quarta-feira, 1 de abril de 2009

Galego do Mel

O cenário era simplório: a minha casa em Olinda. Num bairro ao tempo ainda bucólico – Duarte Coelho –, à entrada da cidade, nas proximidades da moradia dos meus sogros e na vizinhança de alguns parentes. Era viva a minha tia! Os protagonistas somos nós mesmo, eu, muito jovem ainda, na casa dos trinta anos e minha mulher também, cursando a mesma década de vida. As duas filhas mais velhas pequeninas – a caçula só chegaria depois –, e uma ou duas secretárias do serviço doméstico. O drama era o de sempre: a falta d’água. Dizia-se, à época, que em Olinda de dia faltava água e de noite faltava luz. Hoje mudou, chegaram os avanços! Naqueles anos usava-se fraldas comuns, a serem lavadas sempre que estivessem sujas, ao contrário da atualidade, quando tudo é descartável. Minha mulher estava desesperada, não havia como dispor mais desses apetrechos infantis limpos, para o adequado uso.
Diante do aperreio, não tive dúvidas e disse que resolveria de toda forma. Decidi usar o artifício do trote telefônico; recurso do qual tenho me valido em algumas de minhas dificuldades pessoais. Peguei o telefone, depois de ter identificado o número do escritório da companhia no município e fiz a ligação. Ao meu interlocutor disse de logo: “É Fernando, assessor do Governador! O gerente está?”. Há sempre um Fernando em qualquer gabinete. A resposta foi a mais atenciosa possível: “Pois não Dr. Fernando. Um minuto apenas!” E o gerente, mais atencioso ainda, ouviu o meu lamento: “É! O Governador está muito perturbado. Há um correligionário nosso sem água em casa e isso está deixando o líder inquieto.”. Ora pau, quem já viu o líder se perturbar com isso? As providências, então, foram prometidas: “Dr. Fernando! Por favor! Diga ao Governador que fique tranquilo, nós vamos atender o amigo dele imediatamente!”. Eu não era amigo de ninguém importante, tampouco do mandatário maior. Aguardei, assim, o tão sonhado e valioso líquido.
Chegou um carro pipa, como se chama por aqui o caminhão com um tanque d’água às costas. Identificada a residência, uma mangueira fez a passagem do precioso conteúdo para os meus reservatórios. Não precisa dizer que os vizinhos acorreram em direção ao veículo, pedindo um atendimento que fosse, um pouco daquela água que chegava. O motorista, ciente de suas obrigações, adiantou, de logo: “Um momento! Primeiro aqui! O dono da casa é amigo do homem!”. E o meu sogro se aproximou com a simplicidade dele e me pediu para abastecer o seu domicilio também. Ora nada mais justo: “Mas, o senhor espere terminar aqui!” E no final, não somente a família de seu Gama preencheu o reservatório doméstico, como também os outros vizinhos coletaram latas e mais latas do bem. Terminado o serviço, o condutor do carro e operador do fornecimento, indagou: “Quando o senhor deseja mais água!”. Dentro de dois dias, respondi, e assim foi.
Às vezes, o trote tem finalidade diferente: a de vencer uma situação de stress grande. Foi o que aconteceu, recentemente, com a intranquilidade de minha mãe doente e de um cunhado (irmão de minha mulher) seriamente enfermo. Não hesitei, liguei para um amigo e falando com uma voz matuta, disse: “É o galego do mel!”. E o meu interlocutor: “É! Eu não estou lembrando de nenhum galego do mel!”. E o diálogo prolongou-se com uma discussão infrutífera e sobretudo ficcional de uma venda do adocicado líquido. Uma compra de 50 garrafas, que o meu interlocutor de ocasião contestou e não houve jeito de aceitar a imaginária transação. E noutra ocasião, o galego do mel quase ouve o que não gostaria, tal a reação da vítima do trote. E por ai vai!
Margarida da Universidade, personagem de outras crônicas, vez ou outra cai na cilada do telefone. Dia desses, liguei e me apresentei como sendo um vendedor de túmulos. Margarida é medrosa e teme as almas penadas do purgatório. Com isso, não houve jeito de aceitar fazer um investimento, adquirindo um pedaço de chão para o seu repouso eterno. Só faltou desligar na cara e se tremeu toda, diante da proposição inusitada dessa aquisição funesta. Valha-me Deus do céu, foi o que disse!

(*) - A crônica vai marcando um período que me parece melhor. Afinal, a minha mãe saiu do hospital e o meu cunhado está de alta marcada. Isso, com toda certeza, revunesce o espírito. O leitor generoso pode comentar no espaço do Blog mesmo ou para pereira@elogica.com.br , ainda para pereira.gj@gmail.com Se não desejar dizer deixar as suas observações, fique na santa paz e grato pela leitura.

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