sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ricardo Soares

Quando o pai morreu, informou a toda gente e promoveu as exéquias segundo os costumes. Mas, no sétimo dia ligou para comunicar a Missa fúnebre e à minha indagação de onde seria a cerimônia litúrgica, não hesitou: “Em qualquer igreja tá valendo!.”. Não quisera pagar o óbolo do ofício. Por coincidência, na mesma semana, uma voz gutural não identificada ameaçara a família com uma sentença certeira: “Olha a cheia!”. Eu fui acusado e não houve nada que o convencesse em contrário. Afinal, quem tinha fama de passar trote na enfermaria era eu e quem tem fama deita na cama, diz o ditado popular. Viajei à Europa pela vez primeira com a incumbência de identificar nos museus da Inglaterra a espada que pertencera a seu pai, um nobre ou quase nobre na Índia, injustiçado pelo governo de sua Majestade. Nem liguei para essa missão enlouquecida.

Era uma grande figura, sem dúvida alguma. Verdadeiro ator com a sua trupe no picadeiro da vida, mais do que propriamente um ser humano qualquer, como nós outros, nessa sociedade de consumo. Até porque sequer consumia mais que a conta – a conta bem contada –, pois que reconhecia a sua peculiar condição de mão-de-vaca, de sovina, de grande avarento no teatro da existência. Viajamos juntos vezes e vezes, em idas e vindas aos congressos: ele médico e eu médico, também. Gostava de me apresentar como seu assistente e aquilo me irritava, me fazia responder de forma azeda, tantas vezes: “Me apresente direito, homem de Deus!”. A correção vinha rápido: “Vai negar que é meu assistente?”. E ficava o dito pelo não dito! O ruim, mesmo, era que nos restaurantes costumava pedir abatimento e eu morria de vergonha até a morte. Pedir abatimento depois da leitura do cardápio? É demais! Ou não é?

Somítico, como era, costumava passar à distância de qualquer movimento de arrecadação de fundos, fosse o que fosse. Numa ocasião até, sendo o dia de meu aniversário, chegou junto e disse: “Que história é essa de fazer cota para um bolo? Vá comemorar o seu aniversário em casa! Isso aqui é um ambiente hospitalar!”. E eu, na perplexidade na hora, fiquei engasgado: “Bolo? Para mim?”. E o pior é que era mesmo e ele se negara a contribuir, como sempre. Foi ai, diante desse comportamento inusitado, que resolvi mandar-lhe uma carta anônima, contendo Cr$ 1,00 para ser doado como esmola, trazendo-lhe a boa nova de que enriqueceria, se cumprisse o pedido da missiva. Na hora da saída, como vinha comigo, comunicou-me o desejo de fazer uma caridade, ao que contestei: “Você? Não acredito!”. E ele explicou que precisava cumprir esse desiderato por mais algumas semanas. Foi lá fora e fez o gesto.
Era um conquistador inveterado ou gostaria muito de o ser, tal a goga ou as bravatas com que contava suas aventuras. Numa dessas até, em São Paulo, em dia de domingo, com muito frio no espinhaço, chamou uma penitente ao quarto de hotel. Fez lá o que bem desejava e ao final não esqueceu de pechinchar: “Minha senhora! Eu sou um professor universitário, pobre e mal pago, por isso gostaria de um abatimento!” Ao que respondeu: “Meu senhor! Sou estudante e pago a minha faculdade com esse dinheiro!”. Calou-se e cumpriu com o contrato que verbalmente fizera. Mas, a melhor dele foi outra. É que escreveu para uma revista masculina e deu o nome trocado: Ricardo Soares. Expôs os seus predicados – os que achava ter –, deixando o telefone do hospital para um contato qualquer. Me explicou dez vezes essa peraltice e falou de seu cognome, lembrando que se alguém ligasse procurando o misterioso senhor, o chamasse imediatamente.
Eu nunca atendia telefone, mas naquele dia o cão atentou com vara curta e eu peguei o fone, respondendo à chamada: “Alô!” E a interlocutora de ocasião: “O Sr. Ricardo Soares, por favor!”. Eu não podia me fazer de rogado e tripudiei o quanto pude com a ligação: “O Sr. Ricardo Soares? Ricardo Soares?, Ricardo Soares?...Vou ver se tem esse por aqui?”. E ele, na minha frente, aos sussurros: “Sou eu Pereira! Sou eu!”. Atendeu e acertou os detalhes com essa transitória suplicante. Era uma mulher casada de Salvador, convidava-lhe para um contacto a três: ele, a criatura e o marido. Valha-me Deus, disse, vai ver que o marido dela assiste a tudo e depois entra em cena, querendo passar o amante também. Quase fica doido com a minha assertiva e pensando melhor, desistiu.
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