segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Bica do Aurélio

Quando me matriculei para estudar com os jesuítas, fui posto numa sala sob as ordens de um irmão leigo, nascido em Portugal, homem de um sotaque muito forte. Ele mandou que a classe fizesse um ditado e eu tirei zero. Chegando em casa, disse a meu pai que não ia mais ao colégio, porque eu não entendia o que dizia meu professor. Como exemplo, mostrei que o meu sobrenome - Pereira – era pronunciado por ele como: Preira. O meu pai, de forma muito paciente, sentou-se comigo e falando como se fosse um português, mostrou exatamente como deveria entender o falar tão peculiar daquele homem. E assim foi! Terminei aceitando e admitindo as diferenças.

Pior do que isso foi aquela peça de teatro a que compareci já adulto e barbado; peça que integrava um programa de cooperação bilateral com o título de: Cumplicidades. O teatro estava com meia lotação, pouco mais ou pouco menos, e toda a plateia foi chamada a se acomodar no palco, um fato inusitado. Eu não entendia nada, mas um colega meu, velho amigo dos tempos de colégio, acompanhava com vivo interesse os diálogos. Não hesitei e cheguei junto indagando-lhe: “Henrique! Você está entendendo?”. No que ele foi sincero: “Absolutamente nada, senão que o cachorro da família chama- se “Leão”. Era isso que eu tinha entendido e nada além disso. Resultado, sai do teatro sem saber do enredo ou da narrativa.

Mas no domingo que passou estava eu bem acomodado no restaurante do Bosque, aguardando a frango desossado que havia pedido e a cerveja bem gelada do Ronaldo, quando chega um português do Algarve, Aurélio de prenome. Senta e se apresenta aos que não o conheciam ainda: “Eu sou o homem que deu nome à bica: Bica do Aurélio!”. E ai passou a contar o fato que lhe aconteceu. É que tendo sido homenageado com o batismo dessa fonte d’água, vez ou outra se depara com uma história diferente. É gente que vai por lá em busca de um milagre dos céus ou gente que vai aproveitar o benfazejo lugar para se refazer de um achaque qualquer.

No caso em particular, estava ele fiando conversa com Biu, debatendo com o cinquentão as agruras da vida a dois, considerando que só agora o quase gestor do condomínio vai casar, quando chegam duas senhoras bem afeiçoadas. Cumprimentam a todos e reclamam do gerente a limpeza da Bica do Aurélio, onde costumam rezar, à falta de quem as leve a São Severino dos Ramos. Rezam, sobretudo, disseram, pela alma do Aurélio, homem bom, com o espírito voltado para o semelhante, idealizador esforçado daquela fonte. Chegaram até a sugerir fosse o aludido senhor indicado para a condição de santo nos altares da Igreja. Elas podiam, inclusive, trabalhar essa iniciação, abrindo o processo de canonização na Arquidiocese. Biu não se conteve e disse: "seu Aurélio é este senhor". Não precisa dizer que a perplexidade quase as fez desmaiar. Mas, de toda forma, o Jackson já começou uma movimentação para a entronização do Aurélio, em vida mesmo, num altar qualquer do Bosque.
E o garçom Catraca, apelido que vem de longe, em função de um ruído em tudo semelhante à peça que movimenta uma bicicleta, forjado pelo abrir e fechar da mandíbula, foi desarrumando a mesa, ajeitando a toalha surrada e recolhendo os pratos. Afinal, precisa se preparar para a viagem que fará a Juazeiro do Padre Cícero, onde vai rezar de joelhos pela conversão dos pecadores e pela saúde da gente que conhece, incluindo meu nome no meio. Deus o leve, seu Catraca, invocaram os circunstantes, desejando ao peregrino que penitente também é, uma boa viagem de ida e de volta.

No meio dessa conversa toda, o Jackson disse que vai também criar um Blog e fazer companhia ao escriba aqui. Deus o ouça, disseram todos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Criado com Vó

Os meus leitores sabem, de cor e salteado, que fui criado com Vó. A minha avó paterna morava conosco, ela e uma irmã, a tia velha, como chamava. Ela, reconheço de bom grado, me adorava, não podia ver nada que me incomodasse, um carão ou um castigo das determinações paternas; mãe e pai sempre ciosos de minha educação, embora inquietos com o meu próprio futuro, inseguros, talvez, com as orientações que me davam e o meu desiderato de vida: levado da breca como era. E quando a minha avó, Beatriz de prenome, descobriu que eu estava namorando uma moça de minha rua, não suportou a precocidade do neto, aos 13 anos incompletos:

- Nilo! É o seguinte: Geraldo está namorando uma moleca de rua, que pinta os olhos.
 
O meu pai ficou meio atordoado, por certo não estava, ainda, preparado para a iniciativa do filho, a de namorar a jovem, linda como era, e sobretudo uma pioneira nas coisas femininas, capaz de se maquiar com um traço na pálpebra. Não era moleca de rua, era uma moça precoce, também, nas coisas do amor e das paixões, com quem namorei sete vezes e sete vezes ela acabou. Eu ficava tristonho com a ruptura e dois ou três dias depois ela ligava a radiola e fazia o vinil tocar Diana: “Não te esqueças meu amor/Que quem mais te amou foi eu/ Sempre fui o teu calor e minha alma aqueceu...”. E eu, feito um bestalhão, subia na janela do banheiro e prometia voltar. Ou ela fazia o equipamento antigo tocar: “Volta/Vem rever nossos jardins/Vem amor...". Era um fuzuê do cão, porque logo em seguida íamos passear de bicicleta no quarteirão. Numa das vezes, lembro-me bem, havia prova de História do Brasil no outro dia e eu tinha que ler a matéria no livro de Borges Hermida. Era tudo ou nada, tinha que decidi! Resultado, tirei zero.

Fui convocado para uma reunião no gabinete de meu pai e ouvi uma das mais sérias reprimendas de minha vida. Coisa mais ou menos assim: “Eu sou professor de história e você tira zero em sua prova? O que dirão os meus alunos? E os meus colegas?”. Eu ouvia calado a repreensão e achava que ele tinha mesmo razão. Prometi melhorar pela décima vez, talvez, e não houve jeito.  Assim que eu era escalado para ir ao túmulo de Dom Vital, sobre quem o meu pai vinha estudando; ir ao túmulo para pedir, de mãos postas: “Dom Vital: fazei que eu melhore, meu pai não aguenta mais!”. Eu não entendia bem porque ele não aguentava, mas não cabia perguntas ou indagações, cabia fazer e fazer era rogar ao bispo a graça da melhora. E eu nunca melhorei! Eu tinha horror ao padre, quase um santo, por não atender aos meus pedidos e depois ficava com a culpa desses horrores.
 
E a pobre da minha avó – coitada! Deus a tenha! – plantava as mudas de mamoeiro no quintal e todos os dias cuidava em regar mudinha por mudinha. Pois no futebol da tarde, quase sempre, a bola quebrava uma dessas plantas. Eu corria e mais que depressa fazia o reparo com fita adesiva. É claro que nunca obtive êxito nessa tentativa de restaurar. E ela, com a sua vista curta, reduzida pela catarata, ainda dizia: “Parece que está murchando!”. Mas, se contentava em saber que na verdade sentia a mudança de lugar, a troca do substrato. Certa vez, estava lá por casa Moisés, meu amigo de infância ou seu irmão, Mozar – Mozar sem o “t”, insistia -, igualmente amigo e um canário caiu morto às custas de um tiro de bodoque. Minha avó deu a perereca, mas um deles foi em casa, trouxe outra ave e tendo colocado dentro de uma quenga de queijo do reino deu umas pancadas e considerou o pássaro ressuscitado. E a minha avó aceitou o milagre.
A última história já contei por aqui, mas vale a repetição. É que o meu pai estava dependendo de uma nomeação do governo e o ato sai hoje, sai amanhã, nunca sai. Ela me chama e diz: “É a pombinha que você está criando! Ela dá azar!”. E eu triste, quase assumindo o dano, ainda indaguei: “A pombinha? Não! Não é! Não tem nada a ver!”. Mesmo assim dei o bichinho e no outro dia, creia o leitor, a nomeação foi publicada e paz voltou a reinar. Eu ainda perguntei se podia buscar de volta a pomba, mas ela foi irredutível: “Não! De jeito nenhum! O seu pai vai perder o emprego!”.
 
(*) E o menino levado da breca, traquino, peralta, hoje está se preparando para lançar mais um livro - o último - do historiador ilustre que foi meu pai. Ninguém imagina o quanto aprendi com a leitura e as várias releituras de "A Revolução Peregrina e Outros Estudos". Fiz diversas revisões. Foi bom ter feito isso, tomar essa iniciativa, porque pude introjetar mais ainda o quanto de saber havia naquela criatura: meu pai. O leitor que comente e o faça aqui mesmo no espaço do Blog ou escreva para os e-mails: pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com