
Havia
uma recomendação paterna que não se podia atender, a de não frequentar o
teatro, porque ele protestava, quase que diariamente, através do jornal contra
a indecência e a corrupção dos costumes. Pois era ao teatro que íamos de logo. Certa
vez, no “sereno” da peça “Tem bububu no bobobó”, encontrei um tarado que me
falou da investida que sofrera a sua irmã por parte de um colega seu de perversão.
Não respeitaram nem a irmã do tarado, foi o comentário final. Mas, do lado de
fora da casa de espetáculos via-se tudo e ainda havia a possibilidade de se
olhar os camarins. Ora, em determinada noite, estava um dos colegas posto na
condição temporária de voyeur, quando
um soldado da radiopatrulha segurou-o pela gola. E ele, sem atentar para a
hora, disse: “Ainda é minha vez!”. Quase sai dali para o xilindró.
Engraçado
foi daquela vez em que o meu pai, depois de ter ganho um sapato rainha,
negou-se peremptoriamente a usar. Ele achava que um sapato de pano não lhe era
apropriado. Talvez nem fosse! Me deu o calçado e eu imediatamente o calcei e
parti para o passeio a dois, quer dizer com a namorada, na Festa da Mocidade.
Ali, sentei-me com ela e o sobrinho dela numa mureta da fonte d’água. Quando estávamos
relaxados e a conversa fluía solta, histórias fiadas e muito bem contadas por
mim, o rádio da Festa anuncia: “Atenção! Atenção Geraldo Pereira, volte para
casa, pois seu pai precisa sair com o sapato!”. Foi um horror, porque levantei
assim que o meu nome foi verbalizado, motivo para que todos tenham notado o meu
constrangimento e depois quase não consigo explicar que se tratava de uma
brincadeira.
Andando
pelas alamedas iluminadas tinha-se de tudo. O jogo de azar imperava e os
menores eram proibidos de apostar, mas apostavam. Fazia-se uma fezinha aqui e
outra ali. Barracas de bebidas, também, não se permitiam atender à gente ainda
imberbe, mas atendiam. Vez ou outra uma dose de Cinzano, quando não de Martini.
O cabo Marcha lenta comandava o policiamento local e andava remando, tal a
compleição física. Havia, todavia, o Dono da rua do Imperador, também conhecido
como General da Cavalaria Submarina, um maluco que usava dezenas de medalhas
sobre uma farda que misturava as três forças de uma vez. E eu nunca dispensei
uma galhofa com o homem, dizendo-lhe que me considerava à sua disposição para
uma intervenção qualquer. Fosse onde fosse! E por ai a gente fazia de um limão uma
limonada.
Na Noite de Natal, já
expliquei e bem explicado, comparecíamos à Missa do Galo na igreja de Fátima.
Rezar, raramente rezávamos, mas acariciávamos as cabeças cobertas por véus tão
alvos quanto a pureza do lírio. Ou cochichávamos a cerimônia toda, sem darmos
brecha a quem desejasse interromper o balbuciar das palavras finamente
escolhidas. E o peru aguardava para ser degustado com guaraná Fratelli Vita.