domingo, 12 de agosto de 2012

Mãos de um velho

           O meu imaginário toma corpo nesse dia dos pais; toma corpo e ganha os ares, viaja como se fora o pássaro dos anos e vai resgatar lá atrás a figura de meu pai.  Consigo me transportar até o começo de tudo – os meus inícios – e vou me encontrar na casa em que nasci, na rua em que me criei, cresci e de menino me transformei em adulto. Nessa trajetória toda tive a meu lado sempre um personagem ao mesmo tempo real e fictício. Real, porque presente a cada minuto e a cada dia de meu ser. E fictício pelo preenchimento das fantasias de minha imaginação; fictício por ser um gigante idealizado aos olhos da criança. Um gigante que se tornou tão frágil no tempo da finitude. Tão frágil e tão medroso com as coisas da eternidade, com futuros que eram mais de seus temores religiosos, que de sua atuação nesse mundo de Deus.
            Eu era um menino, tão menino, ele um jovem que sustentava pela mão o filho imberbe ainda, levando-o aqui e acolá. Gostava quando participava com ele de uma conferência, ouvindo Mário Melo ou escutando com atenção um Agamenon Magalhães ou outro qualquer de seus agrados. Falas que eu não compreendia direito. Antevia futuros, talvez, promovendo essa aproximação precoce do filho com a palavra, com a intelectualidade. Não soube de meus livros, de minha eleição para a sua Academia, ocupando justamente a cadeira de número 16, que fora a sua. Não soube também de seus livros, publicados depois que se encantara, in memoriam, como se diz no comum das coisas. E não soube de seu próprio centenário, assinalado com uma conferência magistral de uma conterrânea, que escreveu tese sobre si.
            É isso mesmo! Hoje o meu pensamento está assim, dividido, por um lado o meu pai, encantado já há tanto tempo, vinte anos na contabilidade das ausências, e eu, pois que sendo pai, hei de almoçar com os meus, vou provar do bacalhau feito pela filha mais velha, primogênita da prole, mais vou levando a tiracolo a outras duas e mais a mulher de meus sonhos; de meus sonhos físicos e de meus sonhos espirituais e humanísticos. Por lá estarão o meu genro, Gonzalo de prenome e o meu neto, Pablo, El campeón. A vida é dessa forma, as pessoas vão passando com o tempo, o relógio dos anos carrega de um por um, deixando claros incríveis e vai trazendo gente que se acresce à família; gente que faz crescer a chamada constelação parental.
            A saudade é grande, sobretudo do tempo de criança, das idas e vindas ao parque 13 de Maio, das mãos dadas, como se isso nos ligasse definitivamente. Como se isso desfizesse por antecipação os desentendimentos no campo do social ou na seara do político. Aquelas mãos de antes ficaram tão velhas e tão marcadas, que eu as olhei certa vez em derradeira visão, para não esquecer nunca: mãos de um velho. Agora, vejo as minhas mãos e as comparo com aquelas, não há diferenças. Eu também estou velho!
           

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As diferenças no hoje das coisas

Na vida tudo está diferente, essa é que é a grande verdade. Nos subúrbios as habitações com jardins e grandes quintais não existem mais, tombaram, vergaram à força da demolição e os lotes foram reunidos para que se possa construir um espigão a mais em cada recanto da urbe. São prédios e mais prédios nos bairros da classe média, espetando o solo, como se o mundo fosse uma grande tábua de pirulitos. Não há sistema de esgoto ou de água que possa dar conta dessa febre na construção civil. O meio ambiente também não suporta tanta mudança e tanto concreto esquentando os ares urbanos. A água, o bem maior da humanidade, corre poluída, contaminada por dejetos humanos, imprestável para o consumo potável.

O desenvolvimento da ciência e da técnica não se fez acompanhar pela humanização da criatura, antes o contrário. Os vizinhos de prédio, ocupantes dos apartamentos de agora, são diferentes dos antigos moradores da casa ao lado ou daqueles de uma mesma rua. Folguedos curtidos pela comunidade inteira como o Natal e o Ano Novo, assim como o São João e o Carnaval, são, atualmente, festas quando muito da família e nunca envolvem os demais. Nas comunidades verticais – os edifícios -, o elevador, que passa lotado todas as manhãs, conduz gente no mais das vezes, estranha entre si. No máximo um cumprimento formal e lá segue o veículo de todas as verticalidades. No final do ano, por vezes, uma ceia congrega o condomínio por seus integrantes, raramente contando com a presença de todos.

Nas últimas cinco décadas – pouco menos de seis décadas talvez – a humanidade vem assistindo e, sobretudo, vivenciando extraordinárias transformações, as quais têm contribuído para as mudanças nos estilos e na qualidade ide vida do homem. Nunca a ciência e a técnica avançaram tanto como nos cinquenta ou nos sessenta anos que se passaram, colocando a serviço da criatura recursos que fogem até ao poder do imaginário, de cuja força criadora nasceram os relatos da ficção científica, muitos dos quais materializados depois.

A informática revolucionou o mundo, inserindo a máquina em todas as atividades, desde aquelas de natureza estritamente doméstica às de cunho laboral, facilitando tudo. Assim, o microcomputador ocupa hoje lugar importante na casa de muitos e no trabalho de todos ou de quase todos, processando a informação nos mais diversos níveis, do gerenciamento de dados à virtualidade da inteligência artificial, que não vem para superar as potencialidades humanas, mas para contribuir no aperfeiçoamento cada vez maior da produção.

(*) Meus caros e distintos leitores. O texto de hoje é uma parte de um livro que hei de terminar. Aliás, hoje fui buscar as provas de outro, no estilo corrente de crônicas e com o título de: Crônicas Virtuais. Ficou lindo! Vale pela capa, ao menos. Conto com a presença de todos nos jardins da Academia de Letras, em setembro. Este outro, do qual publico uma pequena parte, será um ensaio e abordará o que vi e o que vivi nos meus anos de existência no século XX, um tempo de mudanças e transformações. O Blog é reproduzido no jornal A Besta Fubana. O autor agradece aos leitores que comentarem.