segunda-feira, 13 de abril de 2009

Essa Alma quer Reza!

Dificuldades em viagens de avião, pode crer o leitor, é comigo mesmo. Tenho um sem número de histórias pra contar. Por isso, começo aqui com um passeio que fiz ao Rio de Janeiro, uma presença em certo congresso por dever de ofício. Na ida, sentava ao lado de velho amigo da Paraíba, que no aeroporto já acertara ficar no mesmo quarto que eu. Ora, não gosto dessas companhias de última hora, sou mais do isolamento noturno, mas não podia me negar ao pedido. Afinal, eu estava indo com passagens e hospedagem pagas e ele faria, somente, a complementação da permanência. O problema é que a aeronave no meio da viagem começou a perder altura e a gozação dele com os meus receios transformou-se em medo, quando o piloto informou aos presentes que aquela queda de 500 metros fora para reparar o ar condicionado do avião. Ora pau, disse de logo, quando chegar em casa vou jogar um equipamento desses do telhado em baixo para consertar.
Uma freira, que viajava nas poltronas da fila ao lado, virou-se para mim e indagou,: “O senhor que fala muito, acredita nessa explicação do comandante?” Veja, minha senhora, cuidei em responder, se assim fosse, não teríamos mais oficinas para conserto de aparelhos de ar condicionado e os prédios do Recife serviriam de plataforma para lançamento dos equipamentos quebrados. Teríamos uma revolução tecnológica em pleno centro urbano da cidade. Melhor será a senhora continuar a rezar o seu terço e garantir a nossa ida coletiva para os céus. Valha-me Deus! O meu companheiro, então, me convidou para tomar uma cerveja na copa traseira da aeronave e lá fomos nós! Indagamos, então, do comissário o que havia. Ele, escolhendo a latinha que nos ofereceria, explicou que vivíamos uma pane, mas ignorava as razões. Mais um motivo, comentei, para que brindemos a proximidade da morte. E o piloto fez a aterrissagem na Bahia, descemos todos e trocamos de avião. Foi uma pândega!
Na volta, um colega para mim desconhecido sabia de minha experiência anterior e como tinha um medo inusitado de viajar pelos ares, já estava completamente bêbado, ao me ver entrando, porém, não perdeu tempo: “Colega! O que acha dessa aeronave?”. Olhei a cabine de passageiros e simulei verificar os detalhes. Respondi com uma segurança diferente: “Veja! Não confio na estrutura que acabo de examinar!”. Coincidência ou não, quando estávamos todos acomodados, a voz do comandante se fez ouvir: “Por motivos técnicos faremos troca de aeronave!”. O mesmo colega me viu chegar para a nova acomodação e me pediu uma opinião. Pensei e refleti com os meus botões: “Não é possível repetir o defeito!”. Respondi com toda a minha segurança que ficasse em paz, na tranqüilidade dos anjos: viajaríamos em segurança. E assim foi!
De outra feita, fazendo a ponte São Paulo/Rio de Janeiro, sentei junto de um caipira que viajava pela vez primeira. O avião começou a balançar e ele na maior serenidade virou-se para mim e expressou: “É assim mesmo! Foi o que me disseram os meus parentes!”. Eu aproveitei a estréia do matuto e respondi: “Negativo, meu amigo! Não é assim de jeito nenhum!”. O pobre mortal molhou-se de suor dos pés à cabeça! Foi de dar pena! Nessa oportunidade eu vi o mateiro chamar a aeromoça de garçonete e quase caio de tanto rir. A jovem, uma senhora já, de ancas largas e busto protundente, de cabelo pintado da cor do ouro e unhas vermelhas, cor de sangue, quase mata o meu vizinho de poltrona. Disse-lhe poucas e boas! E ao final lhe expliquei: “Trate a suplicante por comissária! Melhor assim!”. Ele por pouco não me perguntou se era ela a mulher do comissário de seu bairro. Valha-me Deus do céu!
De outra feita, sentei-me junto de uma cearense que vinha de Fortaleza e já tinha tomado umas três doses de uísque. Assim mesmo, bebida nacional, escrita em bom português. Perguntou, à queima roupa, quase: “Qual o seu destino final?”. Respondi sem titubear: “Brasília!”. Era o mesmo dela, razão para apresentar uma lista de perguntas e ter uma resposta a cada indagação. Depois, meteu o pau no marido, condenando o seu comportamento no cotidiano das coisas e na exceção das regras da vida. Era um horror aquele homem, pensei! Não lhe ajudava nas obrigações domésticas, não lhe tinha por esposa nos compromissos do afeto e muito raramente a elogiava em suas prendas físicas, as quais, se bem me lembro, não eram tantas. Pior se considerasse os compromissos no leito conjugal. Imaginei, de pronto, essa alma quer reza!

(*) - O leitor, se desejar, depois da leitura, faça um comentário qualquer. Use o espaço do Blog, propriamente ou escreva para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A Bebedeira de Judas

Bateu em minha porta numa sexta-feira santa, faz uns 40 anos, pouco mais ou pouco menos. Julgava que eu era um exímio conhecedor das regras canônicas e por isso me procurava: “Geraldo! Você que é católico e entende das coisas da Igreja, é proibido beber hoje?”. Ele estava iniciando um processo, que terminou por levá-lo ao alcoolismo. Eu disse que na realidade não sabia disso e que achava melhor ele se abster – eu era meio carola –, haja vista o fato de se exigir, à época, jejum e abstinência. Mas quem está prestes a enveredar pelo vício, tem as justificativas todas. Argumentou que considerava a proibição em causa, mas para a cachaça e o conhaque, julgando que o vinho, propriamente, estava liberado, bastava lembrar que fora o próprio Cristo quem transformara a água em vinho – ah se ele tivesse esse poder! – ou fora Nosso Senhor quem consagrara o pão e o vinho. E tomou um dos maiores porres de sua vida.
Era uma figura conhecida na rua, transitava em todos os grupos, trazendo o infortúnio de ser considerado o mais feio dos amigos daquele lugar. Isso não era uma brincadeira qualquer, mas o resultado de uma eleição feita na Festa da Mocidade, quando o locutor pediu que fossem apresentados nomes de rapazes assim, horrorosos, sendo o dele vítima do maior número de sufrágios. A molecada o aplaudiu até não poder mais, numa vibração mórbida, quase funesta, de um título macabro para um adolescente. Dessa forma, ganhou o concurso – nem sei se houve prêmio –, mas carregou o estigma a vida toda. Por onde passava havia sempre quem lhe apontasse: “Lá vai o campeão da feiúra!”. Talvez – Quem sabe? – esse trauma tenha concorrido para o vício com o qual se pegou.
Mas, continuando com o mote da Semana Santa, tema que abre a crônica pascal, houve lá pela rua uma malhação do Judas; lá pela rua, em termos, porque chegava até os domínios da Afonso Pena e por todo ambiente do Pombal. E o nosso penitente foi detido, levado para a Delegacia de Plantão e recolhido. Outro amigo, esse habituado a ajudar toda gente, pau pra toda obra, como se dizia, proprietário da Kombi que servia de motel à rapaziada, se dispôs de logo a soltar o colega, companheiro de rua, comparecendo à delegacia. Chegando por lá, indagou a uns e a outros, recebendo sempre como resposta a negativa: “Não costumamos prender quem faz malhação! Chega por aqui, é advertido e solto!”. Mas, o amigo, cioso de seus compromissos quase filantrópicos, pediu para vistoriar o buque, como se costumava chamar a prisão, encontrando o mais feio de todos os homens conhecidos naquele lugar. E o delegado: “Se eu não pensava que esse era o Judas eu cegue!”.
Certa vez, no entanto, saiu com a turma – hoje seria uma galera –, sendo decidido pelo grupo passar na rua do Príncipe e tomar um chope. Era costume servir a bebida com uns ovos coloridos, cujo processo de cocção, francamente, nunca entendi. Isso caiu de moda. Disseram então a ele, ao feio, que já estava decidido a tomar dois chopes com dois ovos, que o plural de ovo era aberto: ovos. Sendo assim, achegou-se do balcão e fez o pedido abrindo o plural logo das duas palavras: dois chopes e dois ovos. Foi uma gozação sem par e ele, simplório como era, apenas explicou que se uma palavra tem a pronúncia como lhe fora dito, naturalmente a outra seria do mesmo jeito. Não lembrou que a língua, o nosso vernáculo, é cheio de atropelos de última hora, que funcionam mais as exceções que as regras. E por ai vai!
Dias antes da revolução de 1964 e da instalação da ditadura, conseguiu um emprego na previdência social, a partir de uma amizade de seu irmão com um mandachuva do PTB, partido, então, dominante. Empregaram-se os dois e o nosso personagem passou a ser colega de sala – imaginem isso! – de uma amiga de minha mãe, frequentadora habitual da casa de meu pai. Resultado, com a instalação do estado de exceção, o seu irmão foi demitido e ele mantido, razão pela qual ainda hoje é funcionário. Ignoro se já está aposentado, mas com toda certeza recebe proventos do governo. A sorte, pelo menos ai, lhe foi companheira.

Eis o vinho da bebedeira de Judas e as razões da prisão do traidor.
(*) Uma crônica pascal. Escrita sob a inspiração de meus amigos de infância e de adolescência, feios ou não. Desejando comentar, o faça no espaço do Blog ou use os e-mails pereira@elogica.com.br ou ainda pereira.gj@gmail.com Boa Páscoa a todas e a todos.