sábado, 20 de outubro de 2007

Invenção da Mãe do Cão



Quando eu era menino, adolescente ou rapaz, as comunicações eram um horror. Lembro que aí pelo final da década de 50, o meu pai precisou falar com uma irmã em Minas Gerais e tendo ligado para a companhia telefônica, aguardou mais de 8 horas para que se completasse a conexão. Pior do que isso era o contato com o então distante bairro de Boa Viagem, o qual só se dava com a interferência da funcionária. Parecia outro país, tal a lentidão das coisas e tal a dificuldade que se impunha. Os entendimentos pessoais, até aqueles na mesma cidade, eram realizados às custas de cartas que os correios entregavam com muito mais vagar que nos dias de hoje. E a vida ia sendo levada assim, com toda a folga do mundo, porque ninguém conhecia forma diferente.

Agora não, vive-se num extraordinário corre-corre, numa danação incrível, num vai-e-vem sem par em toda a história da humanidade. Não se espera mais por nada, sequer pelo elevador do prédio, que precisa descer do último andar para chegar ao térreo e carregar o penitente na cabine. Os contatos ficaram facílimos e estão se fazendo a custos mais e mais reduzidos. Inventaram o fax e o papel se transmite para o outro lado do planeta com uma facilidade que não se poderia imaginar. Desprezaram o telex e quase não se usa mais o velho telegrama, senão para os cumprimentos efusivos de aniversário ou de casamento ou ainda para os sentimentos, nem sempre sofridos, da perda parental. Nesse mexe-mexe ou nesse bole-bole em que se exercita o existir humano, não há brecha para nada. O mundo voa, verdadeiramente, nas asas do tempo.

O e-mail revolucionou a comunicação pessoal e até institucional. A informação passa por cabos e vai aos ares, viaja no éter, é impulsionada pelos satélites e chega ao destinatário sem mais delongas, num passe de mágica. Basta indagar ao telefone: “Chegou?”. E a resposta vem pronta: “Chegou!” Nem palavra se gasta mais. Não se fia mais conversa! É impossível parar numa roda qualquer, na esquina ou na farmácia, na venda ou na padaria, às vezes no parque, para um palavreado qualquer, como se fazia outrora. A novela das oito reúne a família em torno dos mexericos de ricos e famosos, transferindo à gente simples desejos da burguesia ou interesses da classe média. Uma roupa de marca ou um sapato tênis bem acabado, accessível aos personagens, mas distantes da fantasia dos excluídos. E haja violência. Até o ladrão de galinhas, que perturbava o sono no terreiro, desapareceu do cotidiano. A época é outra! Tudo mudou!

Foi a Internet que transformou tudo isso, que promoveu essa metamorfose toda, que criou a prontidão na informação. Nas páginas da grande rede pode-se ter acesso a livros inteiros, músicas e filmes. Exemplo disso está no portal do Ministério da Educação: www.dominiopúblico.gov.br. Ou prova disso está em outros destinos eletrônicos que divulgam as ciências, a cultura e as artes. Hoje em dia posso ler revistas científicas que antes sequer podia ver, tal a raridade e tal os preços de capa. Bibliotecas inteiras foram digitalizadas e assim disponibilizadas. Antigas revistas que circulavam a cada semana, como foi o caso de O Cruzeiro, sofreram a benfazeja graça do formato digital e é possível, novamente, ler as matérias de grandes jornalistas brasileiros. Millôr Fernandes, Péricles, Rachel de Queiroz, e David Nasser estão accessíveis em http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/.

O progresso mais recente, já popularizado, é o do contato telefônico pelo computador, a partir de programas distintos. Dessa forma, tenho falado, quase que diariamente, com minhas filhas. Uma em Madrid e outra em Fortaleza. No passado isso seria, simplesmente, inviável. O custo para a Espanha - pasme o leitor - é bem menor que aquele do Ceará: 0,021 e 0,054 dólares respectivamente. Coisas que não se pode entender. Mas, um extraordinário avanço nas comunicações, surpreendendo inclusive o número de pessoas que podem usar ao mesmo tempo o sistema: acima de 5 milhões no mundo sempre. Fosse vivo o meu pai, não perderia a ocasião e diria: “Invenção da mãe do cão!”. Só sendo mesmo!
Crônica publicada em 15 de outubro de 2007, na página Opinião do Jornal do Commercio do Recife
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