terça-feira, 9 de setembro de 2008

Amores Estranhos - O Monstro, a Cabra e a Burra

A vida é interessante – uma história puxa a outra –, foi o que aconteceu numa manhã clara deste Recife de Deus, enquanto fiava conversa ou enquanto jogava conversa fora. O tema central era o horror da pedofilia, uma perversão bem mais freqüente nos dias de hoje, ao que mostram as evidências. A não ser que as crianças de outrora tivessem mais receio ainda de uma denúncia ou de coisa parecida. Às folhas tantas, porém, alguém diz que no passado o bestialialismo era mais comum e com danos – imagina-se – menores que o envolvimento infantil de agora, haja vista as conseqüências permanentes ao psiquismo. Eu lembrei, então, de dois casos interessantes, ambos contados em meu tempo de juventude, um desses, inclusive, com o meu testemunho pessoal.
Foi o de “Monstro”, um conhecido – nem colega e nem amigo – que tinha esse apelido pelas barbaridades que se habituara a fazer. Era um tempo diferente, sendo comum proibir as namoradas das maiores besteiras. No caso dele, recomendou não usar bermudas sequer em casa, mas teve o desprazer de encontrá-la nesses trajes. Mandou tirar a peça imediatamente e pediu que voltasse com a aludida e ao mesmo tempo proibida vestimenta e mais uma tesoura grande. Pois cortou as pernas daquele “short” mais longo em tiras, devolvendo-a às mãos e às pernas que desrespeitaram as ordens. Não preciso dizer que a moça abriu num pranto convulso de difícil contenção. Tinha, afinal, comprado a roupa fazia dois dias, com o suado ordenado do pai. Que horror!
Mas, a história de que fui testemunha é outra e se desenrola em Santo Amaro das Salinas, onde morei. O "Monstro" chegou e disse: “Geraldo! Estou apaixonado por uma cabra!” E eu, perplexo: “Uma cabra?”. Explicou as suas estranhas inclinações e pediu que fosse vê-la com ele, pois constantemente a visitava e já contabilizava dois dias sem comparecer ao Jet Club – nem sei se ainda existe – para uma troca de afetos ou um afago qualquer. Fomos à agremiação da Ilha do Leite e foi ele quem me indicou um monte de barro no muro, em cuja elevação subimos. Ele, com cara de pau, a chamou: “Mimosa! Mimosa!”. O bicho levantou a cara de lado, como fazem todos os outros caprinos do mundo e piscou o olho, como qualquer cabra. Mas a sua observação foi ótima: “Viu? Não é mentira!”. Quase digo: “Mas ‘Monstro’, perder uma namorada bonita por uma cabra vagabunda! Homem tenha vergonha! Tome jeito!”. Mas, não disse, o homem era agressivo e bruto. Não levava desaforo pra casa. E eu não ia, agora, me desentender!
No pequeno bairro em que morou a minha mulher, à época de namorada ou ao tempo de noiva já, eu era quase um deus. Estudava medicina e ouvia as queixas dos nativos do lugar ou de quem chegara ali e se acomodara na condição de migrante, tão comum nas localidades todas. Certa vez até, lembro de um matuto que me aperreava muito, pois era hipocondríaco e todas as noites inventava mais uma doença. Era um rosário de queixas. Homem novo, sem mazelas visíveis e detectáveis clinicamente, terminei com um diagnostico, em tudo, inusitado: “Zé de Maria! O que você tem é simples: sintomas da menopausa! Aguarde que vai passar!”. Resultado, me deixou em paz por meses seguidos.
Mas, Dona Mocinha, que nem merecia o apelido, tal o envelhecimento em seus 35 a 38 anos, tal a quantidade de rugas e tal o progressivo definhar de seu corpo. Chamou-me de parte – já se vão mais de 40 anos –, e aos cochichos foi confessando as suas dores, mas da alma que do corpo magérrimo. É que Biu de Conchita, seu marido, era incômodo até demais: tinha com ela duas, três intercursos sexuais, chovesse ou fizesse sol. E ainda mais, revelou, quando vai para o trabalho leva a burra Marica e se satisfaz com ela. Fazia medo, dizia, pegar doença do animal e de mais a mais trocá-la por um asno. Era humilhação demais. Fosse por uma mulher, nova e bem parecida, ainda, ainda, mas por um bicho chegava ao cúmulo do absurdo. Também achei, mas cabia a Dona Mocinha determinar o seu destino, o de Biu de Conchita e o da burra Marica. E viveram juntos a vida toda, os três!
Obervacão Pertinente: Os nomes próprios estão todos trocados, em respeito aos personagens da vida real .

domingo, 7 de setembro de 2008

Três em Um

As festas de formatura se transformaram em eventos explorados por empresas especializadas, as quais ditam ou ditavam as normas que bem entendem. Eu estava, então, presidindo uma solenidade assim, de colação de grau e os seguranças da organização cuidavam em proibir que os convidados - parentes e amigos – fotografassem os concluintes e seus padrinhos. Ora, não tenho nada a ver com o compromisso daqueles que pagaram pelo serviço, mas não podia admitir que a liberdade dos outros, certamente fora da lista dos que se comprometeram com a empresa, fosse cerceada dessa forma. Solicitei que se afastassem e que não se envolvessem com aqueles que atenderam aos convites dos formandos. Foi preciso suspender a solenidade e esperar a retirada do recinto dos truculentos cumpridores de tão nefandas ordens.
Um desses parecia um guarda-roupa, de tão forte. Do auditório ele me olhava de forma fixa e eu já estava meio desconfiado, talvez possa dizer que meio amedrontado. Mas, cumpria, apenas, o meu dever, o de assegurar a liberdade a todos e a todas. Na saída, porém, o dito senhor me acompanhou de longe e em dado momento passou a me chamar: “Dr Geraldo! Dr. Geraldo!”. Não havia outro jeito senão parar e aguardar a trombada: “O senhor não está me conhecendo? Eu vendia livro no Hospital das Clínicas e nos encontrávamos todos os dias”. Realmente, identifiquei a figura e fomos andando juntos. Ele pedia desculpas e se justificava dizendo que cumpria ordens, somente. Entretanto, cedera assim que eu reclamara, pela consideração que sempre me dispensou. Rimos às bandeiras despregadas com os casos passados e é disso que vou tratar.
Era um homenzarrão, mas um inocente de pai e de mãe. Acreditava em tudo e em todos e eu fiz poucas e boas com ele. Certa vez liguei de um telefone interno para outro e mudando um pouco a voz disse que era um médico de Caruaru e que a minha filha tinha feito uma compra e na ocasião recebera uma cantada chula. A questão era de assédio sexual e eu, na condição de pai eventual, não admitia isso. A criatura quase morre de aperreio, negando o fato e dizendo que não era disso, que tinha o maior respeito pelas estudantes de medicina, clientes dos seus livros e das suas revistas. Um rolo! O diálogo terminou com o dito pelo não dito. Voltei da outra sala e ele me contou tudo. Falou de sua inquietude e da preocupação que lhe assaltava. Depois de uma boa risada, confessei a brincadeira.
O pior, entretanto, foi ter sido procurado por ele depois de largado pela mulher. Estava em pandarecos, abandonado e solitário. De mais a mais, porque fora um caso de traição, do envolvimento de um terceiro na relação. O camarada ganhara a esposa dele, com filho e tudo, deixando-lhe desesperado. Um horror! Dei por lá uns conselhos e aguardei o desfecho. No outro dia voltou para nova conversa e confessou: “É o seguinte! Ela só volta se eu comprar um conjunto de som três em um!”. Quem já viu isso? Eu aproveitei a deixa e fiz uma gozação maior do mundo: “Não! Você pode comprar uma radiola! Mas, três em um de forma alguma!”. Não havia uma justificativa plausível para isso, mas era para mexer com ele. Ele, todavia adquiriu o equipamento e o fez em várias prestações mensais. A mulher voltou e depois sumiu outra vez.
E ele voltou a fiar conversa comigo: “Não adiantou comprar o três em um, ela desapareceu outra vez! E levou o som que eu ainda estou pagando.” Naquele noite, no Centro de Convenções perguntei pela mulher e pelo conjunto. Perdeu tudo! Nada mais tem, sequer um aparelho em que ouça a sonoridade sofrida dos amantes abandonados, largados.