sexta-feira, 8 de junho de 2007

Os Meus Enganos

Há coisas que acontecem comigo que o diabo duvida de costas, em noite de sexta-feira treze! São ligações telefônicas erradas, recebidas ou discadas ou são anotações de agenda trocadas na minha cabeça. Foi assim que compareci ao casamento de amiga minha, marcado para um dezenove qualquer do ano, sete dias antes e nada ou quase nada encontrei na igreja. Indaguei do flanelinha em bom português se havia por ali um enlace matrimonial e o menino, ávido pelo trocado que não chegou a receber, de pronto confirmou. Não perguntei pelo nome da noiva, porque quem toma conta de carro ignora esses detalhes, faz o seu papel no teatro da vida e nada mais. Entrei e havia pouca gente no templo, pessoas concentradas no meio dos bancos, em torno de um bebê. Era um batizado, na verdade e eu dei com os burros n’água!

Pior com o velório! É que morreu um homônimo de uma pessoa que conheço há muitos anos, da qual me afastei pelas circunstâncias do existir e não tive dúvidas, vesti o paletó, apertei a gravata e parti em direção ao cemitério considerado também um parque e que de parque nada tem. Identifiquei o lugar no qual se fazia o ritual da finitude e cumprimentei a todos. Não havia um conhecido que fosse! Notei uma certa estranheza, como se estivesse completamente fora do contexto e estava. Olhei para o homem largado à própria sorte e observei que usara bigode em vida, característica ausente no meu ilustre amigo. Do celular, mesmo, contei à minha dedicada secretária o impasse. Ouvi a recomendação necessária: “Volte! Ele nunca usou bigode!” Para a família, restou a perplexidade. Afinal, eu nunca tinha visto o pobre do defunto!

Mas, durante uma reunião em Olinda, no convento do Carmo, tocou o telefone. Nunca atendo esse equipamento quando me ocupo. A oportunidade, porém, de ir à janela e dali apreciar o mar, para mim foi uma tentação irresistível. O interlocutor, então, se apresentou: “É Valter!” Há quem pense no prenome como uma identificação definitiva, como se fosse o único no mundo com aquela nomeação. Fiz um esforço de memória, associando a voz com o nome, mas foi debalde. E ele: “Você não está me reconhecendo?” Respondi com todo cuidado: “Estou começando a reconhecer! Aos poucos saberei de quem se trata!” Ai, complementou: “Sobrinho do finado Wilson!” Piorou tudo, inibiu todas as minhas associações! Desesperado, entretanto, explicou: “É Coruja!” “Bom! Coruja eu conheço!” E o diálogo prosseguiu! Tinha morado em minha rua nos tempos de menino e virou pastor, como tantos por ai!

De outra feita, pedi à telefonista que ligasse para amigo meu que dirige instituição importante e que havia me pedido fosse resolvida uma questão de seu interesse, para continuar o trabalho que vinha fazendo. Dei como indicação o prenome e mais o cargo que exerce. A moça, muito solícita aliás, fez a conexão e passou a ligação. Como tinha resolvido tudo, disse, de logo: “Fique tranqüilo! Vamos continuar juntos nessa luta pelo social! Pela gente simples e pela educação!” Ouvi de meu interlocutor de ocasião uma exclamação que estranhei, francamente: “Por que você fez isso? Eu não lhe pedi! Eu não preciso disso! Vivo aqui de meu negócio e não me meto com nada que esteja na esfera do social!” Perdão, quase peço, pois que era da iniciativa privada e não tinha a menor relação com aquilo que lhe transmitia por telefone!

Uma vez, numa sexta-feira de Carnaval – já vai longe –, recebi telefonema de uma certa criatura que procurava pelo namorado, indagando: “André está?” Ora, não existe André por aqui e ninguém com namorada, mas não perdi a oportunidade: “Está no bar da esquina, completamente embriagado!” E ela: “Eu não acredito nisso não! Ele prometeu que iria comigo ao Galo!” E eu: “Você é a quinta pessoa que liga! Ele prometeu a mais quatro!” Não hesitou em responder: “Vou matá-lo!” Não o matou, certamente!
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sexta-feira, 1 de junho de 2007

A Casa das Caiporas

A Comadre Fulozinha é a alma de um índio que vaga pelas matas, explicou Zezinho, lá de Chã de Cruz, depois de Aldeia. Recostado numa coluna do alpendre de minha casa, o homem dissertou, longamente, sobre essa lenda das florestas. Nunca chegou a ver a figura, mas tem histórias do arco da velha pra contar, desde aquelas de seu avô, que sendo bom caçador, nunca esqueceu de agradar o fantasma com mingau misturado a fumo pisado, sem sal e sem pimenta, porque desses ingredientes não gosta e até se irrita com quem se engana e tempera o alimento. Foi o avô, ainda, quem certa vez se perdeu num bosque, passando a noite ao relento e só encontrando o caminho de volta de manhã cedo, ao despertar de um sono inquieto, sem sonhos e sem devaneios. Mas, a trilha com que se habituara estava em sua frente, escondida pela menina de face meiga.

Nunca viu, mas ouviu dezenas de vezes o seu assobio forte, como aconteceu com o seu irmão numa tarde qualquer, depois do almoço, quando já estava pitando um cigarro no terreiro. Escutou um silvo, de tal maneira próximo aos ouvidos, que perdeu a audição no momento e com medo saiu às carreiras. Pior com uma senhora a quem conhecera, de longos cabelos pretos, que se alevantou com umas tranças tão bem feitas que ninguém conseguiu desfazer e ao marido coube cortar o piloso manto com uma faca de cozinha. O Zezinho perdeu as contas da quantidade de cavalos que encontrou com a crina entrançada, que só a tesoura resolvia o emaranhado. Trabalhava numa baia e por isso tinha essa oportunidade, a de detectar manifestações da fantasmagórica figura. Vez ou outra, porém, a Comadre o chamava no terraço e ele a procurava, sem que encontrasse: “Zezinho! Zezinho!”

A menina baixinha, de cabelos chegando à cintura, protege alguns bichos dentro da mata e àqueles aos quais dedica o seu afeto o caçador não pega, por mais que queira e deseje. Pode passar dias e mais dias pastorando o animal e jeito de abater não existe, senão pra contar com a raiva da Comadre Fulozinha. Melhor conviver em paz com a lendária mocinha e não incomodá-la com matreirices humanas. Ela sabe de todos o nome, conhece os hábitos e os costumes, fazendo brincadeiras quando quer e entende. Numa ocasião, um parceiro do contador de histórias – Zezinho por apelido e Zé Pedro de nome próprio -, tomava um deforete em frente de casa, encostado num tronco de árvore e se virando não viu mais a moradia. Era evangélico e por isso não se apavorou, invocou os céus e novamente se virou, notando que na verdade estava recostado numa coluna do alpendre.

O homem acredita, piamente, na Comadre, por tudo que já testemunhou e pelas conversas que teve a propósito, com gente que foi vítima ou que assistiu a outras pessoas assim vitimadas. De mais a mais, lá por Aldeia, vez ou outra, ouve o assobio entre as árvores e não se assusta mais, tem a certeza de que pode conviver assim, respeitando a moça. Uma coisa considera como certa, a de que um silvo forte significa que Fulozinha está à distância e quanto mais baixo for, mais perto estará. Dizem que tem raiva dos cabelos compridos e das crinas bem cuidadas, daí a trança que faz, para obrigar o corte e impedir a semelhança consigo mesma. Cavalos presos em cercados fechados podem amanhecer soltos, liberados no pasto, sem que se saiba quem os libertou. É capaz de se enfurecer e dar uma surra no penitente até o desmaio e nisso não se meta um afoito qualquer.

Essas lendas do Nordeste, estudadas pelo nosso folclorista Maior – Mário Souto Maior -, são deliciosas, realmente. Disso falava, também, Ascenso Ferreira: "Ali mora o pai da mata/Ali é a casa das caiporas...." Se o Caipora conhece a Comadre ninguém sabe, ninguém viu! A verdade é que protege a flora e a fauna, é rei de todos os animais e costuma punir o lenhador que agride a natureza sem necessidade ou caçador que mata por prazer. Tem os pés virados pra trás e com isso engana a todos, deixando os rastros trocados. Assobia e fecha as florestas! Dá azar aos incautos que esquecem de lhe presentear com prendas especiais: esteiras, cobertores e redes. Quem sabe, são parceiros da mata?

E foi uma lição a mais! É vivendo e aprendendo, diz o povo na sabedoria que tem!
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