domingo, 13 de julho de 2008

Um Carneiro Donzelo


Era um homem baixinho; baixinho e franzino, simples ou mesmo simplório. Ingênuo, melhor dizendo. Puro e sem maldades, como imagino. Trabalhava no velho Hospital Pedro II, a princípio no laboratório do serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias, que ficava no quintal do nosocômio. Ali cuidava de um tudo, da limpeza do piso e da lavagem da vidraria, vez ou outra enveredava pelo exercício, mesmo que ilegal, das chamadas análises clínicas e arriscava fazer um exame. Tinha uma peculiaridade que lhe era própria e em tudo muito natural a quem como ele tinha uma timidez de doer, sequer olhava para as pessoas. Apaixonara-se por uma médica e fizera desse amor platônico uma razão a mais de sua vida. Trabalhava com ela, a quem devotava uma dedicação ímpar, mas quem lhe pedisse alguma coisa e fosse diferente dela ou de seus assistentes, podia desistir, porque o penitente nada faria.

Manuel, certa vez, atendeu um telefonema meu e não identificou a voz. Bom! Como sempre faço e essa foi uma característica que mantive a vida inteirinha, aproveitei a ocasião para um trote, dizendo, de logo: "Sr. Manoel! É o Reitor! Gostaria de falar com o Prof. Geraldo Pereira!". Eu era um jovem médico e um auxiliar de ensino, sequer considerado, ainda, como professor. Mas, o interlocutor não teve dúvidas, respondendo prontamente: "Ainda não chegou!". Ah, disse o pretenso Reitor, ele costuma, então, chegar tarde assim. E o homem simples, mas sério, honesto e ético, me defendeu, expressando que raramente isso acontecia. Finalmente o Reitor sentenciou: "O senhor fique de pé para falar comigo!". E ele - Coitado! - justificou-se com a desculpa esfarrapada de que já se levantara da cadeira assim que tocara o telefone. Quando eu cheguei, quase tenho um troço de rir.
Uma das missões de Manoel era cuidar do carneiro. Criava-se um animal assim com a finalidade de se utilizar as células sanguíneas. Com essa parte sólida do sangue fazia-se à época – tome época nisso! – o exame para diagnóstico da sífilis. O pobre do bicho devia viver irritado, enfezado, porque todas as semanas se obrigava à colheita de material para uso do laboratório e a ração de todos os dias, o capim cortado na beira do rio por Manoel, talvez não lhe satisfizesse as exigências de reposição das perdas. Que pena! Sendo um espoliado, nunca teve o apoio ou o auxílio das associações de proteção aos animais. Viveu com uma missão especifica, a de servir ao homem e ao homem serviu a vida toda. Isso é que é um destino ingrato, viver amarrado no terreiro de um hospital, à disposição, todas as semanas, para ser sangrado e nunca se apegar a uma fêmea que fosse, uma ovelha de sua cor, branca como a neve ou mesmo um animal negro como a noite de sua sofrida solidão.
O problema é que o carneiro soltou-se numa bela manhã primaveril e como era um bicho irritado, impaciente, agitado e inconformado, passou a atacar um fusquinha estacionado adiante. Não se sabe bem as razões que teve para eleger o carro, mas a verdade é que não deixou uma parte sequer do veículo sem que fosse chifrada. Deu marrada pra todo lado, nas portas sobretudo, mas nas laterais também. O automóvel quase virou uma folha de papel amarrotada. Qualquer um pode imaginar a reação do dono, quando chegou para ir embora e viu o serviço do carneiro em seu automóvel.
Foi um "Deus nos Acuda!" e o meu chefe terminou pagando o prejuízo tirando do próprio bolso. Acertou-se, então, que Manoel - agora já Mané do Carneiro - levasse o animal para casa e cuidasse dele, gastando com a alimentação o que despendia no hospital. E assim foi! Um belo dia, chega o penitente para trabalhar, numa segunda-feira qualquer, e comunica: "O carneiro morreu!". Daí por diante foi uma pândega. Ninguém acreditava que a família não tivesse se refastelado com uma buchada no final de semana e a gozação quase leva o homem ao desespero. Chegou-se a inventar uma cirurgia que esclarecesse de uma vez se o bicho fora ou não fora vítima da fome e da ânsia da turba parental, irritada já com o indesejado ovino. E a encrenca estava numa situação que ele me procurou e falando baixinho confessou: "Dr. Geraldo! Eu não comi o carneiro. Eu não como carneiro donzelo! Faz mal!"
Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato ou de um carneiro e o Senhor Rei mandou dizer que contasse quatro.
(*) Crônica que dedico ao meu colega por anos a fio Geraldo Machado, parceiro em algumas das minhas brincadeiras com Mané do Carneiro.
(*) Venho acompanhando, rigorosamente, os acessos ao Blog. De várias cidades do Brasil há visitantes e de alguns países do mundo também. Isso me honra, como explicitei recentemente. Sendo assim, os que não recebem de hábito o e-mail de atualização e desejem a inclusão do endereçamento eletrônico em lista nova que estou desenvolvendo, favor escrever para pereira.gj@uol.com.br Grato

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