quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Uma Tia que Virou Cobra ou o Azar da Pomba

Eu penso que não sou supersticioso – apenas penso –, mas quem puxar por mim, menos que seja, há de encontrar sinais evidentes de minhas crendices, de meus presságios. O meu pai era assim, negava o medo dos agouros, mas demonstrava temor diante de seus pressentimentos. A minha avó paterna, da mesma forma, cuidava em manter as suas chinelas – era assim que chamava – na posição correta, não admitindo a possibilidade de vê-las emborcadas. Contava histórias de arrepiar, trazidas na bagagem da memória; memória de menina de engenho. Parente seu – acho que irmão – tendo estudado na Inglaterra, apaixonou-se por uma londrina bem parecida e trouxe a noiva a tiracolo. Casou-se e viu a barriga da mulher crescer, avolumando o ventre. Nasceu uma menina, mas a mãe faleceu. Um horror! Saiu de Londres e morreu no interior do Rio Grande do Norte.
O corpo da mulher foi sepultado em terras do engenho, em lugar que terminou protegido com uma cerca de ferro bem urdida, decorada com arcos e espirais. Na cidade corria o boato de que Dona Emma fora enterrada com as jóias que possuía, despertando a ambição do povo. O diabo passou a cutucar com vara fina o juízo de toda gente, tentando aqui e tentando ali. Uns sonhavam com o tesouro e outros acordavam contando o pesadelo da noite. A defunta sofria com as labaredas do purgatório. Era preciso tirar isso a limpo, pensavam todos. Na farmácia de seu Neco reuniram-se os homens valentes da cidade: 5 ou 6 dos habitantes. Combinaram dia e hora para a abordagem da tumba encantada e no dia marcado, novamente, se juntaram e partiram em direção ao local.
Fizeram a cuidadosa retirada da grade e com o auxilio de enxadas e picaretas começaram a escavacar o derradeiro repouso da mulher que viera de tão longe por amor e por amor – quem sabe? – morrera, sem que pudesse criar a filha que lhe homenageava agora com igual prenome. Foi morte de parto, como tantas outras neste mundo de Deus! Quando o trabalho já estava na metade, muita areia sendo retirada e a metralha encostada nas tralhas que encontraram, eis que uma cobra sai às carreiras e assombra a valentia de todos. Foi homem correndo pra todo lado, as pernas tremendo feito vara verde e o sangue subindo nas veias e colorindo de vermelho as faces apavoradas com o quadro. Foi o suficiente para se espalhar que Dona Emma virou cobra! E a boataria tomou conta da cidade, percorreu as casas todas e os botecos, as ruas e a praça, sendo ainda hoje um bom enredo para os velhos contadores de histórias.
E a minha avó se criou com essas coisas na cabeça. Tempo chegou em que meu pai perdera o emprego que tinha e precisava arranjar outra colocação, na dependência da vontade do Governador do Estado. E a nomeação não saia, não havia jeito, dia após dia, nada. Foi quando Dona Beatriz teve um estalo e me chamou: “Menino, é o seguinte: seu pai depende desse emprego e precisa ser nomeado. A coisa não se resolve por conta dessa pomba que você está criando. Jogue ela fora!”. A sentença soou em minha cabeça como o ruído de uma lança que me traspassava o cérebro. Logo a pombinha! Uma avoante que me deram! De nada serviram os meus argumentos de que era uma superstição, uma crença, apenas. Ela estava decidida. Hesitei uns três dias e dei a arribação. Pois no dia em que dei o pássaro, saiu a nomeação e ai não havia mais dúvidas quanto ao azar do pombo. Foi danado!
Vez ou outra lá por casa, estando um dos netos doente, ela não tinha dúvidas e convocava os serviços de Dona Mimi, de quem já falei por aqui, neste espaço virtual em que escrevo. A velha, toda vestida de preto, em luto perpétuo desde que enviuvara, há coisa de 20 anos pra trás, tomava na mão um galho de mastruz e abençoava o paciente, assistindo de camarote o ramo murchar, como murchariam todos os outros ramos do mundo se tirados da planta. Recomendava para o olhado alheio o pinhão roxo ou mesmo plantar arruda no jardim. Quando um urubu ousava posar lá por casa, atraído, que fosse, por um mal cheiro qualquer, era um desadoro para minha avó e a casa caia se o bicho continuasse bisbilhotando o terreiro.

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