
Uma via-crúcis de quase de cinco anos, em lento e
progressivo padecer, tudo sob a vigilância da filha, Fátima de prenome, que deu
grande parte da vida pelo bem estar da mãe. Dias e dias nesse sofrer, sem ganho,
porque a condenação à imobilidade chegou logo e ela foi se entregando. Uma
professora que fez a opção doméstica, que criou seis filhos e acompanhou o
marido dia após dia em sua doença, sem reclamar. Mulher saudável, sem doença,
senão uma demência senil que a condenou, no fim da existência, a viver sem
saber exatamente as razões.
Uma lágrima que rolou pela face em certa ocasião, foi vista
por mim como uma forma de expressar a sua satisfação com a minha presença. Ou o
fechar e abrir dos olhos, significando que estava sabendo de minha chegada. Formas,
talvez, de se enganar, diante do inexorável das coisas. No derradeiro dia,
chamado para a despedida, beijei-lhe a têmpora, mas o gelo da morte mostrou que
estava decretado o fim. Ainda pude agradecer as noites mal dormidas, os dias
devotados a mim e os momentos em que me acolheu em seus braços. Agradecer,
sobretudo, os esforços para que estudasse, tivesse uma profissão e vencesse.
Ninguém vence sem ter uma mãe na retaguarda.
Eu fui um menino difícil, levado da breca, dizia a minha avó.
Complicado para aprender matemática, a conta de dividir principalmente. E ela sempre
muito paciente suportou tudo, inclusive as vezes em que subia no
muro e me
arriscava a cair. Pedia que descesse dali e o fazia com uma calma tão grande
que sensibilizava. Foi a mais devotada de todas as mães, a mais dedicada e se
hoje sou alguma coisa, escrevo e sou lido, devo a ela.
(*) - Texto publicado hoje, 14 de setembro de 2013, no Jornal do Commercio, do Recife, ainda a propósito do encantamento de minha mãe para o infinito das coisas. O leitor que desejar comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para o e-mail pereira.gj@gmail.com
(*) - Texto publicado hoje, 14 de setembro de 2013, no Jornal do Commercio, do Recife, ainda a propósito do encantamento de minha mãe para o infinito das coisas. O leitor que desejar comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para o e-mail pereira.gj@gmail.com