sexta-feira, 14 de março de 2008

Contrastes do Cotidiano

Acomodado ali, numa sala de espera de um laboratório de análises, aguardando a vez, como tantos outros, nunca pensei testemunhar diálogos que me permitissem ensaiar reflexões quase sociológicas, a propósito do difícil exercício da vida, quando a idade vai marcando o tempo com a prata dos anos. A senhora, na casa dos oitenta, era a cliente aprazada, imagino, fazendo-se acompanhar da filha e de mais um filho, além de uma neta muito jovem, ainda. Conversavam a respeito dos incômodos provocados por ela, pela mulher de idade avançada, de corpo vergando à força das décadas e de bengala à mão. Desfiavam um rosário de queixas, desde o sono precoce no cair da tarde à insônia das madrugadas, sem falar nas impossibilidades fisiológicas de retenção das excreções orgânicas. Falavam como se estivessem imunes à senectude!

A moça era a mais loquaz! Morava com a avó e por isso vinha presenciando cenas com as quais não concordava; não concordava em vê-la sedentária, na sala do apartamento, entregue à artrose, enquanto o avô, todos os dias, descia e fiava boa conversa com o porteiro do prédio. Que fosse, também, àquele passeio matinal, entre o andar de cima e o térreo e ouvisse do empregado as suas histórias, mazelas de uma outra vida! E não podia se conformar, também, com o cochilo vespertino, transformado em sono profundo até, com roncos e outros ruídos, à boquinha da noite. Por isso, às quatro já estava de pé, andando pra lá e pra cá, insone. É que ao despertar daqueles inícios oníricos na varanda de casa, não cuidava em sair correndo pra cama, como desejava a nunca cuidadosa neta, mas tomava banho e lanchava. Assim, perdia o sono e os sonhos!

A filha, mais cautelosa, pouco dizia, mesmo que não reagisse. O filho, entretanto, malhava a mãe com todas as culpas. Não se cuidava! Deveria tomar três remédios distintos para a hipertensão de que era portadora, mas esquecia. Tomava dois ou tomava um! Nada tomava, por vezes! Um absurdo, insistia! Pior quando a neta abriu a boca para falar da incontinência urinária da pobre mulher, a sujar o sofá da sala e a deixar um rastro, como se bicho fosse, antes de chegar ao banheiro. Tinha que sair atrás, com o pano de chão, a enxugar tudo e era preciso providenciar para se levar ao sol a peça em que costumava sentar-se, impregnada, como estava, pelo líquido das excreções humanas. Procedia assim porque queria, afirmava com todas as letras e com todas as sílabas, pois nada a impedia de se levantar antes das urgências orgânicas. Fosse mais cuidadosa, portanto!

A avó, que cumpriu, como se imagina, uma trajetória longa, palmilhada de sacrifícios e preenchida por doações que só as mães podem oferecer, nada respondia e nada comentava, ouvia tudo com uma fisionomia de profunda tristeza. Em que estaria pensando? Que reflexão fazia ali, naquele momento de tantas reclamações e de tantas queixas? Quase me aproximo e intercedo em favor da mulher idosa. Ou quase chego perto e verbalizo o futuro que está reservado a toda gente, de uma forma ou de outra. Por que se ocupavam de comentários assim, tão vazios de conteúdo existencial? Que benefício poderia ter fiando conversa com o porteiro? O homem do prédio teria o que lhe acrescentar à vida vivida? E o sono? Não sabem que é da idade, mesmo, essa sonolência precoce e a insônia do despertar antecipado? E não conhecem a fragilidade dos esfíncteres humanos na velhice?

Lembrei-me de uma outra cena que vi, há poucos dias, num hospital público do Recife, tão diferente daquela interlocução de ocasião. No leito da emergência uma senhora, também, de cabelos brancos como as nuvens do céu, ao seu lado o marido, de idade próxima, como parecia, agradando-lhe os braços e confortando-lhe o espírito. Gente simples, penso eu, sem muito estudo e sem muita cultura, mas dotada de afetividade, de amor ao próximo, sobretudo assim, no sofrimento e na dor. Viveram juntos, por certo, anos e anos na contabilidade do tempo e talvez se despedissem, mas a palavra que os uniu e os afagos que os aproximou confortavam a derradeira hora.

Contrastes do cotidiano, apenas!

(*) Gostaria que pudesse ser uma ode ao afeto, à forma atenciosa de ser, ao espírito desarmado do próximo que se oferece em sacrifício ao semelhante sofrido. Comente no Blog ou comente para o endereço eletrônico a seguir: pereira@elogica.com.br ou ainda comente para pereira.gj@gmail.com ou não comente, leia apenas ou não leia. Faça o que quiser e bem entender.

3 comentários:

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  2. Geraldo,
    Li sua postagem logo que foi anunciada. Fiquei comovido, lembrando minha avó Sebastiana, que teve, no fim da vida, a infelicidade de sofrer dessas mazelas da velhice, parecida com a cidadã por você descrita. E de ser incompreendida por meio mundo. Minha mãe sofria, ao assisitir aquela decadencia de uma mulher forte e energica em tudo, ao tempo em que pedia a Deus um fim sem aquelas agruras. Conseguiu! Morreu sem se despedir. Nós, que ficamos por aqui, sofremos muito com a ausência e ela partiu vitoriosa, abandonando belos projetos, mala feita e passaporte na cabeceira, vaidosa e meio, acho que, sorridente. É a vida. Deus nos livre de ingratos, do tipo que voce descreveu. Paz!
    Girley Brazileiro

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