terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Uma Marinheira em Minha Rua


O meu pai era um homem extraordinário! Não suportava o Carnaval e nos tempos de solteiro fazia retiro fechado com os jesuítas, mas nunca descuidou de levar os filhos aos bailes infantis do Clube Português. Era sócio de honra da agremiação e sendo assim, recebia um convite especial, familiar. Enquanto fui menino usava essa entrada apenas numa das tardes do tríduo de Momo, mas depois, ia às festas noturnas, com a namorada a tiracolo já. Numa das vezes, estava em mesa recuada e mais adiante umas moças, quase nossas vizinhas, dançavam alegremente, pulando o frevo e rebolando com o samba. Pois de hora pra outra, salta do vestido de uma delas o seio direito. Claro que imediatamente a penitente fez o recolhimento do órgão lácteo que expusera, mas eu, que ando sempre numa situação de observador do cotidiano, não perdi tempo: olhei. O namorado me fitou com cara de bicho, mas não havia mais jeito, eu tinha visto do busto de sua amada e talvez idolatrada namorada.

Na minha rua havia uma troça dos meninos, com o estandarte vermelho: Os Brotinhos. Passavam cantando e dançando lá por casa, faziam uma parada estratégica em cada porta para uma dose de cachaça ou um gole de whisky, o que viesse valia. Minha mãe se perturbava, porque o meu pai não bebia e por isso ela não sabia lidar com esses líquidos que passarinho não toma. Aguardava a hora da bateria improvisada parar e ia buscar o que dispunha: Conhaque Macieira, cinco estrelas. Servia em pequenos cálices, que aprendi depois não se prestam à bebida, a qual deve ser tomada em taça apropriada, esquentada antes da ingestão. Certa vez até, em viagem que fiz a São Paulo, tremia de frio e atendi à recomendação de um amigo: “Toma um conhaque!”. Lembrei dos presentes que o meu pai recebia e pedi o Macieira na hora em que o garçom indagou sobre a preferência. O calor voltou num instante. Hoje, sou mais uma cerveja bem gelada ou um vinho bem cuidado, tudo sob o luar de Aldeia.

Mas, houve um ano em que a família estava de luto. Passava-se uns seis meses vestindo preto – o luto fechado –, depois abrandava-se um pouco e usava-se cores discretas, sempre com o fumo preto no braço ou pendente de um dos bolsos. Brincar o Carnaval, nem pensar! Foi ai que a vaca torceu o rabo, porque eu não queria deixar de batucar na folia e não tinha espírito para ficar enfurnado em casa, curtindo o luto. A minha avó tinha morrido, realmente, eu sentira a sua falta, mas aquilo passou e os acordes do frevo já estavam se aproximando de meu juízo. Apelei para a minha argumentação de adolescente e nada. Entrou em cena minha mãe e a sua interveniência fez com que o meu genitor liberasse. Eu queria ir a uma gafieira e no final das contas ele disse: “Vá a essa gafieira pelo amor de Deus, que eu não aguento mais!”. E eu fui! Lá encontrei Gercina, empregada de casa, dancei com ela agarradinho e o fiscal de salão advertiu: “Se continuar vai pra fora!”.

Mas, perto de casa havia uma moça linda, de corpo quase perfeito, que se vestia de marinheiro ou marinheira a cada período de folia. Era uma figura admirada e sobretudo desejada por todos, mas ninguém passava a mão, porque o namorado se dizia presente a noite inteirinha e pela manhã, logo cedo, mal raiara o dia, ia deixá-la em casa, não sem antes quebrá-la no muro de sua residência. Eu, que sempre acordei com o galo, gostava de apreciar o rala e rola, babando de vontade. Ai meu Deus do céu: deixa eu me aproximar de Dolores. E a graça divina nunca me chegou!

(*) - Uma crônica sobre o Carnaval.Outros carnavais e outras vivências, por certo outras convivências também. Dizem que Lampião gostava do Macieira cinco estrelas! Não sei se é verdade ou se não é! Disso sabem melhor o Papa da questão Frederico Pernambucano e o Bispo da problemática, Roberto Pedrosa, Bob por apelido, Ccsado com Valéria, a sua perpétua domadora, como ele mesmo destaca. Comente no espaço do Blog, agora com moderador, para evitar intrusos com jeito de espírito de porco ou para os e-mails: pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com Quem disser o verdadeiro nome de Dolores ganha uma lança-perfume Rodouro de presente. Viva! 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mais Picaresco que Pitoresco

Eu noto que a temática em torno do telefone agrada e estimula a resposta, senão no mesmo diapasão, em diferentes tônicas da abordagem. Por isso, vou contar por cá duas histórias dos meus diletos leitores. Não sem antes dizer de uma certa ligação que recebi em sábado pela manhã, estando eu na varanda do apartamento tomando um fresco, como se dizia no outrora do tempo. Atendi o celular sem atentar para o número que chamava e o diálogo teve início. O meu interlocutor dizia que eu tinha sido indicado para receber uma medalha de honra ao mérito e ele me telefonava para discutir detalhes da entrega. Confesso ao amigo leitor que, de começo, fiquei lisonjeado, cheguei a dizer que não merecia tanto, coisas da modéstia, falsa modéstica de quem se julga merecedor dos encômios todos. Veja só o leitor!

Mas, chamou a atenção o fato de que o homem indagava seguidamente: “Como o senhor deseja receber?”. Achei que a organização que me distinguira, é que deveria decidir sobre a entrega. Chamou ainda mais a atenção ouvir desse figurante inesperado o seguinte: “Quer que vá levar em sua casa?”. Ora, foi demais! Receber uma medalha em casa? Mesmo sendo, como era, uma associação de bairro, não seria da formalidade protocolar, imagino, fazer essa outorga a domicílio. Concordei com a entrega, marcando-a para a quarta-feira, porque teria tempo de pensar e refletir sobre as coisas daí por diante. O número ficou registrado pelo celular e quase ao meio-dia resolvi telefonar, para saber de onde falava aquele misterioso figurante de meu sábado. Liguei, atendeu uma outra pessoa. E eu, com a inocência dos curiosos: “De onde fala?”. E a resposta: “Olhe, meu senhor! Eu ia passando, vi o orelhão tocando aqui na avenida Conde da Boa Vista e atendi!”. Muito bem, quase digo! Não precisa explicar mais nada.

O homem na quarta-feira chegou ao prédio, falou com o porteiro e eu recebi o aviso de sua presença. Mandei que aguardasse no hall e desci. Sentei com ele em sofá bem posto à entrada de meu edifício e indaguei as razões da escolha. O penitente, vestido a caráter, de paletó e gravata – eu de bermuda –, teceu os maiores elogios que já ouvira, alguns dos quais nunca me foram ditos, como aquele: “...prestou inestimáveis serviços a Pernambuco!”. Eu até que prestei mesmo, mas inestimáveis, francamente, não! Nessa cerimônia quase doméstica me deu um diploma, um relógio Mido falsificado e finalmente a bendita medalha, de pé, como se estivesse num palco. Ao final, abriu um livro de ouro e me pediu que o assinasse. Passei uma vista d’olhos e só encontrei gente grande, fazendo doações entre R$ 500,00 e R$ 1.000,00. Fui precavido e disse: “Sou assalariado e não poderei lhe doar mais que R$ 50,00. Ele ai arranjou uma brecha entre dois nomes, no meio do livro, acolhendo a minha assinatura e embolsando o dinheiro. Ainda pediu duas indicações e eu decidi preservar os amigos, a ninguém recomendei.

Mas o tema, já disse antes, chama a atenção e desperta o interesse do leitor. Como aquele, velho amigo, que me escreveu e disse das lembranças que tivera de seu pai, um afinador de pianos, com quem viajava para visitas às cidades do interior, nas quais existiam instrumentos assim, muito apropriados ao estudo de mocinhas em flor. E era por lá, numa dessas cidades interioranas, a já progressiva Nazaré da Mata, berço de Mauro Mota, que o genitor, ao final da labuta, se utilizava de um velho equipamento telefônico com uma manivela. Admirava-se o então menino com as vezes em que o pai movimentava o veio, para depois falar e pedir um carro de aluguel. E em cinco minutos o veículo chegava, numa prontidão que os nossos taxis não conseguem alcançar. E o trote de que fala o meu ilustre amigo, escritor e editor, que tendo ligado para a Casa Dako, onde vendiam fogões de inox e foi direto ao assunto: “Penico de barro enferruja?”. Ouviu todos os impropérios do mundo”! Era assim mesmo!

E por fim, uma leitora que pediu para citar o seu nome: Juliana Moroni! É que a figura esteve morando na China, onde, aliás, o meu Blog foi bloqueado, por utilizar-se de palavras inadequadas, chulas, cuidava em ligar pra minha casa pelo computador, usando um programa com o nome de Skype. Às vezes – só às vezes – enchia um pouco o saco, falando das coisas lá do Oriente e eu nunca descuidei: “Juliana! Vá pra China!”. Mas Foi, justamente, ela quem me comunicou o bloqueio e o leitor pode conferir, há 25 acessos daquele país agora em franco desenvolvimento. Era ela quem visitava o espaço, até que um dia escrevi a crônica “Bunda em Japonês” e os homens do governo ignoraram a minha intenção em contar o picaresco, mais do que o apenas pitoresco.
(*) - É o telefone ainda, neste espaço virtual, fazendo o sucesso que a comunicação permite ou que o diálogo deixa passar. Comentários são sempre bem-vindos. Escreva no espaço mesmo do Blog ou use os e-mails: pereira@elogica.com.br ou pereira.gj@gmail.com