sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Uma Carroça Cheia de Livros


Mestre Ariano Suassuna diz que toda cidade tem sempre um amalucado de plantão. Certa vez disse ao paraibano ilustre, pernambucano por adoção, que vinha usando a afirmativa dele em relação aos bairros do Recife. E é assim mesmo: há um desajuizado em cada esquina. Era dessa forma nos meus anos de menino e continua sendo agora, na maturidade dos meus anos. Aliás, quando eu era adolescente e depois rapaz, no viço da idade, então, existiam por lá, em minha rua, na localidade conhecida como Pombal, limites - já disse isso - da Boa Vista com Santo Amaro das Salinas, pelo menos três desses figurantes especiais e ao mesmo tempo enigmáticos: Sabará, Gata Preta e Piuí. Cada qual tem uma história a ser contada, um fato a ser relatado e uma ocorrência para o riso frouxo do leitor.
Começo por Piuí, que sendo o derradeiro da lista, talvez tenha sido o mais peralta desses todos. Tinha vindo das bandas de Palmares, conterrâneo, portanto, do Papa Berto I, Sereníssimo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Sertaneja. Quando menino, apanhara feito o cão. Costumava dizer que o pai lhe punia com: “Couro, couro, couro, couro...”. Um horror! Gritava em minha porta e pedia o café com pão do desjejum, chovesse ou fizesse sol. Com isso, sentava no jardim e ajudava à babá na alimentação de minha caçula, Carol por apelido. Ameaçava beber a mamadeira e a criança tomava o leite de um gole, quase. Gostava de circo e me fazia pagar a sua entrada ao primeiro sinal de uma lona sendo armada e um palhaço gritando pelas ruas: “Hoje tem espetáculo? Tem sim senhor!...”. Recebia o dinheiro e assistia do começo ao fim. Depois, cuidava em me contar tintim por tintim tudo o que vira.
Mas, certo dia, chega a noticia de que o nosso Piuí, muito conhecido, aliás, na Universidade Católica, tinha morrido. Fora executado, contaram, sob uma marquise qualquer da rua do Sossego – ah, lugar sem sossego! –, o que fez muita gente chorar e até Missa de 7º dia acertaram com o vigário do lugar. O artista plástico Paulo Brusky me telefonou às lágrimas, citando um artigo que publiquei no Jornal do Commercio. Foi um auê, um fusuê danado! As coisas continuaram no ritmo de todos os dias e numa ocasião qualquer, voltava do Agreste, quando me deparo com a figura na Encruzilhada de São João, onde toda gente pára e faz um lanche. Às vezes uma galinha de cabidela e outras vezes uma carne de sol bem torrada. Não me contive: “Piuí! Você não tinha morrido?” E ele, alheio às coisas do mundo: “E morre? Morre?”. Insisti: “Piuí! Você ressuscitou?” Mas, a resposta foi a mesma: “E morre! Morre!”.
De Gata Preta, confesso, sei de poucas, mas o meu fraterno amigo Moisés Diniz socorreu-me por telefone. Contou que Gata vem do tempo em que existia a Fábrica TSAP, onde lavava os carros do estacionamento. E os funcionários foram dando apoio ao penitente, até que ele entrou numa banda de Moacir. E terminou, de tanto manusear o pandeiro, quebrando o instrumento, razão para se cantar, a torto e a direito: “Gata Preta vai pagar o pandeiro de Moá!”. E o nosso felino, tão humano como era, quase enlouquece com a ameaça da galera. Moisés tem um repertório de personagens e de histórias que daria um livro e muitos e muitos Blogs. Falou de Seu Guarda, de Jacaré e Cobra d’ Água, como de outros tantos. Até lembrou que à época, havia tanta tranqüilidade, que o nosso guarda noturno era um anão, Zé Alves, funcionário uniformizado da Prefeitura, guarda municipal, então. Valha-me Deus!
De todos, Sabará era mesmo o de maior significação, pela forma como falava e pelas tiradas do dia-a-dia. Acordava muito cedo e não dispensava a lapada madrugadora. Quando chegava na esquina já passava das 9 horas e nunca deixou de cantar: “Tornei-me um ébrio/E na bebida busco esquecer/Aquela ingrata que me amou/E que me abandonou...”. Eu saia para a Faculdade pelas 13h30 e várias vezes ouvi a observação do homem: “Esse ai vai para a escola com um livro grosso na mão. Quando eu estudava, ia uma carroça de cavalo atrás de mim com os livros do dia.!”. Divulgava que sabia de tudo e de todos e à primeira pergunta, fosse de que natureza pudesse ser, largava a resposta: “No livro que eu estudei essa página caiu!”.

E por ai vai!
(*) Uma crônica de final de ano, dias antes do 8 de dezembro, aniversário de 40 anos de minha formatura, razão para oferecer aos meus colegas de turma. Mas, ofereço, também, ao Papa Berto I, Sereníssimo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Sertaneja, citado no texto. Desejando comentar, não hesite, o faça para pereira@elogica.com.br ou para pereira.gj@gmail.com Caso contrário não comente, abstenha-se de tudo e de todos.

Um comentário: