sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O rival e o boxe

A sonoridade do interfone é típica e indica sempre que o porteiro do prédio – este profissional novo na roda das coisas – deseja falar com alguém da casa. Ouvi a campainha do equipamento, em tudo contemporâneo, e quando a moça que trabalha por cá disse: “O Sr. Moisés? Um momento!” E me indagou se podia mandar subir a pessoa. De imediato raciocinei que se tratava do meu fraterno amigo de infância Moisés Diniz, irmão de Mozar – Mozar sem o “t” do compositor clássico –, figura das mil estripulias. Inventor do motel móvel, pois que a sua Kombi se transformava, a cada noite, em lugar reservado aos amores emergentes de seus amigos, em tempos de vacas magras. Pois que suba o homem! Mas, chegou acompanhado de um funcionário do edifício, Alonso de prenome, e eu, admirado com aquela medida de segurança, indaguei depois a razão: “Achei que era um profeta. E não ia deixar o senhor sozinho com aquele homem da barbona!”. À porta de casa o recebi, com toda pompa e circunstância. Fazia um bom tempo que não nos víamos e o abraço foi diretamente proporcional à distância em meses ou em anos.
Sentou-se à varanda e começamos a lembrar os bons tempos. As nossas idas e vindas à Festa da Mocidade, o pastoril do Velho Faceta e as pernas das pastoras, sobretudo as coxas roliças da mestra e o busto protundente da contra-mestra ou o jogo de azar, onde se perdia o dinheiro curto da mesada. A pelada na rua Padre Miguelinho, sem que soubéssemos – sequer suspeitássemos –, quem era o sacerdote, além de ser o verdadeiro patrono do bate-bola dos sábados. A briga de Moacir com Nino, numa manhã de carnaval e tantas coisas mais. De repente, levanta-se o meu interlocutor de ocasião e procura nos bolsos um objeto que ignorava o que fosse. Tira um relógio da marca Mondaine, a corda, antigo e modesto, verbalizando o seguinte: “Este relógio você me pediu que consertasse! Eu consertei, realmente! Mas, como já faz 40 anos, nem sei se lembra dele!”. Claro que lembrava, ganhei de meu pai no aniversário dos 10 anos de idade. Mas, não descuidei e disse: “Mas, Moisés, 40 anos para consertar um relógio?” E ele: “Pois é! E está funcionando a contento!”.  Não precisa dizer que o velho mostrador do tempo parou e agora para todo o sempre. E não precisa dizer que desaconselhei a minha mulher a pedir ao profeta para consertar, também, o seu relógio: “Você chega aos 100 e o relógio não volta!”.
O homem tem história que o diabo duvida de costas, numa sexta-feira santa à noite, no portão do cemitério. Lembra de toda gente, do nome e do sobrenome, do jeito de ser e de andar, das fofocas e dos defeitos, das qualidades também. Lembra de Zé Ventinha, um camarada com uma úlcera crônica no nariz, que falava fanho – coitado! – e era ruim da cabeça. A meninada afoita passava junto do pobre homem e puxava o paletó. Era se preparar para a carreira. Uma das vezes eu corri tanto que terminei rodando o quarteirão inteiro. E Sabará? O bêbado da rua – toda rua tem um bêbado – que cantava repetindo o gesto do poeta: “Tornei-me um ébrio/E na bebida/...” Eu saia de casa para as aulas carregando o livro de Anatomia, um volume enorme e ele: “Quando eu era estudante, ia na frente e uma carroça de cavalo atrás carregando os meus livros! Esse ai leva um livro só!”. Lembrou que sonhara, recentemente, com uma crônica a ser escrita por mim, na qual afirmava que a segurança nos anos de menino era tanta, mas tanta, que o guarda noturno que tínhamos era um anão. E era mesmo! Andava com um cassetete do cão, pra cima e pra baixo, apitando e vigiando.
Falou da luta de boxe que promoveu, certa vez, reunindo um rival que eu tinha na rua, interessado numa namorada minha e eu próprio, inteiramente virgem de qualquer experiência em ringues e outros lugares assemelhados. O adversário era um gaúcho renitente, morador novato da rua, mas logo, logo, encantado com a menina que  gostava de ouvir, se balançando, os melhores momentos de Núbia Lafayete ou a sonoridade de Dalva de Oliveira.  Resultado, ganhou a disputa e levou a moça. Mas, não casou e dela não sei o destino. Pra onde foi e o que fez da vida!

 
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sábado, 14 de setembro de 2013

Um enorme vazio

   
Há um enorme vazio em meu ser: a minha mãe encantou-se. Desapareceu para sempre! A minha orfandade completou-se! Parece existir um buraco atrás de mim, como se as referências pessoais estivessem perdidas. Não tenho mais os meus pais dentre os viventes deste mundo. Esse é o destino de toda gente, mas a perda é uma ruptura grande. Rompe-se, de um momento para o outro, esse elo parental, que serviu para reunir a constelação familiar. Não há mais o telefonema matinal, antes das 7 da manhã e a indagação do hábito: “Alguma novidade?”. A novidade, minha mãe, é a pior possível, a sua morte me deixou esmaecido.
Uma via-crúcis de quase de cinco anos, em lento e progressivo padecer, tudo sob a vigilância da filha, Fátima de prenome, que deu grande parte da vida pelo bem estar da mãe. Dias e dias nesse sofrer, sem ganho, porque a condenação à imobilidade chegou logo e ela foi se entregando. Uma professora que fez a opção doméstica, que criou seis filhos e acompanhou o marido dia após dia em sua doença, sem reclamar. Mulher saudável, sem doença, senão uma demência senil que a condenou, no fim da existência, a viver sem saber exatamente as razões.
Uma lágrima que rolou pela face em certa ocasião, foi vista por mim como uma forma de expressar a sua satisfação com a minha presença. Ou o fechar e abrir dos olhos, significando que estava sabendo de minha chegada. Formas, talvez, de se enganar, diante do inexorável das coisas. No derradeiro dia, chamado para a despedida, beijei-lhe a têmpora, mas o gelo da morte mostrou que estava decretado o fim. Ainda pude agradecer as noites mal dormidas, os dias devotados a mim e os momentos em que me acolheu em seus braços. Agradecer, sobretudo, os esforços para que estudasse, tivesse uma profissão e vencesse. Ninguém vence sem ter uma mãe na retaguarda.
Eu fui um menino difícil, levado da breca, dizia a minha avó. Complicado para aprender matemática, a conta de dividir principalmente. E ela sempre muito paciente suportou tudo, inclusive as vezes em que subia no



muro e me arriscava a cair. Pedia que descesse dali e o fazia com uma calma tão grande que sensibilizava. Foi a mais devotada de todas as mães, a mais dedicada e se hoje sou alguma coisa, escrevo e sou lido, devo a ela.

(*) - Texto publicado hoje, 14 de setembro de 2013, no Jornal do Commercio, do Recife, ainda a propósito do encantamento de minha mãe para o infinito das coisas. O leitor que desejar comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para o e-mail pereira.gj@gmail.com