sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Cenários do Ontem

Neste mundo está tudo mudado, diria o poeta, parodiando o velho refrão junino! Mudaram as cidades e as pessoas! Do antes há lembranças de bucólicas ruas, em cujos passeios as famílias se reuniam em fins de tarde, para uma prosa qualquer! Saudades das idas e das vindas ao centro comercial, à rua da Imperatriz ou à rua Nova. Um sorvete na Aurora ou um sanduíche bem cuidado em pão de fôrma quentinho na Confiança, a confeitaria da esquina. Um café pequeno na Sertã, em outra esquina distante, antes de se chegar às margens do rio e fiar conversa, até começar a sessão do São Luiz, para assistir o filme do momento; um enredo de aventura ou uma película romântica dos encantamentos juvenis. Na tela do Moderno, em certo domingo de ares mornos e ventos ausentes, o cantor quase chora: “Por que não paras relógio/Não me faças padecer...”. E o tempo não parou, pintou meus cabelos com a tinta dos anos!

Velhos bondes a se arrastarem do Farol até o terminal da Hospício, motorneiro e condutor vestidos a caráter, de terno azul marinho e boné com a chapa e o número. Antigos ônibus da Pernambuco Autoviária Ltda. ou aqueles da Pedrosa, que passavam na Visconde de Suassuna e levavam a meninada à cidade, como se dizia à época, significando o centro urbano apenas. Uma calça comprada na Personal, na av. Guararapes, se premiada, garantia outra de graça, para se usar na igreja em dias santos. As Lojas Seta – Lojas Seta para Homens –, de muito bom preço também, asseguravam a elegância pouco exigente. Calças que não amarrotavam, de Nycron ou camisas Volta ao Mundo, sem falar na helanca e no buclê. Quando a mescla chegou fez sucesso! Sapatos Vulcabrás, de maior durabilidade, na Duque de Caxias, contando sempre com o desconto providencial do dono: Roberto Bruto. Para casa, a minha tia velha costumava usar as alpargatas Rhodia!

Às praias pouco se podia ir! Ninguém tinha carro e Boa Viagem era distante, Piedade e Candeias nem pensar, Olinda, vez ou outra, no Bairro Novo, sobretudo, lugar de veranistas de boas posses. Uma viagem, verdadeiramente, para se chegar ao Pina, atravessando-se duas pontes, a Giratória e mais adiante outra, toda de ferro também, cuja passagem servia para um carro somente. Mulheres exagerando pudores, trajando roupas de banho as mais compostas possíveis, maiôs com saiotes e decotes elevados, a esconderem as intimidades, segredos e sigilos de lindos corpos. Quando o biquíni apareceu, reservava-se às turistas que se hospedavam no Hotel Boa Viagem, terminal de ônibus da mesma maneira, razão para os rapazes escolherem o lugar nesse acolhimento matinal. Sol a pino e belas pernas nas areias cálidas! E as fantasias preenchiam os salitrosos ares daquele mundo dos devaneios pueris, ainda!

A fábrica TSAP apitava às sete e às onze, para garantir a presença dos operários, dos tecelões e das tecelãs, dos mestres e dos contramestres, liberando-os depois para o almoço, segundo os costumes. Ao meio-dia abraçavam-se os ponteiros e as colegiais retornavam da faina diária dos livros e dos cadernos, desfilavam, na verdade, diante da perplexidade emergente de rapazes aflorando para o exercício do mister maior: a vida!

À distância, numa vitrola de boa sonoridade, ouvia-se a voz de um homem maduro: “Eu era feliz/E não sabia!...”.

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sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Retratos ao Léu

Diante da porta de minha garagem, ao léu, literalmente considerando, descubro dezenas de fotografias espalhadas, dando cor à rua, à calçada emporcalhada, ardendo quase em desejos masoquistas por uma varredura, nunca sensual, do poder. Não resisto à tentação de apanhar algumas, confesso, para identificar expressões ou para encontrar justificativas para ato assim, tão diferente do corriqueiro, o do desprezo pela imagem fixada no papel, instantâneos de vida perpetuados. Terminei achando que posso resgatar um pouco das histórias ou das estórias daquela gente, com certa fidelidade até, a tirar pelo colorido das coisas e a julgar pelas dedicatórias e comentários apostos no verso de muitas poses. Tempos e espaços de amores e de desamores, de ódio e de vingança, de paixões fincadas sobre laços rompidos e de desejos – quem sabe? – da reconciliação. Por sugestão, então, de leitor deste espaço, em noite de fogueira acesa, milho assado e canjica, transformo o episódio em crônica, dividindo devaneios, realidades de outras criaturas, filhas de Deus, igualmente.

Eis que mãe e filhos, brasileiros todos, da miscigenada raça gilberteana, moram agora em terras frias, gélidas, do Velho Mundo. Deixaram a pátria à reboque da paixão avassaladora de que se tomou o gringo brancoso, fidelíssimo acompanhante da família original em momentos assim, preparados para o milagre moderno da fotografia, quando viu a morena de olhos verdes. Mais pra feia que pra bonita! Representante magricela da província em paragens d’além mar! Narcisicamente orgulhosa da tez pigmentada pela melanina d’África, da íris lembrando o viço tropical de folhas de orquídeas em parasitismo florestal, à semelhança dela mesma, em exagerada simbiose com o gringo: amor e sexo, corpo e dinheiro. Filhos paridos da maternidade tupiniquim, mas incluídos agora na modernidade do continente antigo, ávidos, então, por anos de glória. Do futuro daquele homem, agregado à célula familiar, depende o porvir de todos, como está num dos oferecimentos. Esperanças pairando em ares distantes e horizontes desvirginados em grandes vôos do imaginário pueril! Adolescentes bailando ao sabor melódico de muitas harpas, valsas do devaneio, na marca do progresso e da técnica, desabituados, por certo, com o carinho paterno, que é a expressão, também, do afeto. Tudo isso, pode acreditar o leitor, dedicado ao pai ou ao marido de outros anos, da ex-esposa ou da “eis” mulher, na permissão do erro que vernáculo admite aos quase analfabetos de um mundo em terceiro lugar.

Tinha mesmo que jogar tudo fora, às favas, como fez, desesperado e desiludido, perdido, verdadeiramente, nas olimpíadas de um amor rompido, na disputa já vencida, também, do lúdico das paixões. De que serve rever assim, teria dito, ouvindo Dalva ou entoando com Núbia canções da perda! De léu em léu deve andar o homem largado, com as fotos que davam cor à lua, afastando pensamentos e afugentando momentos, enquanto a radiola, cantando desgraças, marca a sina. Não podia por cá comprar o vestido negro e brilhante que veste ou a folhagem a esconder-lhe a face, tampouco bilhetes aéreos e passagens em confortáveis trens. Ah, passeios, nunca, praticamente, os teve, senão ao zoológico tupiniquim, tão diferente daqueles que via. Visitas a cachoeiras muito menos, congeladas, como a da foto, somente em sonhos, no onírico da vida.

Em permeio à felicidade emergente, pensa ela – imagino – reconquistar amores e repor pendores, enviando as poses. Ou alimenta o ódio, praticando a vingança com a arma do instantâneo e o projétil veloz da postagem. Retratos ao léu, eis o que descobri na porta de minha garagem.

(*) Crônica publicada em 29 de junho de 1992, depois de ter encontrado na porta de minha garagem, na Boa Vista, dezenas de fotografias do passeio de uma família na Europa. Uma família brasileira, cuja mulher, certamente, deixara o marido e se reunira a um senhor estrangeiro. Fotos oferecidas, quase todas, fazendo pouco do ex-marido, em péssimo português.
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