sábado, 1 de outubro de 2011

A Pecadora e Deus do Céu

Assistindo televisão vi um comercial muito interessante, a partir do qual lembrei episódio semelhante, que tive oportunidade de conhecer há coisa de dez anos ou mais. É aquele comercial em que aparece um grupo de jovens em casa, ao que parece, em preparativos para sair, quando chega uma moça bonita e bem parecida e após tocar a campainha, faz uma pergunta que não recordo a um dos ocupantes da moradia, sob a justificativa de que era novata no prédio. Ele cuida em responder, explicando de logo que os amigos estão de saída, obviamente com olho na mulher e fantasiando futuros imediatos. Qual não foi a sua surpresa, quando a mulher lhe indaga se ele não pode tomar conta de seu cãozinho? É uma decepção que vive o rapaz, tão interessado como estava na figura feminina presente à sua porta.
Pois é, no caso que eu soube, contado por gente de toda confiança, o homem estava hospedado em hotel de muitas estrelas nas ruas de Paris e sabia que a mulher de seus sonhos, em tudo barroca, bonita e bem feita, também estava na cidade das luzes e das cores. Andava num pé e noutro no quarto que ocupava, imaginando uma artimanha qualquer que lhe fizesse ligar para a penitente bem parecida de seus sonhos matinais. Para sua surpresa também toca o telefone em seus aposentos e ele sem esperar ligação alguma de ninguém, levanta o fone e atende à chamada. Era ela, a musa de todos os seus desejos, que pedia para que ele a procurasse na recepção do hotel. Com todo gosto, respondeu! E se preparou todo, tomou o banho que todo brasileiro gosta e vestiu a melhor roupa, sem falar que acionou o spray de perfume que trouxera do Recife. No hall do hotel recebeu aquela mulher maravilhosa, com quem gastava seus devaneios. E a pergunta, feita por ela, não tardou: “Você poderia levar para o Brasil duas malas que excederam o peso autorizado?”. "Ah! Quase diz." Mas, ainda com água na boca, embora perplexo, disse: “Posso!”. E a nada mais respondeu, porque também ninguém lhe perguntou mais nada.
Como não devo publicar uma crônica tão pequena, decido acrescentar mais uma história, em tudo muito pitoresca, só para preencher o espaço de que disponho. É que eu era Diretor do Centro de Ciências da Saúde, da Universidade Federal de Pernambuco e tinha o meu Gabinete sempre visitado por várias pessoas, com frequência era procurado por médicos. Certo dia chega um desses profissionais e se dirige à Secretária, desejoso de falar comigo. A moça, então, toma nota do nome: “Deus”. Era, certamente, João de Deus ou outra forma de grafar o nome do Criador, mas quis se apresentar somente com o segundo prenome e entrando no Gabinete ela anunciou: "Deus está ai!". Eu ainda tive tempo de me assustar e indaguei: "Deus?". E complementei já refeiro: "Sendo Deus tem prioridade e pode entrar!". E assim foi e Deus entrou e tudo se passou como imaginei.
(*) A crônica é um relato conciso de um caso do presente que resgatou outro, do pretérito das coisas. O texto tem sido sempre reproduzido no jornal virtual A Besta Fubana, de responsabilidade do Papa Berto I e de sua Papisa. O leitor pode comentar no espaço mesmo do Blog ou para os e-mails: pereira@elogica.com.br e pereira.gj@gmail.com 

domingo, 25 de setembro de 2011

As lembranças, o parque e o neto.




Voltei no sábado, dia 24 deste mês de setembro, do ano da graça de 2011, aniversário, aliás, de minha filha Patrícia, ao Parque 13 de maio, aonde não ia há pelo menos 40 anos, penso eu. Voltei, porque desejava que o meu neto, que é caçador de aranhas asquerosas, visse o macaco Chico, recentemente evadido de sua jaula, conforme a imprensa e novamente capturado para concluir sua pena de privação de liberdade. No Brasil, curiosamente, só os bichos recebem a pena de prisão perpétua, dessa estando livres os homens de boa vontade. Fomos eu, meu neto, Pablo de prenome, e a avó dele, que tem sido ao longo dos anos a mulher que eu curto. Não sei se ele, o neto, tem conhecimento dessa curtição, mas é a verdade, nua e crua.

O Parque está desprezado, largado, qual mulher bonita separada do marido e quase sem segurança. Pouco lembra aquele recanto, que nos anos sessenta era o lugar de encontro da meninada em vias de iniciar a vida política, isto é, sensual e sexual. Foi por lá que vi certo médico do Recife, com uma jovem normalista no banco dianteiro de um Skoda, fazendo um esforço enorme para tirar a aliança do dedo esquerdo e dessa forma continuar a fiar conversa com a penitente. Não hesitei, confesso, fui lá, retirei o adereço matrimonial e lhe fiz presente, muito discretamente. Afinal, a causa me parecia justa à época! Aquelas alamedas, nas noites de meu tempo, foram palco de muitos abraços e de beijos roubados.

O Chico, macaco de meus objetivos, de logo se apresentou como candidato à pipoca do neto, “pipoca murcha”, como costuma dizer e se postou na jaula de seu viver, pedindo mais um caroço do acepipe da hora. Pablo não gostou da concorrência e deu um muxoxo de raiva. Melhor sair correndo, com a avó lhe acompanhando os passos, que continuar naquele exercício de observação de símios enjaulados. E assim o fez! Saiu em desabalada carreira pelos caminhos do parque. Nisso, por certo, repetia o avô, que em pretérito distante, ai pelos finais dos anos 40 ou começos dos 50, fazia igual proeza no Parque, razão para ser atropelado por uma bicicleta e ver o homem sendo preso e conduzido ao “buque”, como se costumava nomear a cadeia naqueles anos das grandes valsas. Foi a voz de minha mãe, com o seu jeito carinhoso de ser, que pediu pelo detido e o fez voltar às ruas.
Fui muitas vezes ali, pelas mãos de meu pai, que embora tivesse uma vida atribuladíssima, cuidava em se dedicar aos filhos nos feriados da existência. Era de lá que saia, de mãos dadas com ele, para observar o rio das capivaras correndo em direção ao mar e soltar um barquinho de papel, o qual em meu imaginário infantil ia ganhar o oceano e aportar distante. E era de lá, da rua da Aurora, que via o Dr. Agamenon Magalhães, como chamava meu pai, passeando de braços pra trás, às costas, na varanda do Palácio. Isso o fazia concluir que o Governador estava aperreado. Eu não entendia bem a razão, mas concordava, como fazem todos os meninos do mundo diante das afirmativas dos adultos.
Não havia mais por lá – notei isso –, os canários abarrancados de minha juventude, não vi sequer um desses pássaros. Todos desapareceram, diante da força avassaladora das máquinas do progresso. Um ou outro bem-te-vi fazia as honras do lugar, saudando os visitantes. À distância ouvi o trinar de uma sabiá – gongá. Gente da rua deitada nos bancos findava as horas de sono a que tinha direito, se bem que não dispusesse de cama bem cuidada e de colchão fofinho. São as diferenças sociais de que falam os sociólogos. Mas ninguém me incomodou nessa curta permanência no ambiente. Uma quase cigana, ao final, quis ler a mão da avó de Pablo, ensaiou uma perguntas bestas e se foi, descartada pela mulher amadurecida nos anos, mas de forma alguma velha. A avós de agora não são mais como foram as minhas, gordas, de cocó adornando a cabeça e avançadas nos anos. 

(*) A crônica de hoje, escrita com o domingo amanhecendo, é um ode ao neto Pablo, uma forma de lembrar dos anos que se foram e um jeito afetuoso de falar da mulher amada, sem esquecer de meus amores com os canários, as sabiás e os bem-te-vis. O texto tem sido sempre reproduzido no jornal virtual A Besta Fubana, de sua santidade o Papa Berto I. Comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para os e-mails pereira@elogica.com.br ou pereira.gj@gmail.com