segunda-feira, 9 de abril de 2007

Folhas Secas

Li e reli a carta de uma senhora alemã de 79 anos à sua nora, pernambucana deste rincão e tirei dali lições que vou guardando para o meu doravante. Diz a missivista que vive o outono da existência, sentindo a lentidão a lhe tomar o todo, pouco a pouco, no pensar sobretudo. Mas, recomenda com sabedoria à jovem nora que guarde os domingos para o Criador ou os reserve à família. E conta que em seus passeios aos bosques germânicos, vez ou outra, recolhe uma folha solta ao vento, largada ao léu. Nota que é seca, amarelada, embora traga, sempre, pequenas manchas verdes, as quais desaparecem depois de guardada por entre as páginas de um livro qualquer. A dona Ângela Efken, certamente, não imaginava que um aprendiz de cronista fosse tomar as reflexões de sua missiva e aproveitá-las em ocasião assim, de recolhimento d'alma e meditação do espírito, num domingo qualquer de tropicalidade aflorando. Uma reconciliação com o sentimento, então!

Eis a plenitude da idade, o ápice da experiência existencial! Foram anos e mais anos contados em décadas reunindo vivências e convivências, convívios, afinal, sintetizados assim, num filosofar, posso dizer doméstico, a sagrada forma de se apontar veredas a serem seguidas, caminhos a percorrer e estradas a passar. E é nesse outono ou nesse ocaso e nunca por acaso que o conhecimento do dia-a-dia, das práticas de vida, deve ser transferido, mesmo que haja a lentidão no gesto ou mesmo que o ato e o fato de pensar exijam um desusado sacrifício. A maturidade tem isso, traz o dano e a debacle, o declínio, pois, mas promove a serenidade e a paz, permite que a reflexão conduza os destinos e inibe a pressa irrefletida, tão comum na juventude e uma constante, quase, na adolescência dos anos. E a dona Ângela Efken enaltece a família, a célula mater e recomenda Deus, que é tudo, a concórdia e a humildade, a harmonia e o sossego.

A lição maior, todavia, está nas folhas secas recolhidas ao léu, nas gélidas paragens germânicas, todas com manchas verdes e que murcham quando deixadas por entre páginas de livros. Toda gente, do começo ao fim dos tempos, preserva nos interiores marcas assim, do viço e da força, para se alevantar dos baques ou para superar obstáculos, pedras do caminho e percalços nos atalhos da vida. Há sempre um recomeço! Uma mudança, uma transformação, a metamorfose da criatura, numa readequação aos cenários da existência! Verdadeira reengenharia humana! Ninguém, todavia, deve se encolher e restar prisioneira, de si ou dos outros, sob o risco de murchar, de perder o brilho e a cor, de se tornar um nada, que a nada pode criar. Só a criatividade realiza o homem, porque o aproxima, mais e mais, do Criador, que fez a tudo e a todos, que estabeleceu as leis da natureza e sustenta o Universo em sincrônicos movimentos de rotação e translação.

Viver é um exercício difícil, uma sucessão ou uma alternância de ganhos e de perdas que inquietam profundamente o ser. Há uma cruz reservada a cada um! Algumas mais pesadas, lenhos de madeira bruta, à semelhança de rochas, que tornam a trajetória penosa e sofrida, que abrem incuráveis chagas! Outras, mais leves! A criatura, porém, enfrenta tudo isso, vai contornando momentos e dando a volta em minutos, desespera-se e chora o pranto sentido, rasga-se em lágrimas e parece sucumbir. Sente-se, por vezes, um palhaço no picadeiro da vida, arremedando humores que não tem e achando graça no nada do nada! Reconhece, afinal, as dificuldades da hora e se ergue! Há, sempre, um sorriso guardado, uma expressão de afeto reservada e um afago emergente! Aos que foram melhor aquinhoados e cuja aflição é menor, que não cumpriram a paixão e a morte, cabe compreender, entender a inquietude alheia, sem exigências, pois.

O verde da esperança há de vencer a palidez amarelada dos fracassos estabelecidos e das ruínas sentidas, afastando as ameaças do cinza de todas as derrotas e do preto de outras desgraças funestas.

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