


Era preciso fazer a fogueira arder em chamas e depois em brasas, pois isso assegurava, na crença do povo, vida por mais um ano para o dono da casa. Acendia-se, então, aquele monturo de gravetos, que às vezes recebia um reforço com a madeira de velhas estantes carcomidas pelos cupins. Chegava, assim, o momento das adivinhações e das simpatias. Levar uma bacia d’água até as proximidades do fogo e se olhar a imagem refletida do penitente, garantia a existência por mais um ano, também. E habitualmente fazia-se isso. Quem não se via ficava louco, verdadeiramente, e passava o ano todinho evitando situações embaraçosas ou perigosas. A faca na bananeira, enfiada à meia-noite, deveria trazer as iniciais do futuro cônjuge, do marido, pelo geral, mas da mulher também. Nunca vi funcionar, sequer amanhecer com as letras assim legitimadas.

Com 14 ou 15 anos, se muito, arranjei a primeira namorada, que me tinha mais pelos serviços que prestava à sua bicicleta, do que propriamente, por amor. Consertei diversas vezes os pneus furados, colando o remendo com um Michellin especial de que dispunha. Ninguém lembra mais disso, do Michellin doméstico! Mas a mãe dela, louca para me pegar pelo pé, providenciou todo o alfabeto em letras bem recortadas. Soltou os papelotes na água de uma bacia e mandou que escolhêssemos um daqueles pedacinhos. Ela tirou o “G” e casou-se com George e eu que tirei o “Z”, me casei com mulher de prenome começado pela consoante. Tinha o gracioso apelido de Zizi e uma genitora braba feito uma capota choca. Fazia até medo falar com essa sogra, pela sujeição a um baile se lhe desagradasse. Era um rolo!

Muitos anos depois fui encontrar a mesma tradição na rua de meu sogro, inclusive o costume de se passar nas brasas da fogueira, descalço, de uma vez, rapidamente, antes que um pedaço de madeira prendesse no solado do pé de um passante assim, às vezes incauto. Cheguei a atravessar o braseiro também, em mais de uma ocasião, mais de uma vez em cada ano, porém depois desisti dessa penitência, antes que me queimasse e de lá ferido voltasse.

E havia em minha rua uma moça com um defeito na face – uma ptose palpebral –, o que a fazia olhar sempre para cima. O apelido – coitada! – foi rápido e o constrangimento enorme: "Olha pro céu meu amor!" Uma homenagem desnecessária ao mestre que foi Luiz Gonzaga.
(*) - Uma crônica escrita na noite de São João, antes de acender a fogueira e antes de dançar o forró, sob o céu de Aldeia, contando com o friozinho do tempo e a solidariedade dos amigos do Bosque das Águas de Aldeia. Viva!