domingo, 13 de dezembro de 2009

Os Gemidos de Bruna

Manassés, que sabe dessa história e de outras mais, depois de ter lido a crônica passada – Os seios de Otília –, apareceu aqui por casa. Sentou-se no alpendre e pediu a lagosta que trouxera já cozida, por isso mesmo ao ponto, acompanhada de uma cerveja bem gelada. Abriu a boca no mundo e tome a falar do povo que conhecera, da mulherada, sobretudo. Indagado como ia passando a protagonista do relato que tanto agradou aos meus leitores (Otília), disse que estava perto dos 80 anos de idade, mas lépida e fagueira, satisfeita da vida e viúva outra vez, depois que “matou” dois penitentes neste mundo de Deus. O seu Cícero dos começos e pai de suas filhas e o senhor William, que assumira a mulher ainda com o corpo bem dividido e com a aparência conservada. Contou que, recentemente – já se vão uns três anos -, recebera da parte dela uma ligação telefônica, na qual dizia que estava vivendo com um rapaz, figura dos seus 35 anos. Como ficara só na vida, sem companhia que fosse, com as meninas casadas, encontrou esse companheiro, antes um motorista de taxi, agora desempregado, apenas. E a Manassés, que sabia muito prestativo, pedia fosse o quase marido operado em hospital público. O meu amigo não hesitou e de logo perguntou:
- A senhora casou, dona Otília?
- Não, meu querido, eu me juntei!
- E ele vem dando conta do recado?
- Claro e muitíssimo bem! Mas, o que preciso é conseguir a cirurgia da vesícula.
E o Manassés conseguiu!
A verdade é que o homem tem histórias que o diabo duvida de costas. Antes de se prender às peripécias da família de Otília, de suas incursões e das incursões filiais, lembrou de um episódio da Festa da Mocidade, com duas empregadas domésticas de minha rua: Coqueiro e Maria Branquinha. Coqueiro era negra, tinha o cabelo de tal forma encarapinhado, que o tufo piloso fazia a cabeça parecer o topo dessa árvore que no Nordeste é de tal forma abundante que faz a sua gente tomar a água de seu fruto como se potável fosse: o coco. E Maria Branquinha o leitor já imagina como era. É que os colegas de adolescência se juntaram, reuniram os trocados e pagaram um anúncio no posto de rádio. Dizia, mais ou menos assim: “Atenção! Atenção Geraldo Pereira! Coqueiro e Maria Branquinha, em nome do Sindicato das Domésticas, enviam beijos e abraços!”. Ora pau! Eu sentado, de namorada a tiracolo, passei momentos de intranquilidade visível. Mas, é assim mesmo!
Mas foi ele, ainda, Manassés, quem contou de Bruna uma passagem no mínimo curiosa. Estava ele vagando pela rua em que morava, batendo perna, se dizia, quando viu a menina correndo aos gritos para dentro de casa. Dirigiu-se pra lá e foi recebido por Otília estupefata: “Não sei o que houve! A menina estava bem! Conversava com Aparício e saiu correndo, gritando desse jeito!”. O meu dileto amigo, solidário como é, de nome hebraico, cujo sentido é esquecer – E ele não se esquece de nada –, foi acudir a moça in loco, indagando: “O que há Bruna?”. E resposta não obteve, senão os gritos: “Ai!, Ai!, Ai!, Ai! Ai! Ai!”. O que é, indagava ele? Nada, respondia a menina, mas não parava com tanto Ai! Cinco, seis ou sete Ai! De cada vez, em ritmo cadenciado.
O namorado, vendo a cena, sendo ele o protagonista daquele filme, escapuliu de fininho, como se nada tivesse acontecido. E os gemidos foram espaçando, espaçando, até que ela amoquecou, relaxou, deixou-se ficar ali mesmo, enfraquecida como estava. Daí por diante Manassés não sabe mais se as crises reapareceram, se continuaram sendo diante do namorado que virou noivo e depois casou ou se desapareceram. A verdade é que nunca mais a ouviu gemer.

Mas, daria tudo para ver e ouvir, outra vez, os gemidos de Bruna!
(*) - Ofereço o texto, metade verdadeiro e metade ficção ao meu dileto amigo, colega de turma e meu chapa: Ataide. Ás vezes conhecido pelo apelido de Ataúde e às vezes chamado pelo cognome de Hepatite. Três nomes em um só. Figura que encontrei, casualmente, numa loja, fazendo compras com a mulher. Grande contador de histórias ele, mas de outras histórias, das que foram vividas nos tempos da faculdade.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Os Seios de Otília

A casa entrava em polvorosa, quase se pode dizer, quando seu Cícero chegava fedendo a cerveja e sujo com molho de carne guisada. Entrava gritando e sentava à mesa esbravejando. Muitas vezes se ouviu, nos arredores daquele sobrado, pornografias ditas pelo homem enfurecido. Mandava que se recolhessem todas, a mulher e as duas filhas. Ninguém tinha liberdade e só abriam aquele portão de ferro pesado para um destino considerado nobre e digno, isto é, a escola das meninas e a igreja da esposa. Fora disso, nada! Era um ciúme doentio. Disso não se duvidava e nas esquinas era comum o comentário: “Brites e Bruna não aparecem nas janelas!”. Mas, a rapaziada do bairro não dispensava uma graça ou um galanteio, quando se dirigiam ao colégio: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça/É ela menina que vem e que passa...”, diziam, imitando Tom Jobim e lembrando da Garota de Ipanema.
Eram moças, realmente, atraentes. Tinham os traços parecidíssimos e os corpos quase iguais. Mocinhas arabizadas, mouras, no melhor estilo das descrições de Gilberto Freyre. Baixinhas e de formas protundentes, de largas cadeiras e bustos pequenos, mas firmes e fortes. O diabo atenta gente assim, presa pelos grilhões do ciúme e vez ou outra a meninada tinha o que contar das moças que viviam trancadas. Vezes e vezes, o vizinho de frente, Chico por apelido, subia na mangueira de casa e diante do sobrado antigo via Brites em trajes menores, de calcinha e sutien no espelho do quarto. Era uma sensação tão forte, mas tão forte, que certa vez ele quase caiu da árvore. Desceu às carreiras, quando ouviu o grito da mãe: “Chico, menino danado! Vem comprar o sal da comida!”. Correu e comprou! Na volta subiu outra vez e lá continuava a garota, no quarto ainda, vestindo e tirando a roupa de suas intimidades. E a cena repetiu-se muitas vezes.
Sucede que Brites vira o olheiro de ocasião e tempo não perdera – o diabo atenta mesmo – tirou o sutien pespontado que usava e ficou com os dois pingentes expostos. Virou-se para o observador de ocasião e andou dois ou três passos, pra lá e pra cá, balançando os berloques em movimentos pendulares, como cabe fazer uma mulher assim, vistosa e bem parecida. Chico tremia feito vara verde no galho da mangueira, perplexo com a beleza da mulher. Mas, como todo homem que se preza, queria ver mais e mais, queria tocar e alisar, apalpar enfim aquele corpo tão bonito e tão tentador. Não podia, porque seu Cícero, o português encapelado, bêbado e teimoso, parecia um cão feroz diante de qualquer tentativa de aproximação. Nem conversa queria, fosse mulher ou fosse homem. Temia namoros e afetos, afagos jamais e o libidinoso da idade que fosse para as cucuias de costas.
Bruna de nada sabia e como fora sempre a mais contida, ficava no ora veja e dela ninguém via nada. Foi ela, no entanto, quem arranjou um namorado primeiro. Chegou Aparício em sua vida e a paixão tomara conta dos dois. Era um alvoroço na hora de seu Cícero chegar, um corre-corre danado. Esconde pra lá e escapole pra cá, o rapaz correndo feito um louco de volta pra casa e ela saltando o muro baixinho, correndo pra sala. Um horror! Naqueles anos da década de sessenta o namoro era contido, levava meses seguidos para se pegar na mão, outros meses mais para enlaçar a namorada e anos para se beijar na boca. Sucede que nessas circunstâncias, de namoro muito escondido e de um pai assim, levado da breca, como seu Cícero, o diabo também atenta e as coisas andavam mais rápido. Aparício, então, já estava em estágio bem adiantado do processo, a sua mão entrava pelo vestido e abordava a velha combinação dos costumes da época, suspendia o porta-seios e bolinava com todo cuidado a moça Bruna, recatada e pudica. Ela tinha os mamilos mais lindos que o menino já vira, eram medalhas militares intocadas.
Um dia qualquer, estava o casalzinho em abraços e apertos no muro de casa, ele com a perna direita posta no muro, onde se encostara e ela caída sobre o seu corpo. Quando o algoz apareceu na frente foi um rebuliço, mas de uma hora para outra a família toda se revoltara e resolvera enfrentar a fera. Pegaram o homem pela breca, deitaram no passeio de acesso ao alpendre e deram-lhe uma surra de que não se tem notícias em todo o Recife do antes. O penitente, não teve dúvidas, pegou um saco velho, com o qual imitava o papai-noel nas festas de fim de ano, encheu com os seus pertences e ameaçou: “Vou embora dessa merda! Aqui só tem doido!”. O namorado que avançara o sinal foi saindo de fininho e desapareceu na primeira esquina. Nunca mais voltou! A constelação parental, porém, diante da retirada do carrasco que comandava os destinos da família, bateu palmas em conjunto e o homem, também, nunca mais voltou.
O que ninguém sabia era que Otília, a mulher contida e submissa, acostumada aos gritos do marido e ao esbravejar daquela fera tantas vezes enfurecida, também trocava de roupa com a janela aberta e Chico vira inúmeras vezes os seios da mulher. Ela tinha um prazer desusado em mostrar o seu busto ainda rijo àquele menino quase imberbe, que lhe via do galho mais próximo da mangueira. E ele, na safra da manga-rosa, nunca descuidou do presente generoso. Não dizia, porque também não podia, mas aquelas frutas rosadas eram os seios de Otília. E ela, também, sem expressar seus desejos agradecia de bom grado e dizia: “Um dia vou lhe recompensar!”. Se recompensou, o leitor há de saber depois, noutra semana, se dessa crônica se agradou.
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