domingo, 11 de janeiro de 2009

Cardíaco e Impotente

Aos sábados, em geral, se não posso ir à Aldeia dos meus encantos, onde posso me deliciar com o verde e apreciar ainda a dança dos pássaros ou o cantar do sabiá, fico no Recife. Gosto de ir a um mercado ou vou, por necessidade doméstica, providenciar alguma coisa capaz de complementar o almoço do dia e manter a cozinha durante o mês inteirinho. Na Encruzilhada abasteço a casa do queijo de coalho bem urdido e da nata que apetece o paladar, mas faz mal à vida, ensinam os livros, condenando a gordura em geral. Ou posso me abastecer da verdura pronta para o consumo e das frutas que chegam quase frescas ainda e nos servem de antepasto na hora do café da manhã. No mercado compro a cachaça que vou enviar de presente à família Herraz, na Espanha, escolho o café de boa partida e um fubá de milho que permita à minha filha fazer o cuscuz de seus agrados, nas distâncias de Madri, além da farinha quebradinha que há de garantir a feijoada.
Lá por Aldeia, em supermercado novo e bem sortido, chego com ares de quem está em férias e solicito, de logo, um mamão podre. O rapaz das frutas acha estranho o pedido, mas compreende a explicação que antecipo: “É para alimentar a passarada de casa!”. É o que faço assim que entro em casa, abro a fruta rica em polpa e abundante em sementes e a exponho no jardim. Fico no alpendre lendo os jornais do dia e observando o movimento dos passarinhos. É o sabiá quem comanda os pousos e o faz com maestria, mas o verdelim, que seu Zezinho chama de verdelindo, não dispensa a hora e se aproxima, dividindo a fruta com os maiores. Uma vez ou outra, a guriatã se achega e o faz acompanhada sempre. Dia desses a vi juntando gravetos para o ninho, mas não encontrei a localização desse ambiente de reprodução. Muito raramente o João Moleque ou a Maria Mulata, juntos os dois, como se vivessem em eterna lua de mel.
Mas, sobre essas minhas incursões à Encruzilhada, vale aludir ao episódio de ontem. É que fui a um açougue de variedade assegurada e já estava no ato de escolher as carnes que traria, quando vejo uma senhora solicitando do vendedor um pedaço de carne de sol, exigindo, porém, que fosse macia. Disse, então: “Moço! Preciso levar um pedaço macio, porque o meu marido não tem dentes!”. Ora, quase digo, como pode quem não dispõe de um elemento dentário sequer, comer uma carne assim, dura, pelo geral? O rapaz do outro lado do balcão não teve dúvidas e virou-se para mim indagando, de pronto: “O senhor não tem dentes?”. E eu, quase à indignação, cuidei em responder: “Não, meu senhor, eu não sou o marido desta senhora!”. Não lhe mostrei os dentes porque ia repetir um gesto animal ou animalesco de expor a dentadura reagindo a um predador qualquer.
A criatura escolheu lá o seu naco de carne, macia como insistia, e passou a se reportar a mim. Ora, meu Deus do céu, porque tenho sempre que aturar conversa de mulher feia e velha? Não aparece uma jovem, bem afeiçoada e bonita, que me olhe e que me dê atenção. É que a penitente em causa, ao me ver escolher um outro pedaço da carne de sol, diferente do seu, perguntou se não seria melhor ela trocar o seu? Não sei, minha senhora, ignoro a capacidade que tem o seu marido para a mastigação com as gengivas, como me parece fazer. Tanto faz como tanto fez, o seu pedaço e ou meu, pois que sendo molinha e macia não comportam diferenças significativas. E ela levou o seu quinhão.
Fiquei lembrando na vida as vezes em que fui abordado assim, por gente a quem não conhecia. Voltou à memória um episódio, em tudo, muito interessante. Aquele de uma certa viagem a São Paulo, com vários colegas médicos e do passeio noturno à conhecida Boca do Luxo. Era um domingo e nesse dia só aqueles que estão se divertindo visitam a Boca. Nós, ao contrário, não estávamos a turismo, mas a serviço e numa hora qualquer, de folga, inventamos a incursão, veja só o leitor. Em certo momento, uma jovem – fazia exceção, então, à regra –, feia, para justificar a regra, de calcinha e sutiã me abraça por trás. Um abraço forte de quem não gostaria de me largar, senão para um momento de amor bem curtido. Foi ai que tive uma ideia e verbalizei para a suplicante em causa: “Minha filha! Me largue, porque eu sou cardíaco e impotente!”. Essa gente tida e havida como de vida fácil, mesmo que enfrentem todas as dificuldades do mundo, tem horror aos homens assim, doentes e em risco. Eu era novo, muito novo, não sofria do coração - não sofro ainda - tampouco tinha problemas com as chamadas partes mais vergonhosas, as quais, imagino, vão bem, de igual forma. Mas a desculpa valeu. E ela desapareceu, temendo o pior!
(*) - Ao leitor, que se ocupa com as minhas crônicas, confesso: sou muito grato. Há quem goste e quem não goste. Se por aqui sair alguma coisa que desagrade ou que possa parecer agressivo, encareço que me escreva e conte o desgosto. Não ignoro a desdita e de logo hei de tirar de qualquer dos textos a parte do desagrado. Leia e comente no espaço mesmo do Blog ou o faça para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com O autor agradece qualquer comentário.

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