Quando a manhã ia chegando, encobrindo as trevas, era o Dia de Finados que se anunciava e eu não perdi tempo: “Tinha uma promessa a pagar no cemitério!”. Inventei isso, porque precisava de uma saída honrosa para me retirar, mas a turma – hoje seria galera – não me deixou comparecer sozinho ao campo santo e toda gente se levantou atrás de mim, em verdadeiro préstito pelas ruas ainda escuras, em direção do lugar sagrado. Chegamos lá todos juntos e o velho portão de ferro ainda estava fechado, mas eu que me encontrava prestes a pagar uma promessa, cujos detalhes não tinha de cabeça, inventei para o porteiro a minha necessidade de entrar urgentemente, em função de graça alcançada. O homem abriu a exceção e nós perambulamos entre as alamedas que amanheciam com o dia, até que ficasse paga a dívida com os céus.
O nosso Zé Umbigo de Banana Oca fez pior, preparou o casório, não chamou ninguém para a cerimônia e muito menos para a despedida de solteiro, a qual, como imagino, sequer sucedeu. O padre marcara a união para as 18 horas, rigorosamente, chovesse ou fizesse sol. Sucede que às 14 horas decidiu-se por me consultar – eu já estava no final do curso médico –, razão para interromper a minha sesta, o que mais prezo na vida. Desci de meu poleiro, pois que dormia em cama de beliche e ouvi a sua dúvida: “Como proceder com a noiva durante a lua de mel?”. E justificava a indagação com a explicação de que consultava um amigo quase formado já. Ora, eu não sabia de nada dessas coisas, era solteiro e naqueles anos não se podia ter experiência de coisíssima nenhuma. Recomendei que mantivesse a calma e não fosse com muita sede ao pote. A verdade é que parece ter dado certo, pois foi logo pai de duas filhas bem afeiçoadas.Desejando comentar use o espaço mesmo do Blog ou escreva para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com O meu livro - Histórias Pitorescas de um Reitor - está à venda na Livraria Cultura, na Livraria Saraiva e nas lojas da Imperatriz.



