
Eu vou trocar os nomes dos meus protagonistas de hoje, porque seguro morreu de velho, diz minha mãe. Um desses, amigo meu, quase um filho por adoção secundária, com a permissão do pai, vou nomeá-lo como Jonas e a penitente que aparece como personagem, também, nunca secundária, porque objeto de um e-mail endereçado de forma errada, fica considerada aqui, pra todos os efeitos, como sendo Jane. Note o leitor a coincidência das iniciais (“J”), como forma de justificar o meu engano quando escrevi a mensagem da qual hei de me ocupar. O lugar em que morava – Talvez ainda more! – de língua portuguesa, vai trocado, de igual forma, pois a figurante é casada e o marido é brabo, ao que parece. Reside em Timor Leste.

Sucede que o nosso Jonas fazia uma pós-graduação em Londres e se mantinha em contacto permanente comigo. Não sei porque cargas d’água o seu endereço eletrônico eras empre digitado por mim, quando poderia contar com esses dados na lista de destinatários. Escrevi, então, um e-mail no qual abordava a questão da AIDS no Brasil e em Pernambuco, me estendia em considerações epidemiológicas e tratava dos métodos que iam aparecendo para diagnóstico. Fazia referência a um ou outro caso no Recife e sobretudo ao desfecho desses pacientes; desfecho nem sempre satisfatório. Tratava, também, dos traumas da equipe de saúde em acompanhar doentes que morriam, sempre, deixando a todos deprimidos.

Eis que recebo uma resposta estranha. Era Jane, uma portuguesa, morando em Timor Leste que recebera a minha mensagem e cuidara em contestar com frases ambíguas, ora atenciosas e ora rudes. Mais ou menos assim: “Sou portuguesa e resido em Timor Leste. Não tenho nada a ver com AIDS; aliás, não gosto de AIDS e não me interessam os doentes ou os médicos brasileiros! Não posso compreender as razões de sua correspondência virtual.”. Respondi com a atenção habitual dos erros nacionais, assim: “Lamento a falha! A máquina não erra, o homem se engana! Troquei uma letra no endereçamento. Mas, de toda forma, sou brasileiro, resido no Recife, Nordeste do País, na cidade do Recife, da qual aproveito e mando algumas fotos.”.

Fui delicado e considerei o assunto encerrado, mas, qual nada,como dizia uma tia minha, novo e-mail chegou assinado por Jane: “É! Gostei de sua resposta! Escreva-me! Fale-me de sua cidade e de sua família!”. Me animei e outra mensagem foi encaminhada. Dessa vez fazendo alusão a uma exposição na Universidade de objetos de arte do Timor Leste, cujo material descrevia em detalhes. Como tinha assinado um convênio com o País, tratei do tema, em particular, e cuidei em enviar mais algumas tomadas do Recife. Uma dessas fotografias, ao que me lembro, levava o Galo da Madrugada rompendo as ruas da metrópole e na ponte a figura do galináceo imponente, admirando o cortejo e comandando a folia.

Mandei todo o material para o Timor e quando recebi a resposta, a decepção presidiu o sentimento. Jane disse: “Sou uma advogada portuguesa, casada, com três filhos. Moro no Timor Leste. Não me escreva mais!”. Puxa vida! Será que o marido viu a correspondência e proibiu os e-mails? É bem capaz! E nada mais se passou entre o Recife e o Timor!
Eis o desencontro eletrônico!