domingo, 31 de julho de 2011

A Fala do Trono

Voltei de minha rápida saída do Recife. Fui ao Rio de Janeiro, conforme comentei, para tomar um banho de civilização, disse amigo meu. Cheguei, como sempre, deslumbrado com o que vi e, sobretudo, com o que revi, porque o fiz com outros olhos. Com olhos agora mais maduros, capazes de enxergarem um outro lado das coisas, a face diferente daquela que mostram os museus e os memoriais da vida. Cada um dos seres humanos retratados nas peças expostas, têm um história no existir terreno. Não foram simples criaturas, mas tiveram os mesmos desejos, as mesmas vontades que o comum dos homens. Se ocuparam com os mesmos problemas que nós outros, embora tivessem outros envolvimentos mais sérios e mais graves. Foram patrulhados pela sociedade da forma mais rude, em busca dos deslizes e das posturas políticas insuficientes. Enfim, voltei satisfeito e feliz!

Estive novamente – já foi a terceira vez – no Museu Imperial, na cidade serrana de Petrópolis. Revi tudo, desde os jardins, nos quais um fugitivo esquilo subia apressado o tronco de uma palmeira imperial; um esquilo do mato, preto e quase diria rabugento. As esculturas da entrada ainda por lá, como a de Pedro II, junto à qual tirei uma fotografia. As dependências da casa, onde funcionou, certamente, a cozinha e onde estavam as acomodações dos escravos e de outros empregados, guardam uma coleção significativa de carruagens e coches. Lembrei de meu pai, com quem estive por lá, mas não lembrei de forma alguma a sua reação, frente a esses veículos que tanto apreciava.

Depois, na casa, propriamente, do Imperador e de sua família, as diversas salas; salas que foram, na verdade, do Palácio São Cristovão, em grande maioria. Mas ali, no Palácio de verão, Pedro II viveu os melhores anos de sua vida. Destaca-se o quadro de Pedro Américo de Figueiredo e Melo, “A fala do trono”, isto é uma tela retratando as duas únicas vezes em que o monarca usava as vestes majestáticas, nas quais havia uma peça forjada com penas de tucano, quase uma gola, a adornar as vestimentas imperiais. A Coroa também, com cerca de 2kg, belíssima, com 639 brilhantes e 77 pérolas. Beleza de nossa ourivesaria! O cetro da mesma forma integrava a pompa do traje, obra, igualmente, de nossos artífices e ouro de nossas terras. Mas, o trono também, ornado com um forro de veludo verde e as letras P II, isto é, Pedro Segundo Imperador do Brasil.

Depois, o Museu Histórico Nacional, na cidade do Rio, propriamente, riquíssimo em peças do Império e até da República, um passeio pelo passado que não vimos e o aportar num pretérito do qual fomos testemunhas. Uma beleza, pode crer o leitor. Peças de um valor inestimável! Roupas da corte, por exemplo, ao tempo dos grandes bailes e vestimentas daquele pessoal da nobreza. A carta com a qual D. João VI se despede do filho e diz: “Pedro, se o Brasil se separa, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros". Só que o Imperador ficou no País ainda muito jovem e não teve como se educar. Tornou-se uma figura muito precipitada, de arroubos, sem conhecer os limites que tinha. Assim, fechou um teatro, porque sua amante, a Marquesa de Santos foi barrada. Incrível!

Finalmente o Catete e seu esplendor. Beleza de construção, dando pra rua, como desejava a Baronesa de Nova Friburgo, cujo Barão foi o responsável pela construção do prédio. Antes de entrar naquele espaço tão importante para a República, os jardins enormes e cheirosos. Um aroma de violetas no ar! Depois a suntuosidade, a grande escadaria em ferro fundido mandada vir da Inglaterra, com vitrais extraordinários e esculturas que adornavam o entorno dessa entrada triunfal. As salas, o mobiliário, a cama em que dormiu para a eternidade o velho Getúlio, no terceiro pavimento. Um quarto simples, mas arrumado guardando esse momento derradeiro.

(*) - A crônica da volta de uma viagem de reciclagem cultural. A visão de um passado que não foi, propriamente, vivido e de um pretérito visto e vivido, agora revivido. Queira o leitor comentar no espaço mesmo do Blog ou para os e-mails pereira@elogica.com.br e pereira.gj@gmail.com

domingo, 3 de julho de 2011

Os rios e as pontes.

Eu vi muitas vezes gente pescando nas pontes do Recife. Alguns de meus amigos da rua iam até à ponte Limoeiro e se muniam de um jereré, no qual arrastavam crustáceos e pequenos peixes. Mas, a ponte era a primitiva, a do trem, diziam que ali passava a composição férrea vinda de Limoeiro, a qual já não existia e no pontilhão uma sequência de tábuas justapostas garantia a passagem dos pedestres. Eu ia muito raramente, porque a minha mãe cuidava em proibir, com medo do que poderia acontecer. Um de meus amigos - lembro bem disso - costumava pular da ponte e tomar um banho de rio pra ninguém botar defeito.
Antes da curva do rio, ali onde hoje estão os hospitais Hope e Esperança, Zé Pequeno, servente do velho Hospital Pedro II, pegava camorim na preamar. Usava isca viva, como é comum e recolhia diversas espécimes do peixe de primeira. Eu tinha muito vontade de ir, mas eu era médico na enfermaria que Pequeno trabalhava e não podia acompanhá-lo nesse mister de seu lazer. Muitos anos depois, em Pau Amarelo, entrei mar a dentro com o caniço e o samburá. Pescava somente coró, um bicho vagabundo, mas vez ou outra fisgava uma ciobinha e era uma festa frita com uma cerveja bem gelada.
Eu não sou velho, já disse de outra vez, mas lembro muito bem das barcaças ancoradas diante do antigo Grande Hotel. Não tenho certeza do nome, mas vem a lembrança que era o Cais de Santa Rita, onde ancoravam embarcações vindas do interior do Estado trazendo açúcar para o porto. Era o tempo da hidrovia! Nesses anos a ponte do Pina era especialíssima, porque permitia a passagem de um carro, apenas, sendo de um inspetor de veículos quem modulava o tráfego. Não sei como era à noite! Era costume de minha avó materna, Laurinda de prenome, ir aos domingos passear em Boa Viagem e não perdia isso de forma alguma. Foi lá que vi pela vez primeira o mar, levado pelas mãos do meu avô materno. Coisa boa ter avô!
Já havia poluição, mas não era tanta, como hoje! Certa vez meu pai foi convidado para um passeio de lancha e o ponto combinado para se ter acesso ao barco era diante da Assembleia Legislativa. Lembro-me bem do embarque, embora não recorde da viagem e depois do desembarque. O diabo é que o meu pai já se encantou no infinito das coisas e a minha mãe está em estado, quase se pode dizer, vegetativo. É isso! É a vida! Era ali, naquele mesmo cais da Aurora, que eu ia aos sábados com meu pai assistir o rio ninando o Recife, para repetir Mauro Mota nesse ano de seu centenário. E o meu barquinho de papel ganhava as águas para chegar, como eu pensava, ao oceano enorme. Ali, dizia Bandeira, era onde se ia pescar escondido.
(*) - A crônica lembra o rio e as pescarias de outrora. As pontes também. A crônica é publicada também no Jorna A Besta Fubana.