sábado, 6 de setembro de 2014

Textos Esparsos - Apresentação

Este livro traz de minha mãe o carinho; o carinho porque está composto, todo ele, por crônicas que foram guardadas por ela ao longo de muitos anos, de décadas. Eu sabia que ela tinha esse cuidado com os meus textos, que eram publicados no Jornal do Commercio do Recife. Mas, não sabia que tinha tal quantidade de artigos, que poderiam resultar até em livro. Nem ela própria tinha essa impressão, a de que esse material assim arquivado serviria ainda para uma publicação que reunisse todo esse esforço, mais dela que meu.
Pois é, amigo leitor, a minha mãe (Lila Marques Pereira), encantou-se em 2013, no mês de agosto, de todos os azares. Já tinha 94 anos na conta das gentes com quem viveu. Passou 4 anos – longos anos – acamada, sob o cuidado sempre muito próximo da filha mais nova, minha irmã caçula, mais nova que eu 10 anos, Fátima de prenome. Foi Fátima quem desarquivou tudo isso e me enviou numa grande caixa de papelão. Quando fui revisar, encontrei muita coisa que não tinha ainda divulgado em livro e resolvi enfeixar nesse volume que ora vai a lume.
São crônicas, muitas delas com humor, porquanto o meu estilo de escrever contempla sempre a graça e as frases engraçadas. Mas, tem o sério, o reflexivo, o contemplativo, seja pelas palavras que dediquei à minha mãe, sobretudo nos anos fechados de sua vida, aos 70 e aos 80, mas também as minhas dores quando de seu encantamento, seja pelos textos escritos com a reflexão social de que me tomo, diante das grandes questões da minha gente, de meu povo. Entendo que um espaço de jornal, capaz de acolher o texto de quem teve acesso às letras e à cultura, mesmo que insipiente, não pode ser desperdiçado e precisa atender aos relamos da sociedade.
É um livro, pois, dedicado à minha mãe e de certa forma escrito por ela, porque sem ela não teria o prazer de lançar o volume.
 
 
(*) Esta é a Apresentação de meu livro - Textos Esparsos-Crônicas Dispersas -, que será lançado brevemente, a 11 de setembro, a partir das 19 horas, na Academia Pernambucana de Letras. Um volume que está dedicado à minha mãe, pois que foi ela quem colecionou as crônicas assim publicadas. Com esta Apresentação, reforço o convite aos leitores do Blog, aos familiares, aos colegas e aos amigos. Espero a todos nessa noite de convívios e confraternização.
 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Uma Sociologia de Bairro

Com atenciosa e até afetuosa dedicatória, recebi de Evaldo Donato e Paulo Caldas um livro escrito a quatro mãos: No Tempo do Nosso Tempo - Uma Volta aos Anos 60. São crônicas que retratam a juventude de Água Fria, na sexta década do século XX, abordando a intensa convivência ali, em subúrbio distante, ainda, naqueles anos das grandes revoluções dos costumes e dos hábitos, das mudanças, enfim, a transformarem e a transtornarem, até, o povo pacato do Recife e do mundo inteiro.
 
A leitura dessas evocações, de jovens que viveram, intensamente, o tempo de ouro da existência humana mostra, claramente, o quanto houve de marcante em interregno tão pequeno de tempo! Capítulos de uma sociologia do arrabalde, tomado pelas modificações trazidas no pós-guerra e influenciadas pelos movimentos contemporâneos que fizeram o mundo mudar sob todas as óticas, derrubando tabus e quebrando regras, flexibilizando,então, o comportamento. Há reminiscências, como expressa a dedicatória, que ultrapassam o simplesmente individual, para assumirem papel diferente, o das lembranças de uma coletividade; de uma geração toda.
Foi assim que me lembrei dos automóveis que circulavam na cidade, do antigo Nash e da Rural, como do velho Jeep e do Gordini ou do Sinca Jangada, encantando a gente nova com a modernidade das linhas! E o Candango, rústico e grotesco! Mas, lembrei, sobretudo, dos jornais de bairro ou de rua, que circulavam mimeografados, manifestando, já, algumas vocações que se tornariam depois, senão jornalistas do batente, escritores bissextos ou cronistas, a ensaiarem com o cotidiano da vida, a voz do espírito, que não cala, quando a saudade emerge! Foi dessa forma que comecei a escrever, uma singela publicação de meu lugar, usando pseudônimo diferente, o meu sobrenome ao contrário: "Arierepe". Nem sei mais do nome daquele conjunto de páginas que circulavam a intervalos incertos e muito menos dos meus escritos! O que diziam ou o que expressavam!
Há detalhes, todavia, mais que interessantes, como aquele do Livro de Ouro", que circulava, de mão em mão, buscando assinaturas dos remediados da rua , para angariar fundos e financiar o time de futebol. Ou da rifa, que tinha papel assemelhado e permitia aplicar os recursos na chuteira e no padrão de camisas, na bola de couro nova e nos unguentos, que bem massageados traziam de volta a força do chute a gol ou a defesa bem feita do goleiro dantes machucado. Ou serviam para custear o pavilhão do clube, bordado e rebordado por costureira de nome! E as turmas se organizavam assim, em jogos de todo tipo, incluindo, como está no livro, as partidas de botão, disputadíssimas, reunindo a muitos em torno de um campo bem encerado. Peças fabricadas, algumas, na Casa de Detenção ou forjadas no torno, diretamente, pras bandas de Paulista, quando ficavam mais apropriadas ao drible e à finalização da jogada ou os botões de capa, vendidos no centro urbano, submetidos a uma operação que os tornasse mais presos à madeira e assim pudessem mandar ao filó a bolinha de cordão bem enrolada.
 
E as festas de todos os tipos? O Carnaval e o São João, o Natal e o Ano Novo! Ou os assustados, que marcados com a antecedência necessária, juntavam meninos e meninas, rapazes e moças, proporcionando os encontros e assinalando começos. Dessa maneira me iniciei por cá, com a musa dos meus dias de hoje, em aniversário de casa, com a mesa decorada pelo bolo confeitado e as garrafas de guaraná Fratelli Vita dando um toque regional ao inteiramente universal, a aproximação das criaturas. Beijos que foram roubados num rodopio qualquer na sala de visitas, de jantar também, pactos selados há mais de trinta anos pra trás, que resistiram ao tempo e vão marcando a sucessão da existência, na vida de mais três, que estão virando seis. Três filhas: Fabiana, Patrícia e Carol! E ninguém pode reclamar da falta de histórias, nesse recesso que é o meu lar.
Muito grato aos autores.

(*) Um texto antigo, incluído em livro a ser lançado muito, brevemente, no dia 11 de setembro, na Academia Pernambucana de Letras, reunindo crônicas que foram guardadas por anos a fio por minha mãe. Trata-se de um artigo criado depois que os autores me enviaram um exemplar. Lembranças de velhos costumes e de antigos objetos, a exemplo dos botões de mesa, alguns de chifre, torneados ou não, e outros de capa.