sexta-feira, 6 de março de 2009

Outras Peripécias de um Tio

Prima minha, filha do protagonista da crônica “Peripécias de um Tio”, depois de ler o texto e depois de ter gostado das histórias, mandou novas passagens da vida desse homem, que vez ou outra aprontava uma. E eu, na caminhada do inteiramente pitoresco, como venho cumprindo aqui, fazendo crescer o acervo de casos vistos e agora ouvidos ou lidos, em minha vida, faço o acréscimo que me permite a hora, pensando em reunir tudo em livro e deixar gravado no papel narrativas assim, curiosas sempre. Já comecei, inclusive a confiar alguns de meus artigos publicados aqui ao artista plástico José Carlos Viana, que tem o privilégio de se esconder em Suape, a cada final de semana, e se inspirar nas ondas do mar, no nascer do sol e na placidez da lua. Com isso, cada um desses registros terá um desenho, uma ilustração, como faço aqui, neste espaço virtual, materializando o enredo numa folha de papel. Viva!

Mas, o meu tio, certa vez, como sucede com todos os mortais desse mundo de Deus, teve o pneu de seu opala dourado furado – Valha-me Deus! –, quando saía do apartamento na rua Amélia, no Recife. Um cidadão bem intencionado parou o seu veículo e veio se juntar ao penitente em apuros. Não descuidou da crítica: “O senhor sabe que os seus pneus estão todos carecas?!”. O meu tio, em sua costumeira irreverência não hesitou e respondeu de pronto: “É não, senhor, eu gosto assim! Compro os pneus novos e mando raspar até tê-los carecas, todos!”. Ora o passante não estava disposto a brincadeiras e tomou a reta, deixando lá o motorista às voltas com o seu problema numa das rodas do automóvel que hoje circula em carreatas de antiguidades.

Melhor que essa foi aquele episodio na rua da Palma, ao tempo em que se podia circular no centro da cidade e ao tempo em que os escritórios, consultórios e outros locais de trabalho ficavam por lá, naquela convergência urbana de todos ou quase todos. Ele, também, tinha consultório – era dentista – por ali, no edifício Sertã, hoje condenado a funcionar somente no Carnaval, como camarote do Galo da Madrugada. Era uma sala com visão privilegiada para o lado, onde existia um hotel, talvez um estabelecimento de duas ou de três estrelas, no qual se hospedavam, de regra, viajantes a serviço de grandes empresas. Por isso, o tio nunca descuidou de repetir as furtivas olhadelas pela janela, quando por vezes enxergava uma suplicante qualquer em roupas íntimas, senão desnuda, inteiramente. E eu, de carona, também olhava, assumindo o alumbramento de que falou o poeta Manoel Bandeira, olhando no rio Capibaribe uma banhista nuinha, nuinha. Que beleza!

Enquanto aguardava uma vaga no estacionamento da já aludida rua da Palma, teve o lugar que desejava tomado por outro ocupante. Saiu de seu carro e reclamou: “O senhor não está vendo que estou aguardando a vaga?”. E o interlocutor de ocasião teve a resposta na ponta na língua: “Saiba que eu sou almirante!”. Era o tempo da rigidez autoritária dos militares. Mesmo assim, nova resposta aflorou na boca de meu tio: “E eu sou contra almirante!”. O homem não entendeu bem a informação, derramando-se em salamaleques, querendo saber onde servia e de onde viera. O esclarecimento foi breve: “Não, meu senhor! Eu, na verdade, sou contra todos os almirantes!”. A vaia comeu no centro e o intruso ou quase intruso deu marcha a ré e retirou-se do lugar, foi estacionar noutras paragens!

Barbeiragem no trânsito era uma de suas especialidades, em que pese o tempo de carteira, 30 anos, se pouco. Pois foi numa dessas ocasiões que o motorista vizinho da forma mais rude possível, disse em alto em bom som: “Aprenda a dirigir!” E ele: “Tenho três longas décadas de carta!”. Ao que ouviu: “E ainda não aprendeu?”. Mas, conversa vai e conversa vem, terminaram tomando uma cerveja juntos no bar do Luizinho, no Mercado da Madalena, sob os olhares complacentes de seu primo Vadeco. Noutra ocasião, estando ele e seu pai, meu avô materno, foram abordados por um pedinte habitual da velha rua Real da Torre. Como eram generosos, deram uma esmola boa, ouvindo do mendigo a seguinte assertiva: “Muito obrigado! Vou pedir a Deus pelos senhores!”. A resposta saiu quase em dupla: “Homem! Não peça não! O seu cartaz com Deus está tão em baixa, que você precisou nos pedir ajuda! Melhor não envolver a gente com essa vida de esmoler.”.
E por ai vai! Ainda tem o que contar e o que dizer!
(*) O autor gosta do comentário bem urdido e fica satisfeito em saber que foi lido e que serviu à reflexão do leitor. Escreva no espaço do Blog mesmo ou o faça para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com Até o final do ano, se Deus permitir, sairá o livro com essas crônicas todas e o leitor de agora poderá comparecer, prestigiando o lançamento e trazendo um exemplar para casa. Escrevi esta crônica com a cabeça desajuizada, estou com minha mãe, de 89 anos já, doente, seriamente doente, internada na UTI do Santa Joana. Peço que perdoem os meus enganos e que rezem para Dona Lila. Que o melhor para ela seja o desígnio do Criador.

6 comentários:

  1. Aguardo, com ansiedade, o livro de crônicas. E rezo pela pronta recuperação da doce Dona Lila.
    Grande abraço.

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  2. Estas crônicas, reunidas em livro, estão sendo, por nós leitores, muito esperadas.
    Quanto a esta última atualização, revela o autor todo o seu estilo,tirando das situações fáticas o seu lado pitoresco!
    Dessa forma, as crônicas exercem fascinante atração e nos levam a uma perspectiva mais suave da vida.

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  3. Laurinda Rosa Marques9 de março de 2009 14:17

    Lembranças muito gostosas de se ter e de se ler. Embora não tenha vivido nenhuma delas, fez parte de minha infância sentar na cadeira de balanço do vovô e escutá-las inúmeras vezes. Sinto orgulho de ser neta de quem sou.

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  4. Vadeco acrescenta outras duas de Sileno Osilio:

    Estava ele com Pilon (este derivativo fui eu que criei, agora voce sabe) no Bar de Mota, na Madalena, quando entraram tres rapazes e pediran uma cerveja e tres copos. Em cima da bucha, ele pediu: Garçon, eu quero tres cervejas e um copo. O pau comeu!

    De certa feita, no mesmo bar, um cidadao tocava um violao, mas tao ruim que Sileno perguntou o preço do instrumento e lhe foi apresentado uma qantia absurda, que foi paga. O violao foi colocado numa cadeira e nunca mais teve uso.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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