
“Agora chora pierrô/É tua sina/A sina de pierrô é chorar por colombina/...” E por certo os fantasmas desses apaixonados, nostálgicos sofredores em perpetuidades das lembranças, vagam ainda nas noites de Carnaval, perseguindo roteiros de antigos corsos em automóveis de fumaça, buscando aqui e ali, como alhures, ósculos perdidos da amada no éter das ilusões! Levantam as mãos, fluidas quase, para captar mensagens assim, de beijos jogados, roubados também, lançados no estirar lúdico das serpentinas que se desfazem, estirando-se em longos vínculos das fragilidades dos amores. Ou baixam a cabeça, esperando confetes coloridos das esperanças de todos os reatamentos, impossíveis já! Nada mais resta, nem pode restar, senão as asas do imaginário que refazem convívios! Vivências e convivências da fantasia, felicidades do efêmero! E nos sulcos que marcam as faces dos fantasmas, caminhos dos desesperos, rolam silentes em solitárias lágrimas, lentamente.
E os palhaços, vestidos de branco ou de amarelo, com as bolas da negritude, que simbolizavam, por certo, o luto das irreparáveis perdas, dançavam nas ruas o passo das ilusões, fazendo a coreografia das alegrias, quando estavam de coração dilacerado, escondendo nas máscaras o semblante das angústias e a fisionomia das ansiedades! Aquele rítmico tocar das castanholas, pungente como a despedida dos amantes, era o pranto derradeiro do estabelecido adeus! Faziam de conta que gostavam do alvoroço das crianças, dos meninos e das meninas entoando o coro da alegria, mas por dentro sofriam loucamente, como os largados pela vida e pelos amores. Quando a quarta-feira das ingratidões chegava, tiravam a máscara de pano, como se estivessem fechando a grande cortina do palco e voltavam para as coxias, condenados a mais um ano de realidades, nuas e cruas, como tem sido a vida de tantos! E a colombina encantou-se, também, desapareceu da roda, dos amores e das alegrias.
(*) Crônica escrita há muitos anos, num sábado qualquer de um Carnaval que se foi, encantado nas ilusões do ontem. Crônica que ofereço a Zezé Caminha, às vezes porta-estandarte do Bloco da Saudade, uma pessoa muito especial, porque afetiva e carinhosa, delicada e atenciosa com tudo o que faço na vida.