão, mesmo que matinal, obrigava-se o paletó e a gravata. E não era muito raro pedir a um amigo emprestada uma peça assim de roupa, para compor a indumentária ou jogar do primeiro andar do cinema o paletó surrado para integrar outra vestimenta, enganando o porteiro. Dramas de amor encheram as telas e molharam a face de muita gente, deixando gravadas as letras chorosas das perdas irreparáveis: “Por que não paras relógio/Não me faças padecer...”. É possível que alguns introjetassem essas rupturas, antecipando os danos do amor que a vida muitas vezes reserva! Nas poltronas da platéia, invariavelmente, os casais enamorados trocavam juras e faziam promessas nunca vãs, roubavam os primeiros ósculos e ensaiavam os afetos dos inícios, de cujos começos emergiram amores perpetuados ainda.

Quando a tarde amornava o dia, expondo as árvores em grandes sombras, instalava-se a pelada ou o rasga, como se chamava esse tempo da bola. Juntavam-se os meninos todos da redondeza e um deles, o dono da bola, de borracha ou de couro, era invariavelmente escalado. Uns jogavam muito bem e outros muito mal. De todos, ninguém deu pra gente, isto é nenhum seguiu a carreira do futebol e na escalada da vida tiveram que trabalhar duro, amealhando centavos. Quem atrasado chegasse virava juiz e com o apito expunha à galhofa a mãe e a outros ancestrais assemelhados. A rua, inicialmente de terra batida, recebeu a modernidade que o asfalto trás e muito samboque de dedo foi arrancado nos chutes a gol, os quais se bem sucedidos valiam as feridas e as dores. Isso tudo a vizinhança renegava, porque a bola varava os ares e ia cair nos quintais alheios, provocando a ira da gente local e as lições de moral se sucediam, das casas que ficavam às margens do improvisado campo, sem grama e sem barra que fosse!

À noite, o cinema do padre! Mas isso é outra história! E outros quinhentos cruzeiros.

Uma crônica escrita há muitos anos atrás, no tempo do cruzeiro e nos dias de inflação. Um texto que lembra um domingo em meados do século XX, com um ritual de dia santificado completamente diferente de agora e com uma liturgia obrigatoria, sempre, aos sofridos penitentes de então, inquietos com a possibilidade, mínima que fosse, do pecado. E do pecado contra a carne ou a favor da carne, porque nada pode ser mais fraca. Comente também para pereira@elogica.com.br



E os meus domingos de infância se foram, encantados pra trás na esteira dos anos. Quase todos se transferiram desse mundo de Deus e dos homens e terminaram na dimensão do eterno. Que pena! Comente também para pereira@elogica.com.br

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Mulheres já Vou!

O cinema pertencia ao Padre Sales ou ao Monsenhor Doutor Francisco Apolônio Jorge Sales, como gostava de ser tratado, Camareiro Papal por derradeiro, título do qual muito se orgulhava. Era o Cine Soledade e cumpria a missão educativa de exibir películas de conteúdo sério, enredos suficientemente capazes de servirem à formação dos jovens e à reflexão dos adultos, como aquele da inauguração, quando apresentou o filme: O Coração. A história retratava a vida de um jornalista da imprensa diária e mostrava um de seus dias de grande cansaço, de exaustão quase, impedindo-lhe de escrever a crônica da manhã seguinte. O filho vendo o pai assim, exaurido, terminou sentando-se à máquina e exercitando a criação, deixando-lhe no dia seguinte perplexo e satisfeito com a ato e o fato. Impressionei-me com isso, confesso e sai meio perturbado com a minha incompetência para repetir o feito! Tendo recebido depois de meu pai a obra correspondente, escrita por Edmundo de Amicis, tomei aquilo como sugestão para a vida, a de contribuir também, de alguma forma, para a família e até a de substituí-lo na precisão da hora! Eu tinha dez anos apenas, vejo agora, relendo a dedicatória paterna e era incapaz mesmo para qualquer coisa! Mas, os tempos passaram e um belo dia pude realizar o desejo pueril, o de ajudar o jornalista no batente! Escrevi três de suas crônicas, mas não agradei, inteiramente: “Não escreva mais! O seu estilo é outro! Você diz umas coisas que eu não digo!”. E era isso mesmo! Não podia ser diferente! Mas, cumpri o desiderato filial!

O pároco da Soledade, porém, brindara a família toda com permanentes que davam acesso gratuito às sessões noturnas e às exibições vespertinas e eu fui inúmeras vezes à platéia assistir a um sem número de filmes. Vi de um tudo, dentro dos limites sempre das recomendações do cura. Outras fita, em tudo diferentes, à semelhança daquelas de Brigitte Bardot, como foi Europa de Noite, tinham que ser vistas no Trianon ou no Art Palácio, mas o resto o Cine Soledade exibia pra toda gente. Eu gostava de admirar as cenas da tela, sem desprezar as particularidades ou as peculiaridades da platéia! Certa vez, por exemplo, chegou uma figura interessante, um marmanjo barbado, e do andar de cima gritou: “Mulheres! Cheguei!”. Os espectadores deram uma gargalhada coletiva e o gerente não dispensou a falta, tomou o anarquista de ocasião pelo braço e foi de logo expulsando do recinto. O rapaz não perdeu tempo e novamente gritou: “Mulheres! Já vou!” Não precisa dizer da reação da platéia, a qual, outra vez, estourou em ruidosa e mais do que sonora gargalhada! Ali, no cinema do padre, muitos se iniciaram na pureza dos sentimentos, dos afetos e dos afagos ou nos amores quase platônicos em voga ao tempo, cochichando juras que não foram cumpridas ou fazendo promessas vãs, que restaram esquecidas aos ouvidos de agora. Havia à entrada uma boboniere, na qual se comprava o chiclete e se aliviava o hálito das declarações e dos amores. Perfumavam-se assim as palavras e as frases dos escuros e de outras cenas.

Quando a casa foi arrendada as coisas mudaram e a censura marcava a idade. A molecada, entretanto, não deixava de comparecer aos filmes impróprios até 18 anos, mesmo na situação atrapalhada à época, a da chamada menoridade!

E por ai vai! Ou por ai foi!

Uma das crônicas de meu livro anterior - A Medida das Saudades -, fruto de um passeio ao passado de quase 50 anos atrás. O padre que me batizara também me casara. E dessas duas cerimônias, vivos somente o catecúmeno e os nubentes. Todos ou quase todos feneceram à força dos anos. Comente a crônica também para pereira@elogica.com.br

Lembro o lançamento de meu livro - Fragmentos de meu Tempo - no próximo dia 22, quinta-feira, a partir das 20 horas, no Memorial da Medicina (antiga Faculdade de Medicina), na Esplanada do Derby, como chamava Delmiro Gouveia. Gostaria de contar com os leitores do Blog. Os que forem confirmem (pereira@elogica.com.br), pois que há um coquetel programado para o final do enredo.