quinta-feira, 12 de junho de 2008

Uma Ligação do Purgatório

A solenidade prolongou-se além do previsto, terminando na boquinha-da-noite já e ao encerrar o Presidente fez o costumeiro convite: o coquetel. Um velho companheiro das lides acadêmicas, que fora, também, meu vizinho de rua, amigo de conversas fiadas em sábados distantes e em tardes mornas de bucólicos domingos, pediu a minha companhia. Gostaria de ouvir, novamente, entre os brindes que no alpendre estavam começando, aquela história com a minha tia velha – tia de meu pai –, um episódio de um trote telefônico, como tantos outros de minha vida. Ainda hoje me socorro do artifício, seja para descarregar o stress do cotidiano ou para solucionar um impasse qualquer. Não podia ficar, infelizmente, justifiquei, mas prometi comparecer ao jantar que há de me oferecer outro dos interlocutores do momento, afilhado de ocasião, interessado, da mesma forma, na peripécia.

Fazendo uma retrospectiva, fiz poucas e boas por telefone, incluindo o celular. Já contei algumas. Um desses episódios foi há muitos anos, em Pau Amarelo, durante o meu veraneio habitual. Havia no Janga um veterinário que atendia às cadelinhas de casa, dando-lhes o banho semanal. De posse do número mágico que permite a comunicação, disquei para o penitente escolhido e imitando uma voz espanholada, disse ser dono de um circo, ora estacionado em Goiana e enfrentando um grande drama: uma terrível diarréia do elefante. Já tinha dado 54 vidros de Kaomagma e resultado não tivera. Indicaram-me a clínica do homem, disse, e por isso me dirigia para lá e deixaria o bicho com ele. Quase enlouquece a criatura, explicando que só cuidava de gatos e de cães, de animal de grande porte nada sabia. E lugar sequer teria. Não havia jeito, insisti, chegaria por lá e deixaria o paquiderme. Assustado, o pobre fechou a clínica nesse dia.

De outra feita, sentado na varanda de casa – um apartamento é claro –, em boa companhia de um de meus genros, que agora mora no Ceará, degustando uma lagosta de Itamaracá e alguns dos camarões que me dera Moisés, o homem bíblico, que levou 40 anos para consertar meu relógio, tive uma idéia. Peguei a invenção de Grahan Bell, hoje sem a menor necessidade de fio, e abordei o vendedor de uma farmácia próxima: “Bom dia! O senhor está sabendo das novas exigências para as drogarias e outros estabelecimentos congêneres?”. O moço interessou-se em conhecer os detalhes e eu, prontamente expliquei: “É que passa a ser obrigatória a venda de caixões de defunto em farmácias!”. E a resposta foi ótima: “Essa só com o gerente!”. Mas, o líder dos empregados não chegou a atender a chamada. Depois, o estabelecimento fechou e eu fiquei cabreiro: “Será que foi por causa de mim?”. Mas, não foi não!

Tem mais umas 500 histórias, mas a razão da crônica é a minha tia velha, solteirona convicta, mesmo que viúva da Guerra do Paraguai, porque, segundo contava, teve o noivo roubado por uma bala assassina do caudilho Solano Lópes. Mas, já era de muita idade, quando peguei a extensão no quarto de minha mãe e disquei aleatoriamente, fazendo tilintar o equipamento em baixo. Atendeu e eu comerei o inusitado diálogo: “Estou ligando para senhora diretamente do purgatório!” E ela: “E já liga do purgatório?”. Estamos em fase de experiência, respondi. E de pronto expressei o que desejava: “Tem uma botija no galinheiro, um passo à esquerda do coqueiro, cave sozinha, sem que ninguém veja e tire. Se assim não for, vou penar a eternidade inteira.”. E a pobre da mulher – Valha-me Deus! – pegou a enxada e se dirigiu ao lugar. Eu não podia perder o momento e fui atrás. Ela, então, dizia: “Saia daqui menino!”. Mas, o que é titia? – perguntava. Depois eu digo, menino danado, saia daqui, me deixa em paz – foram as respostas e as explicações. Não permiti que cavasse até não poder mais. Avisei, afinal.

Ela era irmã de minha avó paterna e ambas tinham a vista muito comprometida – não se operava catarata com facilidade –, de tal forma que tendo plantado alguns mamoeiros no quintal, eu tive o azar de quebrar uma dessas mudas. Imediatamente, usei uma fita adesiva – Durex à época – para fazer a emenda e ela, já muito idosa, ia todas as manhãs ver a plantinha. E dizia: “Mas, está murchinha! Está sentindo ter sido mudada de lugar!”. E a fruteira capotou e não se teve daquela planta fruto algum. Pior Moisés, o bíblico, que tendo atirado com um bodoque e morto um canário, admoestado por ela, por minha avó, prometeu ressuscitar o pássaro cantor e trouxe de casa um similar. E a velhinha acreditou!

Nós dois, eu o bíblico, vamos terminar pagando por tudo isso nas labaredas do purgatório.
(*) Encerro o texto comunicando a todas e a todos que fui contemplado com o 1º lugar no XXII Congresso Brasileiro de Médicos Escritores, na modalidade "Crônicas". Isso saciou as minhas medidas, isto é, elevou a auto-estima aos píncaros.

(**) - Crônica que ofereço a Geraldo Bosco, fraterno companheiro de outros momentos e de outras vivências. E, naturalmente, ofereço a Moisés, o bíblico, que levou 40 anos para consertar o meu relógio de menino e conseguiu a proeza de ressuscitar o canário. À tia e à avó, com as minhas escusas: eu era feliz e não sabia! Comente aqui ou comente lá - pereira@elogica.com.br - ou não comente, não diga nada, cale-se.

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