sexta-feira, 15 de maio de 2009

Barrado no Baile

Vez ou outra me deparo com dificuldades de acesso aos lugares, às vezes por implicância minha, confesso. No passado, no tempo da ditadura militar, era comum à entrada dos quarteis o civil comum ser investigado o mais que pudesse, contanto que a segurança militar estivesse assegurada. Parece que relaxaram tanto que os batalhões têm sido assaltados. Nesses anos, mais de uma vez, fui convidado a visitar, por motivos diversos, algumas dessas unidades e costumava simular um certo descaso pelos guardas de serviço no momento. Fiz isso em algumas ocasiões! Por pura sem-vergonhice! Numa dessas, quando da ameaça de uma epidemia de Dengue – a primeira das grandes epidemias –, fui ao antigo e temido IV Exército, para uma palestra em torno da emergente virose.
Chegando ao lugar, entrei pelo acesso principal, fazendo de conta que não ouvia as advertências do sargento responsável pela guarda: “Senhor! Senhor! Vai pra onde?”. Continuava andando como se nada acontecesse atrás de mim. Foi quando o homem, armado com uma metralhadora automática, surgiu na minha frente e disse: “Alto! Vai pra onde? Pensa que pode entrar assim, sem dar satisfação a ninguém!”. Eu não pensava, eu sabia que não podia. Mas... E me voltando para a autoridade, expressei em bom português: “É, meu senhor! Eu ia, mas agora, com esse vozeirão todo do senhor, eu não vou mais!”. E pedi que me fizesse a gentileza de comunicar ao general que tendo sido barrado, não podia mais pronunciar a palestra para a qual fora convidado pelo comandante. O sargento quase se ajoelha, derramando-se em desculpas. E eu me dirigi ao auditório, onde falei a um seleto grupo de médicos militares. Como não tinha exemplos a oferecer, senão o de Cuba, fiquei com a casuística da ilha de Fidel! Pegou mal!
De outra feita, fui chamado a um determinado hospital militar. É que um soldado tinha chegado da África doente e o médico assistente gostaria de uma opinião. Depois de ter estacionado o carro com alguma dificuldade, porque o recruta responsável não quis acreditar em minhas explicações, entrei no estabelecimento. Hospital assim, funciona quase como um quartel. Estava de plantão um dentista e eu fui entrando para a sala dos médicos. Ele veio atrás de mim, com toda razão, claro, indagando em voz alta: “Vai pra onde? Vai pra onde?”. Eu ia, meu senhor, mas depois de seu carão e de sua brabeza, com essa pistola enorme na cintura, francamente, não vou mais. “Ia pra onde?”. Ia ver um doente que me pediram, ia fazer um favor, um obséquio. E o odontólogo jovem, tenente ainda, implorou que fosse, pois estavam me esperando para o diagnóstico do paciente. Era um caso de Malária! E o doente ficou bom! Anda por ai zanzando, imagino, contando lorotas.
E por falar em Malária, na Biblioteca Nacional de Espanha, um monumento à cultura da humanidade, havia uma exposição sobre a parasitose, com várias homenagens e várias publicações sendo divulgadas, das quais algumas à venda. Tive acesso pelo primieiro piso, vi a livraria, comprei um ou dois livros e me dirigi ao acesso principal, posando junto à escultura de Cervantes, sendo fotografado em três ângulos, se pouco. Ai começaram as indagações e os interrogatórios sumários: “Vai pra onde? Fazer o que? Que pesquisa? Quem é o senhor?”. Expliquei pra lá e expliquei pra cá, conversa vai e conversa vem. Duas línguas diferentes, uma minúscula Torre de Babel sendo edificada ali. Até que a senhora, em tudo muito distinta, mesmo achando que eu era português, pergunta: “O senhor é pesquisador? Tem trabalhos publicados?”. Às respostas afirmativas, solicita o nome completo e eu mostro o passaporte. Vem a resposta colhida da Internet: “Ah! Vejo aqui que o senhor é Doutor! Pode ter acesso como pesquisador!”. O leitor há de compreender a questão: Eu não sou doutor, mas como guerra é guerra, aceitei o título e entrei, não sem antes ser fotografado, recebendo uma carteira da instituição, o que me honrou, com validade de 30 dias, desde que enviasse uma prova de meu endereço, uma conta de luz ou de telefone. É tudo do mesmo jeito, pensei! No Brasil é quase assim! E a Internet faz cada uma que parece duas!

E dessa forma, em momentos distintos, aqui e ali, eu fui barrado no baile.

(*) - A derradeira crônica escrita em Madri, sob um frio de 13ºC, e a sonoridade do cantar de minha filha, entoando para o meu neto Pablo cantigas de ninar, fazendo como antes antecipara com suas bonecas. É! O agora, é mesmo a materialização do ontem! Marejei os olhos! Ah! Como a vida passa rápida! E nisso, quase sempre, não se acredita. Desejando o leitor comentar, use o espaço do Blog mesmo ou o faça para pereira.gj@gmail.com ou ainda para pereira@elogica.com.br O autor gosta dessa interação com o leitor.

sábado, 9 de maio de 2009

Boi em Terra Alheia

Nasceu em Madri o meu neto – Pablo de prenome –, como não poderia deixar de ser, compareci ao grande acontecimento. Evento, aliás, que se deu a 1º de maio, Dia do Trabalho, pelo que o extenuante trabalho de parto não obteve a finalização desejada – afinal era um feriado –, senão a partir de uma cesariana. A criança, então, só veio ao mundo depois de 6 horas da mãe internada, gemendo e chorando nesse vale de lágrimas, como parece ser a sina das mulheres. E muita água passou embaixo da ponte no intervalo de tempo. Em outras palavras, muita coisa pitoresca foi vista por mim e anotada, para posterior publicação neste espaço de crônicas. O neto é fofo, posso dizer, com todo “abestalhamento” a que têm direito os avós, no dizer de amigo meu; amigo, iclusive que me falou que esse exercício, o de se avô, nada mais é do que o avunculato. O meu pai dizia que estava com netite. Veja só o leitor!
Mas, sentado na chamada sala de espera eu aguardava ansioso, junto com minha mulher e os pais de meu genro, enquanto ele acompanhava a esposa na sala para tanto destinada, observando os passos alheios, no mais amplo sentido da palavra. Lia o jornal El País, ao que sei um dos mais importantes de Espanha, particularmente interessado na gripe suína, de cuja virose eu tenho mais medo que o diabo da cruz, mas enquanto isso uma senhora a meu lado espirrava feito uma desadorada. Mudei de lugar e não adiantou, porque outra mulher associou-se à primeira e tossia como uma porca acometida da nova gripe. Eu só faltava endoidar, saltando de cadeira em cadeira, para me livrar desse risco. Mas, na Espanha, caro leitor, ninguém se livra. Ontem no ônibus de turismo a cobradora sustentava um lenço de papel nas últimas, assoando o nariz em minha proximidade, enquanto eu, no exercício pleno do avunculato, me encolhia pras bandas de minha mulher.
Havia um enfermeiro – auxiliar de enfermagem, como imagino – que corria de um a outro lado da sala feito uma bala, como se lá por dentro alguma coisa de grave estivesse acontecendo. Todos acompanhavam o enlouquecido homem com a cabeça, seguindo-lhe a rapidez dos gestos e comentando uns com os outros. Comigo e com a minha mulher não havia forma de trocar palavras. Eles falam de uma maneira muito rápida e não há quem acompanhe, senão pedindo que fale mais lentamente, palavra por palavra. E o pior é que ficam pensando que somos italianos, sem perder a oportunidade de indagarem: “Son italianos?”. “No! Brasileños!”. Ora pau!
Por cá, a obesidade é um horror! Muita gente com bengala e gente que anda com dificuldade por conta da enormidade do corpo. Na maternidade, um homem manco acompanhava uma mulher imensa de gorda, que andava remando, como aquelas que conheci menino; as quais sendo bem feitas de corpo e jovens, eram também gordas: as albacoras. Nunca esqueci essas figuras e o meu amigo Moisés, o bíblico, de quem vez ou outra tenho falado, sempre me faz lembrar delas, declinando até os nomes de cada uma. Não fala da balzaquiana que trabalhava nos Correios e morava pras bandas da Gal. Semeão. Vivia sozinha, isolada, talvez apartada de seu velho amor, inclinando-se para os meninos das ruas do entorno. É isso ai!
Nascido o menino, cuja semelhança uns dizem que o faz se aproximar da família do pai – Herraz de sobrenome – ou comigo, no entender de outros, fomos assistir a uma encenação em praça pública. Eram soldados franceses que então dominaram a Espanha, sendo expulsos pelos espanhóis revoltados com a supremacia das forças gaulesas. E havia canhoões que disparavam festim. Fiquei curioso e fui ver uma dessas peças. Pra que fiz isso? Um dos atores veio em minha direção e mandou que me retirasse dessa proximidade arriscada. “No puede!”. E eu sai com rabo entre as pernas, lembrando o guarda da Sucam, que me disse: “Doutor! Boi em terra alheia até as vacas lhe dão!”.É mesmo!
(*) - Crônica escrita em terras espanholas, sob uma temperatura amena de 23ºC, se muito. Mas, necessariamente, sob os acordes de uma músicalidade particular e peculiar: o choro de Pablo, meu neto espanhol.