quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Bicho do Bom – Seu Mané

Eu tive a sorte – eu e a minha geração de médicos – de contar com um corpo docente do mais alto nível, gente conhecida aqui e alhures, professores que exerciam o mister da transferência do conhecimento e eram pesquisadores, na grande maioria das vezes. Mestres que ensinavam pelo exemplo, também, pelo comportamento irrepreensível que tinham no dia-a-dia da vida; éticos e por isso mesmo humanistas na verdadeira acepção do termo ou no largo entendimento da palavra. Mesmo assim, foram protagonistas de cenas pitorescas que marcaram, de forma indelével, a turma de 1968, na emergência agora dos 40 anos já de formada. O momento das provas era mais que propício aos gestos e os fatos que ficaram na memória desses médicos hoje sexagenários todos.
Impossível esquecer a prova oral de determinado colega na Cadeira de Fisiologia, na qual pontificava o professor Nelson Chaves, estudioso da nutrição em Pernambuco. Pois bem, senta-se o ainda calouro diante desse ícone da ciência e quase nada responde. Nelson Chaves, então, desejoso de mais uma chance para o jovem acadêmico, indaga: “Meu filho! Cite um hormônio importante?” E ele, o estudante que não abriu o livro: “Professor! Os hormônios são tão importantes, mas tão importantes que se eu destacar um desses, ele perde a importância!”. E o mestre insistindo diz: “Você não sabe nada de Fisiologia. Vou lhe fazer uma pergunta de Anatomia. Como se chama aquela artéria que nasce no coração, sobe, faz uma volta desce pelo tórax e entra pelo abdômen e se divide em duas?”. Era muito claro que se tratava da aorta, mas o aluno tropeça e responde: “Coronárias!”. Nota zero!
O mesmo aluno foi examinado pelo titular de Parasitologia. Como não sabia de nada, o catedrático indagou: “Diga-me lá o nome de um verme que cresce, cresce e chega a atingir 10 metros?”. O reincidente acadêmico, então, levanta a cabeça e olha para os ares da sala, pensa ou faz que pensa, reflete ou faz que reflete e responde: “Ascaris lumbricoides!”. Nem um leigo deixaria de acertar, pois um helminto assim, tão grande, não poderia ser outro senão a solitária. O estudante foi tropeçando assim e terminou sendo meu aluno no último ano do curso, no internato. Meu aluno, também, foi outro, que tendo chegado para o estágio no mês de fevereiro, depois de receber as atribuições, só voltou em junho, para obter o conceito e se formar. Disse-lhe que lhe daria a nota 4 e ele deveria retornar no outro semestre para a recuperação devida. Era tempo de regime militar, sendo esse figurante filho de um amigo do general - Valha-me Deus! - pelo que a minha nota, ao que sei, foi transformada em 9. Não fala comigo desde então! Graças a Deus!
Quando eu fui para o exame oral de biofísica, o meu colega Mozart, Jia por apelido, sentou-se no outro lado da mesa para responder às questões do principal assistente do Prof. Arnaldo Carneiro Leão, o seu filho Moacir, duro nas argüições e durão nas notas. O pobre do Jia quase não disse nada, porque precisou explicar como se faz uma bomba atômica. Quem sabia disso? E para que serviria isso? E eu com o catedrático da disciplina enfrentava um inusitado diálogo. É que sentando para ser, devidamente, examinado, sou surpreendido com a pergunta:
- O senhor vai ser padre ou maestro?
Ora, não tinha a ver com o curso que fazia, eu pretendia mesmo ser médico, mas não podia desapontar o mestre e respondi de pronto:
- Professor! Penso em abraçar as duas profissões! O senhor que acha?
- Sendo assim, diga-me lá como responder o Introibo ad altare Dei do começo da Missa.
Eu era macaco velho, pois fora coroinha nos tempos do Colégio Nóbrega e sabia o ritual de cor e salteado, ao que contestei:
- Ad Deum qui lætificat juventutem meam
E ele:
- Quais são as notas da clave de sol?
Eu tinha aprendido piano na adolescência, de onde, aliás, fui convidado a sair, por absoluta incompetência musical. Não fiquei em dificuldades:
- Mi, sol, si, ré, fá nas linhas e fá, lá,do, mi nos espaços!
- Bicho do bom! (um ditado da época)
- Seu Mané! (a resposta ao ditado)
- Nota dez!

Eu fui aprovado! E o grande Jia ficou para a 2ª época. Decorou a bomba atômica, aprendeu tudo sobre a bomba de hidrogênio e passou bala em toda gente na fantasia de seus sonhos, vingando-se do mundo e dos professores do curso médico. Fez muito bem!



(*) - Uma crônica que homenageia os meus colegas de turma; a turma inteira com a qual me formei em 1968. Um relato nascido de meus afetos e de minhas lembranças. Quem desejar comentar, escreva para pereira@elogica.com.br ou para pereira.gj@gmail.com Quem não desejar, não escreva ou não comente.

sábado, 27 de setembro de 2008

Chupa-Osso, Tampa-de-Chaleira e Grampão

Chegamos ali – todos indistintamente – assustados, amedrontados e intimidados. É sempre assim, o desconhecido atemoriza, permite que o imaginário viaje pelos ares dos medos e dos receios, criando fantasmas que emergem como espectros aterrorizantes de almas do outro mundo ou de assombrações. Mas, o começo foi suave, a morte foi se apresentando diante de nós de forma muito lenta. Primeiro estudamos o esqueleto e eu chegava em casa, para desespero de minha mãe, com crânios e tíbias, com rádios e perônios ou com um fêmur de estrutura desejável em qualquer dos humanos de hoje em dia: firme e forte. Passamos a lidar com forames e eminências, com epífises e com diáfises. Os mestres, por vezes, nos enganavam e criavam orifícios que não existiam, para apavorar o incauto calouro. Era preciso, então, responder, na hora e no ato: forame artificial. Coisas dos inícios!
Até que um dia nos apresentaram ao cadáver desconhecido. Eram quarenta defuntos, se pouco, metade de cada sexo. Um corpo para cada quatro estudantes. Os apelidos começavam a ser postos ou impostos. Em minha mesa de dissecação estávamos eu, Pluto por cognome, em função de um salto – houve um tempo em que eu saltava – de um a outro nível no anfiteatro de anatomia, o Jia, o Velho e o Bico de Ouro. Tínhamos uma convivência harmônica e bem humorada. Cuidamos, de logo, em arranjar um nome, que fosse, para o nosso inerte companheiro e eu não sei quem sugeriu o vulgo: Pizulo. Ignoro o que significa e sequer a Internet, que de tudo sabe, é capaz de me oferecer uma solução para o impasse. Mas, assim convivemos todos, ele no silêncio de seu nada e nós na pândega do dia-a-dia de estudantes.
Faltei à explicação teórica de dissecação da mama e fui direto para a sala de aulas práticas, onde estava o nosso Pizulo, para adiantar o serviço. Resultado, cortei o mamilo do cadáver e os meus colegas ao chegarem quase me expulsam do lugar. Era para deixar a marca escura que caracteriza a mama masculina. Não tive dúvidas, apanhei do lixo o pedacinho de pele, recortei e com um alfinete e fixei no lugar. Quando o professor passou fiscalizando e dando as notas, fez o elogio da hora: “Muito bem! Conservaram o mamilo! Alguns dos seus colegas não fizeram isso!”. E a nota foi 10. Com essa observação eu me vinguei dos outros, de suas falas e de suas raivas. Aquilo tudo era uma novidade para toda gente, víamos a anatomia – o macro – de um lado e a histologia – o micro – de outro, o que nos fez ter uma base muitíssimo boa para a vida prática.
De outra feita, quando faltei novamente à aula teórica, na qual eram oferecidas as diretrizes para a dissecação programada, o professor ensinou a abordagem aos órgãos genitais. Eu, muito inocentemente, peguei o pênis – inerte também – de Pizulo e me virei para as meninas na mesa vizinha, onde havia um corpo de mulher, indagando: “É para torar ao comprido ou de banda?” Mostrei os dois sentidos com o polegar. Mas elas não gostaram da pergunta e a resposta foi imediata: “Não fale mais com a gente!”. E eu, na minha perplexidade emergente: “Por quê?”. Depois voltaram a falar e nós todos sempre fomos bons companheiros. Por conta disso, na reunião do grupo – Pluto, Jia, o Velho e Bico de Ouro – rimos às bandeiras despregadas.
Toda gente tinha apelido, alguns mais agressivos e outros menos. Quatro moças não se misturavam conosco, viviam isoladas entre si: Gases Nobres. Outra tinha seios fartos: Cilpe. Cilpe era uma companhia de beneficiamento do leite em Pernambuco. E o apelido pegou. Certa vez, na despedida da turma, Cilpe tinha bebido e me abraçando pediu: “Pluto! Diga porque o meu apelido é Cilpe?”. Depois da festa eu lhe explico melhor, respondi, e nunca pude esclarecer. Um colega encontrado com os olhos fechados sustentando um osso com o queixo e passando a mão para aprender as eminências e as cristas pelo tato, foi logo rotulado: Chupa-Osso. Havia outro que suava às bicas: Tampa-de-Chaleira. Um desses, de cor escura e de corpo avantajado: Marcelo Macaco. E por ai vai! Vaca de Bermuda, Pau de Fumo, Eosinófilo, Biu das Negras do Derby, Fofa, Alceia e Memeia, Matuto, Grande Trocanter, Grampão e outros mais.
E assim se passaram seis anos, há 40 anos pra trás. Alguns já foram chamados pela indesejada das bruxas, mas a grande maioria permanece convivendo neste mundo de Deus e dos homens, senão no cotidiano de todas as horas, mas nos encontros a cada 5 ou 10 anos, nas datas fechadas, então. Médicos de 1968 da Universidade Federal de Pernambuco.


(*) Crônica oferecida a cada um dos meus colegas de turma do ano de 1968, sobretudo a Moacir Novaes, figura extraordinária de companheiro, responsável único pelas festas e pelas bodas. A Jomar Ferreira Neto, também, pelo bom humos de sempre.