sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A promessa e a gargalhada

              Sabem os meus leitores que sou chegado a um trote telefônico, sobretudo como forma de descarregar as tensões. Às vezes, muito estressado, recorro à invenção de Graham Bell e me passo por outro. Depois de rir às bandeiras despregadas, garanto que volto à normalidade das coisas. Foi assim daquela vez em que abordei a clínica veterinária de Aldeia e disse que tinha capturado uma raposa e que ela estaria doente. O que fazer? E a mocinha que atendeu, perplexa, disse: “Só chamando a veterinária.”. E eu desliguei!
Ainda por lá, no aprazível bairro de Aldeia, fiz a chamada para uma casa de vender plantas e informei: “O major Fagundes aqui de Araçoiaba faleceu e você sabe que ele gostava muito de plantas, por isso estamos desejando fazer o velório ai!”. Não, respondeu o empregado, aqui não se faz velório e logo hoje, um dia de sábado, com o movimento que está, vai atrapalhar tudo!. Eu insisti: “Amigo! Pois o carro funerário que veio do Recife já partiu pra ai e chega já!”. E ele: “Olhe suspenda isso imediatamente, porque se estacionar aqui nós vamos quebrar de pau quem vier trazer!. E a novela ficou por ai!

Certa vez, ligou pra minha casa uma criatura qualquer. Sem que se identificasse, procurou por outra, digamos que tenha procurado por Severina. Assim: “Severina está?”. Não, respondi, Severina morreu e já faz algum tempo. E a interlocutora de ocasião: “Meu Deus do céu, eu não soube! De que ela morreu?”. Eu nem sei de que morreu, pois sou da família, mas entrei agora na constelação parental e não conheci essa defunta. A mulher, indagou como tinha entrado tão recentemente na família e eu justifiquei que resolvi casar com a irmã da falecida, de quem era amante há muitos anos. Amante? Foi o que indagou! Sim, amante! Tem alguma coisa contra. “Não!” E desligou!

Mas o que motivou esta crônica, como forma de homenagear a sexta-feira de Carnaval, foi aquela ligação que recebi há muitos anos, lá na Boa Vista, onde morava; Boa Vista para uns e Santo Amaro para outros. A verdade é que ai pelas 16 horas, já tinha chegado do trabalho, porque nesse dia não se tem muito o que fazer, quando fui atender o telefone. A voz feminina jovem perguntava por Marcondes. Assim: “Marcondes está?”. E eu com a maior cara de pau: “Está ai junto, no bar, completamente embriagado. Nem dá para chamar, porque ele veio aqui ainda agora e foi de quatro pés.”. A mulher enlouqueceu e ainda teve coragem para continuar falando, dizendo: “Mas, ele me prometeu ir amanhã ao Galo da Madrugada! Eu vou matá-lo quando o encontrar sóbrio!”. E eu, ainda com a mesma cara de pau: “Moça! Todos os anos ele promete isso a alguém e nunca conseguiu cumprir!”. Não sei, francamente, se ela o matou ou não, o que sei é que dei uma sonora gargalhada e me mandei para o “Nem sempre Lili toca flauta”, dos agrados de minha mulher.
(*) - Uma homenagem à sexta-feira carnavalesca, dia dedicado aos filhoses com um mel de laranja bem cuidado, tão dos agrados de minha tia Lola, a quem dedico esta crônica de agora. A Maria Ângela também, a prima de tantos encantos, vibrante com as coisas do passado, sempre lembrando do corso e de outras brincadeiras do Carnaval. O texto é de hábito reproduzido no Jornal A Besta Fubana. Desejando o leitor, nao hesite em comentar os trotes, usando o espaço mesmo do Blog ou enviando e-mail para os endereços pereira@elogica.com.br ou pereira.gj@gmail.com

domingo, 27 de janeiro de 2013

Posto de Observação

Desta janela da sala vejo tudo o que se passa lá por baixo, sobretudo na pracinha fronteiriça; pracinha, ou melhor dizendo, um refúgio, como chamam os que entendem dos equipamentos urbanos. Vejo e até ouço, porque a gente de agora fala muito alto. Os diálogos e às vezes os quase monólogos por telefone, tudo audível até muito longe. Se tiver maiores dificuldades, é só ir à varanda e apurar os ouvidos, para escutar conversas e até o falatório solitário de alguns. Os isolados, à falta de quem falar, conversam horas sozinhos, indagam e eles próprios respondem. Há no refúgio uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, aquela das devoções de minha mãe, que a teria acudido em momento de desespero, quando a casa foi invadida por ladrões.
Esse negócio de telefone e de gente gritando, como aquela jovem na manhã de um domingo, discutindo com o parceiro o desejo (o dele) de ir ao desfile das virgens, me fez lembrar o antigo equipamento da Farmácia Lobo, em meu bairro, o qual sendo rudimentar, não permitia esses desencontros, tal o volume da voz no bocal do aparelho. Impossível não saber os detalhes de quem se desentendesse. Mas, hoje, os que se utilizam da invenção de Grahm Bell, tão estilizada como está, não ligam se ouvem ou se não ouvem parte da interlocução. Escutei muito da briga do casal; ela, diga-se de logo, empregada doméstica, trabalhando em pleno descanso remunerado.
Mas, lembrei de um telefonema que atendi numa sexta-feira de Carnaval. A moça procurava o seu namorado, assim: “André está?”. Não havia ninguém com esse nome em casa, ao que respondi: “Completamente embriagado no bar da esquina!”. E ela: “Eu não acredito! Ele me prometeu ir amanhã ao Galo! Eu vou matar esse homem!”. E eu não sei ainda hoje o destino de André! Ao final, poderia ter reparado o dano, mas como era uma coisa de menor poder destrutivo, resolvi deixar. Não soube do resto! Pior aquele homem rústico que ligou errado para o celular e eu o considerei piloto de um avião em pane e ele: “Meu senhor! O senhor me desculpe! Nem andar de avião andei!”.
Sentam no refúgio pessoas que conforme as respectivas idades e classes sociais escolhem os momentos. Pela manhã logo cedo se acomodam nos bancos os empregados da construção, aguardando a hora do batente pesado. Fiam conversa em voz muito alta e qualquer penitente que queira prolongar o sono, desperta com o vozerio lá em baixo. Durante a manhã, as domésticas andam ali com os cachorros das madames, uma ou outra arrisca um abraço ou um beijo roubado no namorado eventual ou efêmero. À tarde, quando o sol baixa, é fácil observar que a gente da terceira idade vai por lá para um fresco. Por vezes com a cuidadora, essa profissão da modernidade das coisas; das coisas e das idades.
 
À noite, as meninas “ficam” com seus namorados ou quase isso. Vez ou outra passa e para um obsessivo e faz gestos medidos, às vezes, repetidos. Outros aproveitam a madrugada e deitam nos bancos, dormem de roncar e amanhecem contando as horas para o nada que fazem todos os dias. Por fim, as que chegam em carros novos, expõem as pernas, como que lembrando certos outroras e certas proibições.
 
(*) Crônica do meu hoje, de minhas reflexões em torno do que se passa diante de mim, de minha janela da sala. O leitor amigo comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para os e-mails pereira.gj@gmail.com ou pereira@elogica.com.br