


Sobre viagem, aliás, digo que logo depois de formado, médico de anel no dedo, fui fazer um curso em São Paulo, no conhecido Instituto de Medicina Tropical, sob os auspícios de um brasileiro ilustre: Prof. Carlos da Silva Lacaz. Pois bem, atravessando o rio São Francisco de balsa, como se fazia outrora, vi uma jovem senhora desmaiar. O marido, muito solícito, sentou a companheira no piso da embarcação e começou a abaná-la. Eu, de minha parte, no fiel cumprimento do juramento de Hipócrates, me apresentei e lembrei que deveria deitar a mulher, como forma de fazer o sangue voltar a irrigar, devidamente, o cérebro. E a resposta veio rápida: “Muito bem! O senhor é médico! Mas, foi chamado para tomar alguma providencia?”. E nunca mais me meti, sem que para tanto fosse convocado.

Mas, convocado mesmo eu fui por um comandante de outra aeronave, em trajeto para São Paulo, quando levava meu sogro para uma cirurgia na Beneficência Portuguesa, onde operava o cirurgião maior do coração brasileiro: Jesus Zerbini. De repente, o rádio de bordo: “Atenção: se há algum médico presente, por favor, dirija-se à cabine de comando!”. Olhei para trás e olhei para frente, ninguém, não tive dúvidas: era comigo. E compareci ao cubículo em que ficam os operadores de vôo: o piloto e o co-piloto, além do mecânico de bordo à época. Ouvi, então, o problema: havia um homem passando mal e cabia tomar uma providência. Era um senhor conhecido na República, baixinho, entroncado, que além de vomitar muito, estava desfalecido, sem forças e com fortes dores no peito.

Eu tinha aprendido com o meu chefe – Ruy João Marques – a auscultar com o ouvido desarmado, isto é, sem o estetoscópio. O coração pulsava vagaroso, era um sinal evidente de enfarte do miocárdio, em função do grande esforço que fazia o doente. Não havia medicação, senão um comprimido sublingual que me conseguiu um padre. O paciente, infelizmente, faleceu e o cura aéreo me pediu licença para o derradeiro sacramento. Disse-lhe que disso não cuidava e ele, com a autorização de esposa aflita, fez lá uma mugangas e considerou salva aquela alma. Ao final, uma senhora muito gorda, sentada ao meu lado, disse que era advogada e como se tratava de uma autoridade, punha-se à minha disposição. Desembarquei meio assustado, com o padre me enlaçando o ombro e dizendo: “Que trabalho, doutor!” E eu: “Menos para o senhor, que com os seus trejeitos pôde cumprir o dever canônico!”.
Essas minhas viagens!
(*) - Crônica escrita numa manhã de junho - 3 de junho -, mal o dia amanhecia, em Fortaleza, na sala da casa de minha filha Patrícia. Vejo ela por 4 dias, se pouco, e apresento três trabalhos no Congresso da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames). Um sobre a Comadre Fulozinha, outra a respeito da Alamõa de Fernando de Noronha e mais um a propósito da Emparedada da Rua Nova-Verdade ou Ficção?