Amigo meu, com o honroso cognome de Boca da Noite, sem hífen, porque as coisas mudaram e tiraram o traço do apelido desse meu chapa, fez uma ligação telefônica valendo-se do celular e disse que gostaria de ver suas histórias por aqui. É que leu o que contou o meu colega de colégio, o Fagundes, e foi lembrando de coisas do arco da velha. Primeiro precisou dizer como adquiriu o apelido. Tempo houve, contou, que o seu pai adoeceu de hepatite e foi despachado para tomar os ares de uma praia. Ele ficou no Recife, destacado para almoçar e jantar em casa de irmão muito próximo, mas com residência posta em rua distante e penosa, exigindo mais de um ônibus como condução. Uma noite qualquer, parou em casa da madrinha e ouviu dela o oferecimento: “Meu filho! Sirva-se de uma sopinha!”. A resposta veio rápida: “Minha madrinha, quem se negar a tomar uma sopa oferecida por uma pessoa como a senhora, não merece o nome de gente!”. E tomou um prato, repetiu e quase tomava outro. Passou a frequentar essa sopa noturna, a cada noite, semana após semana, ouvindo um dia a notícia que a empregada dava à toda família, antes que chegasse ao portão: “Lá vem Boca da Noite tomar sopa!”. E ele pegou o apelido, desde sempre. Mas, de tanta vergonha, nunca mais foi degustar o caldo, às vezes de carne outras vezes de frango, de legumes ou de massa.
Depois falou do tempo em que os doutorandos de medicina se apresentavam ao Exército, nas proximidades da formatura. Comigo foi assim e até pouco tempo ainda era desse jeito, pois que deixaram de receber esses estudantes no CPOR. Quando se apresentavam, então, recrutavam os que precisavam nos quadros militares. Pois eu fui numa remessa dessa e o meu amigo de todo o curso, Jia por apelido, foi chamado antes de mim para o exame médico, ao que expressei a minha admiração: “Tás lascado!”. O sargento ouviu, porque sargento ouve tudo, o que se diz e até o que não se diz, virou-se e indagou: “Quem falou?”. Não havia outro jeito, senão me acusar. Ouvi a sentença ali mesmo: “Venha buscar o seu certificado! Você não serve para o Exército!”. Eu já sabia disso, mas tinha guardado segredo até aquele dia. A verdade é que o Jia foi aproveitado e designado para a Marinha, de onde saiu com patente alta, aquela do mar e da guerra. Pois o velho amigo recebeu a farda e a espada, comprou o quepe e ajustou os sapatos pretos. Foi ver a namorada! Ou foi desfilar garboso para a moça casadoira. Ora, o Boca da Noite não hesitou e chamando um menino do lugar, fez as recomendações da pilheriada que gostaria de fazer. Foi o Jia sair da casa de sua noiva e o menino se achegar, dizendo: “Já vai dançar fandango. Não é?”. Não apanhou porque uma autoridade tão recente na força, não ia se trocar com um bestalhão do meio da rua. Mas, deu vontade!


Aqui pra nós: O padre parecia um macaco!
(*) - O texto lembra passagens pitorescas dos tempos de Boca da Noite e dos meus tempos também; tempos que foram, igualmente, do padre Libório, sacerdote brabo, sem paciência com as coisas do mundo e sem calma com o lúdico que presidia aquela rua de tantas lembranças. Comente neste espaço mesmo ou o faça pra pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com