quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Solidão é Fera

Estava sentada em frente à loja de conveniência, bem vestida e bonita. De blazer à moda jurídica de ser, mas não era advogada, disse-me o rapaz que vende a cerveja das minhas preferências: a Heineken. Naquele dia, trouxera, também, uma garrafa de Marcus James, para homenagear Alfredo, que nos domínios de Aldeia cuida em recomendar o bom vinho. Entende da bebida nacional e sabe melhor das patentes chilenas, mas não resistiu à marca que lhe ofereci do fermentado líquido de uvas espanholas. Não descuidei, de forma alguma, daquela penitente. Não podia descuidar! O que fazia ali tão cedo do dia? Um sábado qualquer, antes da viagem ao meu canto, onde costumo me encantar, ouvindo a sonoridade dos pássaros, da guriatã agora, que vai se aninhando na mangueira.
Chamou-me a atenção a cena e o cenário. A personagem, mais ainda, pois que tinha tomado um desses cafés servidos em copinhos de papel reforçado, colhido, diretamente, da máquina e pitava, com um gosto inusitado, um cigarro Hollywood, sem ligar para as proibições da hora. Acompanhava, por vezes, as espirais que saiam compondo a fumaça que expelia, desenhando nos ares verdadeiras rodas ou verdadeiros aros do nada. Indaguei ao vendedor, com um jeito curioso: “Quem é a penitente?”. Ele pouco sabia ou de quase nada sabia, senão que todos os sábados ia por lá. Sentava no lugar de sempre, abria um livro e num papel branco, muito branco, escrevia o quanto podia. Às vezes, parava e olhava para o mundo, refletindo alguma coisa, para em seguida grafar na pureza virginal da página os seus pensamentos e as suas meditações.
Pedi ao atencioso rapaz que olhasse os títulos dos livros que lia. Isso poderia oferecer alguma pista nessa inesperada investigação de ocasião. Uma pensadora? Ou uma cientista social? Uma psicóloga? Afinal, por que estaria lendo em lugar assim, numa manhã tranqüila de um sábado qualquer? Um meio-feriado, quase digo! Fazia um exercício intelectual de forma diferente e estranha, exótica até. Nunca vi isso! Quando era estudante de vestibular, fui, algumas vezes, ao Parque 13 de Maio estudar, pois o bucólico lugar era, ao tempo, muito aprazível. Diferente de hoje! O rapaz conseguiu obter, senão os títulos, propriamente, mas os temas abordados pelos volumes que tinha sobre a mesa: versavam sobre os horrores do câncer. Valha-me Deus! Um desses tratava, particularmente, da questão feminina: o câncer de mama. Seria, então, uma médica? Não, não é, respondeu o meu interlocutor de momento. Talvez psicóloga, adiantou! É possível, voltei a comentar. Na dúvida, porém, decidi me aproximar um pouco, optei por uma observação mais cuidadosa. Fui como um antropólogo, cumprindo uma função de campo.
Tinha um biótipo que impressionaria Lombroso, com toda certeza, aquele estudioso do homem segundo as características físicas. Brevilínea ou Pícnica, pois sendo baixinha era tendente às formas exuberantes ou protundentes. Ou tinha a estatura mediana, como cabe ser, e estava começando a sair das medidas de corpo, mais para cheia ou para cheinha, do que mesmo para a magreza das esqueléticas modelos. A tirar pelas medidas do busto, generosos pingentes lácteos, sem que fossem fartos, não tinha sido – Deus seja louvado! – atingida pelo caranguejo maligno, certamente. As pernas eram grossas, como aquelas das bonitas e elegantes senhoras dos anos 60. Enfim, uma mulher vistosa! Casada, solteira ou viúva? Perguntaria o velho guerreiro: Chacrinha. Se vivo estivesse e por cá viesse! Casada, parece, mas divorciada, largada, como diria amigo meu, que morreu de tanto fumar. É, como diz Alceu Valença, e lembrou o atencioso vendedor: “A solidão é fera, a solidão devora./É amiga das horas prima irmã do tempo/E faz nossos relógios caminharem lentos/Causando um descompasso no meu coração/...”
Da solidão, ao que parece, poucos gostam. Os poetas, talvez, pela inspiração do isolamento e a facilidade que têm com o emergir do verso. Os artistas, também, quando esperam o estalo mágico da criação, seja o pintor, por exemplo ou o compositor, erudito ou popular. Um Beethoven ou um Chico Buarque, tanto faz, porque o talento é o mesmo. Mas, para nós, os mortais de todos os dias, melhor ser gregário, cercar-se de outros e sobretudo de outras. Uma vez, num hotel em São Paulo, a cidade dos solitários, vi uma mulher, na casa dos seus sessenta e tome força, que morava ao lado e nunca ia dormir sem a companhia de um dos garçons. Era um rodízio, disseram, cada qual no seu dia e cada qual na sua hora. Tempos depois voltei ao mesmo lugar e a vi, outra vez, estava velha e carcomida, feia – a idade é uma máquina de fabricar monstros –, mas vivia com o pianista do lugar. Trocou a meninada na flor da idade pelo maestro quase senil já, mas ficou com ele até o fim de seus dias.
De outra feita, em Belo Horizonte, uma senhora sozinha no prédio vizinho jogava paciência horas seguidas à noite, enquanto o canário belga, acordado – coitado! – com a luminosidade da sala, cantava seus maviosos acordes, encantando e engananado o gato pachorrento, que dormia na outra ponta da mesa.
Eis a crônica de uma solitária mulher diante de uma loja de conveniência qualquer.
(*) Uma história quase verídica ou um fato quase real, enfeitado pela imaginação do autor e adornado pela ficção que emerge sempre que a inspiração aparece. Depois de ler comente aqui mesmo, no Blog ou não comente. Escreva para o e-mail pessoal: pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com ou ainda não escreva e não faça nada. Bom feriado!

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