segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Parição da Tarde

Bucólica manhã esta, a de um domingo qualquer, em tudo tropical. Ruas desertas de gente, sossegadas e silentes, como se o descanso se estendesse, também, ao inanimado urbano ou como se a brutalidade do concreto vergasse diante do bem maior: o dia consagrado ao Senhor. Sentado em cadeira branca, de plástico, sobre a laje de entrada da construção, o operário olha a avenida, preenche o tempo do ócio da prática que exercita, a de vigiar a massa de pedra e cal que ajudou a erguer, reunindo apartamentos nos quais hão de morar os remediados da sorte e os burgueses empedernidos. Durante a semana, vai sentando tijolo sobre tijolo, depois, reveste, com a massa fina e bem cuidada, parede por parede, sabendo que jamais poderá ser acolhido ali, naqueles cômodos. Estará condenado, sempre, às periferias insalubres ou aos distantes e sofridos rincões rurais.

O casal de idosos que chegou foi visitar uma das unidades, o chamado apartamento decorado, nunca inteiramente pronto. O operário levantou-se de sua tediosa pousada e acompanhou a dupla, passo por passo, com a lentidão da velhice. A boa idade, dizem alguns, escondendo as perdas, a falência do viço e a morte da beleza. O homem usava uma bengala para se apoiar, resgatando histórias ou estórias da infância, adivinhações da tia velha: O que é? O que é? De manhã anda de quatro! À tarde anda de dois! E à noite anda de três! A meninada já sabia, de cor e salteado, que era forma metafórica que a tia Deolinda aprendera para representar a criatura e as suas fases de vida, o engatinhar e a maturidade, em seguida a débâcle. Mulher sofrida, nunca casara e vitalina assim, como ficara, guardava nas lembranças a imagem do noivo morto na guerra. Na guerra? Sim, sempre guerra!

Os sanhaçus voaram de uma árvore à outra, a fêmea à frente, como cabe ser e o macho atrás, na protetora atitude. Pareciam bólidos da paz, tal a velocidade que alcançaram e tal o formato de corpo que assumiram. Duas flechas, quase, que sob os acordes matinais singraram os ares da rua. Do outro lado, pousaram e à sonoridade aguda de uma musicalidade sem par, ensaiavam o corruchiar das proximidades, formas carinhosas de seduzir que os homens perderam, por certo. Ninguém passa mais anos e anos andando de mãos dadas, roubando um beijo aqui e outro acolá, alhures também! Agora, é diferente: “fica-se”. E ninguém sabe direito o que é isso, sendo natural imaginar que não se trata de amor e que não pode ser paixão desesperada, que inquieta por algum tempo! Dantes, esses contactos demoravam anos para a completude. Era melhor!

E o operário voltou a seu canto, trouxe um papel branco e abriu com todo o cuidado, leu e releu, entendeu, certamente. Ligou o radinho de pilha e sintonizou na emissora que transmitia uma toada das saudades. Seria uma carta de quem ficou pra trás? Largada nos caminhos? Talvez! Essas manifestações do espírito, que no passado preenchiam os claros das aproximações, estão fadadas a desaparecerem, o computador e a rede vão condenando a forma epistolar de se expressar à simplicidade dos e-mails. Não se gasta mais tinta com declarações, pior com as rupturas. Fica-se e deixa-se, nada mais! Os namoros são virtuais, permitem às fantasias enfeitarem a imaginação alheia com adornos ou contornos que não existem, quando a realidade chega, tudo muda e a vida cai no cotidiano repetitivo de todos os dias.

Na moradia ao lado, a senhora está só. Mesmo assim, vestiu-se com uma blusa da cor da mostarda e uma saia preta, bem preta. Ficou bonita! Arrumada, como estava, desceu os andares e tomou o carro, saiu a passeio. Onde estará o companheiro? Difícil responder! Brigaram? Desentenderam-se? Viajou? Ninguém sabe! Ninguém viu! Mas, voltou logo. Já saiu contando as horas, ao que parece, diria Gonzaga, se vivo estivesse e se por cá viesse. Está um pouco mais gorda que o habitual, nos braços, sobretudo. Há vinte anos se poderia dizer que vive a felicidade a dois, mas hoje, infelizmente, os enlevos d’alma estão reservados às magras, caquéticas e mal nutridas figuras. O diabo é quem gosta! Trocou de roupa e sumiu, foi dormir. Agora, só vai aparecer à janela quando a noite chegar.

E a manhã se esvaiu, pariu a tarde!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O Mata-Borrão

Nesses meus sábados ou nesses meus domingos, imperceptíveis, quase, tal a atribulação do meu cotidiano, faço questão de aproveitar a emergência da inspiração e vou transbordando o coração assim, escrevendo. Há tempo para tudo, está escrito, também, para que a alma seja tomada pelas saudades ou pelas lembranças nostálgicas e tempo para que o espírito se encha de satisfação e plenitude. Como há momentos de quedas do humor e outros, de elevação desses sentimentos! Agora, com um computador novo, ganho de presente, da consorte – Com sorte, sempre! Graças a Deus! –, tenho condições diferenciadas para o meu processo, mais do que simples, de criar o texto, pois que ouvindo Josefina Aguiar e Henrique Annes, antecipando os grandes da música universal, Mozart e Tchaikovsky ou Beethoven e Chopin, vou sendo invadido por essa sensação de paz interior, com a sonoridade dos meus conterrâneos ou com os acordes do inteiramente clássico.
Ora, quem como eu fez uso da velha pena, que molhada no tinteiro a intervalos regulares permitia transferir para o papel o pensamento, é muito diferente sentar diante do monitor e observar as letras se juntando em abraços fraternais, formando palavras, as quais se reúnem nas frases e vão dando gosto ao período. Dantes, quando era menino e usava calças curtas, saía de casa para a escola com a minha caneta Compactor e o meu frasco de tinta, da marca Parker e de qualidade Azul Real Lavável! Mas, fiquei maior e na idade de rapaz cheguei, como todos os meus companheiros e não esqueceram os meus pais da lembrança que fazia crescer, também, no reconhecimento dos colegas, por isso me deram uma Parker 51, de cor azul, com a tampa dourada. Usei por anos a fio e tinha a satisfação de dizer a toda a gente que nunca escarrapichou. Há quem saiba mais que verbo é esse? Nem o computador aceita de bom grado a grafia.
E se tudo está mudado, mesmo, na pós-modernidade do tempo, a máquina de escrever desapareceu do habitual das coisas e só as delegacias de polícia resistem à antigüidade do velho equipamento. Era um sacrifício datilografar, diretamente, as minhas crônicas, nem, sempre agradáveis ao leitor, para quem transmito as minhas dores e os meus ardores, os meus amores, igualmente, muitas vezes de maneira tão enrustida, que só os de casa ou aqueles de meus convívios compreendem! Sempre usei os dedos todos das duas mãos em meus trabalhos, pois que na década de 1960, nos inícios desses doces anos, quase tirei o diploma de datilógrafo, para me garantir, dizia meu pai, e trabalhar no comércio, se preciso fosse! Se errasse, todavia, era um problema e a borracha de duas cores – azul e vermelha – entrava em cena, apagando o vocábulo e permitindo a nova escrita, mas ficava tudo borrado, sujo, verdadeiramente.
Um belo dia – já contei isso por aqui –, a minha mãe comunicou a todos, na hora do jantar, que tinha visto uma caneta nova, diferente, sobretudo, e trocando o nome, chamou de “Caneta Estereográfica”, cuja característica mais importante, explicou, em alto e bom tom, era a de não exigir o tinteiro e a de não esvaziar nunca, senão de uma vez só. Uma beleza! E de pronto, todo mundo no Recife adotou a invenção, com o efeito colateral de ter o bolso, quase sempre, completamente molhado pela tinta da novidade emergente. Eram rodas azuis na camisa de muitos pelas ruas, apontando o defeito dos começos, o vazamento comum desses apetrechos que chegavam. As marcas populares ganharam fama e ainda hoje a Bic anda por aí, mostrando a cor azul-escuro da tampa e o transparente do corpo. Rabisca o bom e o ruim, risca os discursos da elite e faz o jogo do bicho, aposta no carneiro e termina dando touro, converte ente e promove a descrença. É paradoxal, então!
E o mata-borrão? Há quem se lembre disso? Só os mais velhos. É que depois da frase escrita, havia a necessidade de secar a tinta, de enxugar os excessos e para tanto funcionava o então conhecido papel de natureza porosa, com o poder de sugar os excedentes da mancha gráfica daqueles antanhos. Eram promocionais, inclusive, porque veiculavam propagandas, de remédios, por exemplo. Estas, distribuídas aos médicos, como ao meu tio Hênio, de Campina Grande, faziam a mídia da época. E ele trazia em boa quantidade para nós outros, para o meu pai e para mim, para os meus irmãos e para a minha tia velha, que fazia de suas cartas a forma de resgate dos pretéritos perdidos em terras potiguares. Em casa havia uma peça de madeira bem cuidada, na qualse colocava o mata-borrão, propriamente, fixando-se fortemente e assim era possível usar de maneira mais ampla, no texto por inteiro, quase!
Tudo isso passou! O tempo mudou ou mudaram os homens? E agora, a máquina substitui a criatura, despreza a pena e aposenta a caneta, vai dispensando o papel e diminuindo as distâncias, dando ao penitente do hoje condições de acessar o mundo inteirinho, da baixaria à nobreza, da pornografia descuidada aos textos da ciência. E viva a pátria, o computador e os avanços! Mas, viva, sobretudo, o mata-borrão!

(*) - Um texto escrito há muitos anos atrás, lembrando peças de meu tempo de rapaz, relíquias hoje nas feiras de antiguidades. Este Blog é retransmitido pelo jornal virtual A Besta Fubana. O leitor comente essas linhas no espaço mesmo do Blog ou para pereira@elogica.com.br ou ainda pereira.gj@gmail.com