segunda-feira, 17 de março de 2014

O tempo do antes


Acabo de chegar do banco, fui pagar as contas atrasadas, depois que a empresa encarregada das entregas (os correios) fez uma greve de arrepiar. O rapaz que me atendeu queixava-se de uma dor lombar forte e disse que iria ao médico, depois que o alertei o quanto era jovem para estar assim, penso de uma banda. O seu comentário de que alguns consideravam o serviço que desempenhava moleza, mas não era forma alguma. Já foi pior, quase digo, querendo lembrar os bancos que frequentei no passado. Um desses, na avenida Conde da Boa Vista, quando de minhas visitas às sextas tinha uma fila no caixa que superava qualquer expectativa dos circunstantes.

Ia, pelo geral, fazer uma retirada; retirada que suprisse o final de semana, incluindo ai dinheiro para o supermercado e para o lazer, o meu e o da família. Em outro banco, no velho Bairro do Recife, certa vez, passei um cheque no valor de quarenta e cinco cruzeiros ou coisa parecida e a moça do caixa me deu quarenta e cinco mil cruzeiros. Quando recebi, fiquei tão abestalhado que devolvi sem grandes explicações, ao que ela justificou: “Já contei e está certo!”. Eu, confesso ao leitor, que não sabia bem o que fazer, quando se aproxima um psiquiatra e eu: “Colega! Por favor me oriente o que devo fazer?” E contei a história. Indaguei: “Veja se estou ficando doido?”. E ele, depois de contar a maçaroca de dinheiro, fez a devolução!”. A moça quase cai de costas e daí por diante, passou a me atender com toda a prioridade possível.

Caixa eletrônico só chegou muito tempo depois e eu lembro de um no Derby, onde passei a fazer os saques e com isso me abastecer de dinheiro em espécie. Se assim não fosse, era preciso pedir ao atendente do posto de gasolina para trocar um cheque ou contar com a disponibilidade da família. Minha mãe estava sempre à disposição e eu a chamava, por vezes, de banco da família. Quando fui a São Paulo, para um curso de 4 meses, fiquei apavorado porque o dinheiro acabou e a bolsa não chegava. Fiquei doido, ligando diariamente, quase, para minha mãe fazer um depósito em meu banco. Afinal, o dinheiro chegou e eu passei a contar com ele.  
 
Tenho dito e repito: sou do tempo do antes. Se o leitor também se considera assim, pode se expressar no espaço reservado aos comentários. No tempo do antes tudo era bem diferente, desde os costumes e os hábitos ao dia a dia das coisas. Até as doenças eram outras ou são outras no hoje dos anos. Andava-se a pé, pra lá e pra cá, sem perigo de assalto. Eu mesmo vinha do Clube Português para a minha casa, nos limites de Santo Amaro das Salinas e a Boa Vista, sem problemas. Ia e voltava ao comércio, à época chamado apenas de “cidade”, com a maior facilidade. Quando se desejava, tomava-se o ônibus com o destino de “Cidade”, e se fazia uma viagem circular, indo e voltando à rua da Imperatriz ou à rua Nova.

Na rua da Aurora, de um lado e de outro, uma mureta, ainda hoje existente, acomodava casais enamorados na parte do São Luis e as chamadas mulheres de vida fácil – tão difícil – do outro. Eu era habitué desses recantos. Certa vez, abordado por uma dessas suplicantes do lado de lá, diante do Liceu, ouvi dela a confissão, por certo que incluída no reino das potocas, que tinha sido casada, mas deixara o marido levada pela sua exacerbada sexualidade. Verdadeira ninfomaníaca! Confesso que fiquei apavorado e embora tenha ido com ela até a rua da Concórdia, onde havia o que se chamava de “recurso”, terminei dizendo que a minha mãe não deixava, ainda, eu ter esses amores marginais. Mas, nunca esqueci da figura e da conversa.
 
E entrou por uma perna de pinto, saiu por uma de pato, senhor rei mandou dizer que contasse cinco. 
 
Desejando o leitor se associar ao autor, não hesite, comente no espaço para tanto destinado.      

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Negócio fechado: mostra a tela

E o menino pediu ao pai para passar as férias com o tio. O tio não era propriamente um parente, era o marido de uma tia, irmã do genitor do menino. Tio postiço, era o que se dizia! Eurípedes era o seu nome e Carpina a cidade em que morava. Decidira isso, porque depois de aposentado queria sombra e água fresca. Assim, alugara uma casa na Praça São José e ali costumava jogar gamão com o padre, mesmo sendo espírita por convicção. Acertaram que não conversariam sobre religião, falariam somente a propósito das peças e do tablado, nada mais. Até no dia em que a família do menino mandou celebrar uma Missa na intenção da alma de seu avô, Eurípedes absteve-se de qualquer comentário.

Pai e filho viajaram de automóvel desde o Recife, levando pouco mais de uma hora para estacionarem o veículo na casa simples, de porta e janela, daquelas que o longo corredor vai compondo o ambiente no qual desembocam os quartos, até que chega a sala de jantar e depois a cozinha. Banheiro em casa é luxo de cidade grande, dizia dona Clotilde, batendo com as mãos espalmadas na saia, costume que trouxera lá dos confins do Rio Grande do Norte, onde nascera. Pedinho, era como chamava o marido, cuida em acomodar André, guardando a mala dele e dando-lhe o quarto pra dormir. E o menino abriu a mala de lona azul e foi arrumando as suas coisas.

O movimento ali era do agrado do menino, o trem chegando pela manhã, depois das oito, o pão fresquinho da padaria de seu Jorge, as esmolas das sextas-feiras e a conversa fiada com as empregadas de casa. Verdadeiras filósofas da existência, dizia pilheriando. Eram duas morenas rechonchudas, de ancas largas e carnosas. De seios empinados, como se fossem dois pingentes que balançavam ao sabor dos movimentos do corpo. Valei-me Senhor! Era o que o menino repetia, lembrando que tinha ido pra lá, justamente, com a finalidade de refletir quanto ao seminário. Se entrava e renunciava aos apelos da carne ou se não entrava e assumia a vocação devassa de que não se orgulhava.

E elas gostavam do papo, faziam perguntas e mais perguntas. Assim: “André! Você já teve namorada?”. Tive, respondia o menino, se assanhando todo para o lado delas. E tinha tido mesmo, tinha gostado de uma vizinha, com nome e cognome, a quem tratava por Zizi e com quem quase não tivera aproximações maiores. Era desse jeito nos começos dos sessenta, do século XX. Esse foi um amor interesseiro, comentava, porque funcionava apenas quando a bicicleta dela quebrava e precisava de reparo. Era pneu furado, jante empenada e corrente fora da coroa, sem puxar a catraca a contento. Não passava disso e de mais a mais os colegas da rua diziam que ela usava peitex. E o menino se perturbava muito com isso!

Mas, ali não, ali era diferente. As duas tinham seios que fazia gosto e não se utilizavam de adereços nascentes. Na hora do banho ele ficava do lado de fora, vendo a espuma do sabonete escorrer mundo a fora, sem poder ver aquelas duas nuas em pelo. E o menino pediu e rogou: nada. Até que numa tarde qualquer, uma delas disse: “Olhe! A gente sabe que você está com dinheiro. A gente pode mostrar a tela, se você nos pagar Cr$ 500,00". Dos parcos recursos, ainda sobravam seiscentos cruzeiros e o negócio foi fechado. Antes de sair de volta ao Recife, Sandra e Camila levantaram a saia e mostraram a tela.

É IMPOSSÍVEL ATUALIZAR O BLOG, PORQUE A HOTLINK NÃO ME ATENDE E EU ESTOU SEM INTERNET HÁ 3 MESES