
Quando o dia amanhecia ouvia-se de todo lado o repicar seguido dos sinos da cidade, um aqui e outro ali, alhures também, chamando os fiéis, que às vezes eram mais do que infiéis, para as missas. De casa, um périplo saia às ruas! Os meninos e as meninas à frente para serem vistos pelos pais mais atrás e finalmente, naquele séqüito que antecedia a liturgia e o rito, a avó e as tias, lentamente, como andam, ainda hoje, os velhos bem velhos. Na igreja era preciso ocupar mais de um banco para caber tanta gente! Os filhos, todavia, ficavam sob o rigoroso cuidado do pai e da mãe, metade para cada um, com o objetivo de aprenderem adequadamente o comportamento durante o ato da canônica liturgia. Nas passagens de maior significado a constelação familiar se ajoelhava, menos a avó e a tia velha, dispensadas pelo monsenhor, Camareiro Papal como era, do sacrifício dessa posição respeitosa. E cada qual portava um livro de orações, mais ou menos volumoso, a depender da idade. Todos, porém, traziam o terço, mas poucos os que se ocupavam com os mistérios: uns gozosos e outros dolorosos. Eu não gostava da forma como se classificavam os mistérios – os gozosos especialmente – achava sujo chamar assim. Não sabia as razoes da sujeira, entretanto!
O resto da manhã de domingo era preenchido quase sempre por um filme, no São Luiz ou no Moderno, a cuja sessão, mesmo que matinal, obrigava-se o paletó e a gravata. E não era muito raro pedir a um amigo emprestada uma peça assim de roupa, para compor a indumentária ou jogar do primeiro andar do cinema o paletó surrado para integrar outra vestimenta, enganando o porteiro. Dramas de amor encheram as telas e molharam a face de muita gente, deixando gravadas as letras chorosas das perdas irreparáveis: “Por que não paras relógio/Não me faças padecer...”. É possível que alguns introjetassem essas rupturas, antecipando os danos do amor que a vida muitas vezes reserva! Nas poltronas da platéia, invariavelmente, os casais enamorados trocavam juras e faziam promessas nunca vãs, roubavam os primeiros ósculos e ensaiavam os afetos dos inícios, de cujos começos emergiram amores perpetuados ainda.
Quando a tarde amornava o dia, expondo as árvores em grandes sombras, instalava-se a pelada ou o rasga, como se chamava esse tempo da bola. Juntavam-se os meninos todos da redondeza e um deles, o dono da bola, de borracha ou de couro, era invariavelmente escalado. Uns jogavam muito bem e outros muito mal. De todos, ninguém deu pra gente, isto é nenhum seguiu a carreira do futebol e na escalada da vida tiveram que trabalhar duro, amealhando centavos. Quem atrasado chegasse virava juiz e com o apito expunha à galhofa a mãe e a outros ancestrais assemelhados. A rua, inicialmente de terra batida, recebeu a modernidade que o asfalto trás e muito samboque de dedo foi arrancado nos chutes a gol, os quais se bem sucedidos valiam as feridas e as dores. Isso tudo a vizinhança renegava, porque a bola varava os ares e ia cair nos quintais alheios, provocando a ira da gente local e as lições de moral se sucediam, das casas que ficavam às margens do improvisado campo, sem grama e sem barra que fosse!
À noite, o cinema do padre! Mas isso é outra história! E outros quinhentos cruzeiros.
Uma crônica escrita há muitos anos atrás, no tempo do cruzeiro e nos dias de inflação. Um texto que lembra um domingo em meados do século XX, com um ritual de dia santificado completamente diferente de agora e com uma liturgia obrigatoria, sempre, aos sofridos penitentes de então, inquietos com a possibilidade, mínima que fosse, do pecado. E do pecado contra a carne ou a favor da carne, porque nada pode ser mais fraca. Comente também para pereira@elogica.com.br
E os meus domingos de infância se foram, encantados pra trás na esteira dos anos. Quase todos se transferiram desse mundo de Deus e dos homens e terminaram na dimensão do eterno. Que pena! Comente também para pereira@elogica.com.br