segunda-feira, 16 de março de 2009

Desencontro Eletrônico

Eu vou trocar os nomes dos meus protagonistas de hoje, porque seguro morreu de velho, diz minha mãe. Um desses, amigo meu, quase um filho por adoção secundária, com a permissão do pai, vou nomeá-lo como Jonas e a penitente que aparece como personagem, também, nunca secundária, porque objeto de um e-mail endereçado de forma errada, fica considerada aqui, pra todos os efeitos, como sendo Jane. Note o leitor a coincidência das iniciais (“J”), como forma de justificar o meu engano quando escrevi a mensagem da qual hei de me ocupar. O lugar em que morava – Talvez ainda more! – de língua portuguesa, vai trocado, de igual forma, pois a figurante é casada e o marido é brabo, ao que parece. Reside em Timor Leste.
Sucede que o nosso Jonas fazia uma pós-graduação em Londres e se mantinha em contacto permanente comigo. Não sei porque cargas d’água o seu endereço eletrônico eras empre digitado por mim, quando poderia contar com esses dados na lista de destinatários. Escrevi, então, um e-mail no qual abordava a questão da AIDS no Brasil e em Pernambuco, me estendia em considerações epidemiológicas e tratava dos métodos que iam aparecendo para diagnóstico. Fazia referência a um ou outro caso no Recife e sobretudo ao desfecho desses pacientes; desfecho nem sempre satisfatório. Tratava, também, dos traumas da equipe de saúde em acompanhar doentes que morriam, sempre, deixando a todos deprimidos.
Eis que recebo uma resposta estranha. Era Jane, uma portuguesa, morando em Timor Leste que recebera a minha mensagem e cuidara em contestar com frases ambíguas, ora atenciosas e ora rudes. Mais ou menos assim: “Sou portuguesa e resido em Timor Leste. Não tenho nada a ver com AIDS; aliás, não gosto de AIDS e não me interessam os doentes ou os médicos brasileiros! Não posso compreender as razões de sua correspondência virtual.”. Respondi com a atenção habitual dos erros nacionais, assim: “Lamento a falha! A máquina não erra, o homem se engana! Troquei uma letra no endereçamento. Mas, de toda forma, sou brasileiro, resido no Recife, Nordeste do País, na cidade do Recife, da qual aproveito e mando algumas fotos.”.
Fui delicado e considerei o assunto encerrado, mas, qual nada,como dizia uma tia minha, novo e-mail chegou assinado por Jane: “É! Gostei de sua resposta! Escreva-me! Fale-me de sua cidade e de sua família!”. Me animei e outra mensagem foi encaminhada. Dessa vez fazendo alusão a uma exposição na Universidade de objetos de arte do Timor Leste, cujo material descrevia em detalhes. Como tinha assinado um convênio com o País, tratei do tema, em particular, e cuidei em enviar mais algumas tomadas do Recife. Uma dessas fotografias, ao que me lembro, levava o Galo da Madrugada rompendo as ruas da metrópole e na ponte a figura do galináceo imponente, admirando o cortejo e comandando a folia.
Mandei todo o material para o Timor e quando recebi a resposta, a decepção presidiu o sentimento. Jane disse: “Sou uma advogada portuguesa, casada, com três filhos. Moro no Timor Leste. Não me escreva mais!”. Puxa vida! Será que o marido viu a correspondência e proibiu os e-mails? É bem capaz! E nada mais se passou entre o Recife e o Timor!

Eis o desencontro eletrônico!
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