O telefone foi uma das grandes invenções do homem. E o progresso, o desenvolvimento da tecnologia contemplou bem esse invento, aperfeiçoando-o ao máximo. Imagine o leitor que não sendo eu assim tão velho, ainda peguei na farmácia da esquina – a Farmácia Lobo –, na Avenida Visconde de Suassuna, um velho telefone, daqueles em que havia um bocal no qual se falava e se falava alto, contanto que o interlocutor pudesse ouvir. Enquanto isso, a mão esquerda sustentava o cone com o qual se ouvia, encostando-o no ouvido do mesmo lado. Naquela drogaria da infância, onde existia, como em todas as outras, uma propaganda do óleo de fígado de bacalhau, certa vez, um camarada indignado com a namorada discutia quase aos berros. Não me lembro do resultado, mas ao que parece, terminaram rompendo em outra ocasião o amor de passageiro.

Quando chegou ao Recife o telefone sem fio, uma peça capaz de se deslocar por toda casa, ouvindo e falando, estava num restaurante desses da classe média e vi o novo apetrecho. Não tive dúvidas, pedi ao garçom que me emprestasse e fiz uma ligação para meu pai, que era uma pessoa interessadíssima nesses inventos. Do outro lado ficou perplexo e providenciou, de logo, a compra de equipamento similar. Mas os primeiros desses aparelhos eram precários e não garantiam a privacidade de quem se utilizava do avanço. Foi assim que ouvi conversa de vizinha minha numa briga enorme com o namorado. Mulher bonita, de formas bem desenhadas, de pudor dentro dos limites do pós-moderno, ouvia do parceiro a admoestação: “Quenga safada! Mulher vulgar! Exibicionista!”. Isso porque ela transitava dentro da ambiência doméstica nua da cintura pra cima e o empregado do quintal, “Cachorro de Quintal”, no ontem dos anos, deliciava-se com a visão sempre agradável de seu corpo.

(*) - Eis a crônica do telefone e de seus segredos; de sigilos nunca apenas cochichados. Diálogos secretos ouvidos, tantas vezes, por quem liga o equipamento e se encontra com um interlocutor de ocasião. Comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com