sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Uma Atualização das Lembranças

É hoje, neste primeiro dia do ano, que o poema de Carlos Drummond de Andrade encontra melhor guarida: “E agora, José?/A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora José?/ e agora, você?”. Eis que amanheceu 2008 e já vai mudando as feições da gente de casa, a minha sobretudo. É que o sonho, realmente, passou. É hora de acordar e enfrentar a dura realidade das coisas. A fantasia feneceu e o véu das ilusões caiu. Um mês inteirinho de animados convívios com as duas filhas, uma de Espanha e outra do Ceará, trouxeram de volta o rebuliço de casa, a algazarra e a conversa fiada por horas seguidas. Duas longe daqui e uma por cá. Três filhas bem criadas e bem encaminhadas. Lembranças de infância – as delas agora – povoaram os diálogos de todos os dias e de quase todas as horas. Que beleza!

Um passeio aqui e outro ali, uma volta no centro da cidade, como resgate do que faziam nos tempos de menina e um jantar, um sushi bem cuidado, para matar a saudade de quem estando na Europa não tem acesso fácil às comidas orientais e uma picanha ao ponto, para lembrar a carne brasileira ou a carne argentina comida aqui em terras nacionais. As visitas às avós para a entrega de presentes e o ver ou o rever parental. Mais um ano há de se passar com ambas distantes, bem distantes, doze meses de conexões interrompidas e de falas partidas no computador doméstico, de explicações não compreendidas inteiramente. Um período todo de separação outra vez. Mas, assim é preciso, como sucede com os pássaros dos céus, que assistem os filhotes voarem, definitivamente, dos ninhos.

Outros ninhos estão sendo construídos, com toda a certeza, para que o ciclo da vida se perpetue. A globalização que chegou vai mesclando as famílias de um e de outro lado do globo. Gente espanhola de boa cepa, integrada agora a brasileiros quase ibéricos também, pois que descendentes dos irmãos portugueses, vizinhos e dantes incluídos sob o domínio hispânico. Um Brasil de Portugal e de Espanha ou de Espanha e de Portugal. E mais uma vez novos filhos vão se criar e na hora certa voarem com destinos diferentes. Ninguém imagina o que será de um filho aos dez anos de idade, já disse isso mil vezes e já contei que aprendi a refletir com essa frase a partir de um filme que vi numa viagem internacional, vindo da França para o Brasil, de Orly aos Guararapes.

Na contabilidade da balança o saldo é, fortemente, positivo para os quilogramas a mais. Restrinja-se a carne gorda e suspenda-se o consumo da galinha a cabidela, sobretudo aquelas de capoeira. Lá vai a guerra da fome começar. Nada de pão e nada de queijo amarelo, o doce de goiaba em barra nem pensar e o que vem em calda e aceita o creme de leite como complemento, pior. Quem é de um tempo diferente, da saúde e da gordura, estranha esses dias de agora, da magreza e dos cambitos finos andando pela rua. Outrora a mulher – e o homem também – contava sempre com uma reserva adiposa que lhe dava charme e beleza. Na minha rua – já disse por aqui – faziam sucesso as albacoras, mulheres enormes e ao mesmo tempo irmãs, que não passavam sem um assovio: “fiu fiu!”. E o meu pai quando chegou aos 100 quilos, costumava receber os cumprimentos por onde passava. Que coisa!

E o ano há de novamente rodar, mês por mês, até repetir o Natal e o Ano Novo, porque o tempo não pára. Vem por ai o Carnaval e com o reinado de Momo a fanfarra, depois a Semana Santa e o São João, o São Pedro foi cassado do calendário e das festas. A Semana da Pátria quase ninguém liga, senão para curtir a folga e em seguida um feriado a mais, o da Padroeira. Feriado e mais feriado: vem por ai o 6 de março.

O avião fez carreira na pista, levantou vôo e tomou o rumo do Norte. Levou uma das filhas a bordo. Depois segue a outra, do Recife a Lisboa e de lá até Madrid. Deus as proteja nessa vida. A enormidade do Boeing rompendo os ares do mundo leva as minhas saudades de agora, as minhas atualizadas lembranças.

(*) – Crônica escrita no dia 1º de janeiro de 2008, depois das festas e depois que o Ano Novo passou, deixando saudades e abandonando os convívios com as filhas distantes. Uma em Madrid e outra no Ceará. A terceira ainda por casa, para satisfação dos pais e uma alegria a mais com a sua jovialidade.

3 comentários:

  1. Gera: sou suspeita para tecer comentários sobre seus blogs. Você sabe o quanto admiro a sua forma de exprimir seus sentimentos, por virem repletos de afeto, de um amor nem sempre tão explicito, mas imp´licito nas sentenças tão bem elaboradas. Participei de todos os momentos desse msagnífico convívio com nossas filhase partilho das saudades que ficam com suas partidas. Mas, o alçar vôo delas que você relatou teve com certeza o esteio do amor que lhes demos porque sempre foi presente a importância de deixar prevalecer seus desejos e tal qual as aves ficam apenas de longe observando e tendo a certeza de que cumprimos nossa missão de pais conscientes, sem aprisioná-las a laços afetivos infantilizantes.
    Zaina

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  2. Ser avó - avô - é uma maravilhosa experiência - puro amor, puro renascer. Pois que sou avó tão recente, minha primeira e até então, única neta ainda tem 5 meses de pura alegria. Foi um momento inesquecível ver a filha que nasceu de mim gerando sua própria filha, uma coisinha tão linda e tão frágil, mas capaz de tomar para si todas as nossas emoções. Parabéns e seja avô 24 horas por dia pois vale a pena.
    Luciana

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