segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O Natal em outros tempos


Noite de Natal, natal dos idos de sessenta, Natal dos meus dias de adolescência, Natal dos meus sonhos de rapaz!

Era a Festa da Mocidade, no Parque 13 de Maio, o lugar de passear, de andar pra lá e pra cá, palmilhando alameda por alameda, caminho por caminho, em busca de um coração solitário. Uns já chegavam abraçados, protegendo longos cabelos de uma adolescente em flor, conversando frases de menino e fantasiando coisas de adulto.

Depois, quando os ponteirinhos do relógio começavam a se unir, para juntos cantarem o nascimento do Cristo, já estávamos todos - rapazes, moças e até gente grande - reunidos para a Missa do Galo. Os casais de namorados continuavam enlaçados e o véu branco espraiava-se na negritude dos fios quase de seda, que chegavam à cintura, mostrando a toda gente a pureza virginal da mulher amada.

Deixadas as moças em casa, trocávamos o sagrado da noite pelo profano, outra vez, da festa. Aí, já tarde, de madrugada, terminávamos assistindo o Pastoril do Velho Faceta ou às revistas de Colé e Walter Pinto. Mulheres pra lá de bonitas, as coxas grossas das pastoras povoavam o devaneio onírico dos dias seguintes e os corpos esculturais de algumas vedetes preenchiam o cotidiano de outros sonhos. Aí, surgiam as que atiravam livremente e não tinham, como não teve Mirtes, que mostrar a aliança de casada ou o compromisso do noivado. Umas, mais levadas, lançavam-se ao primeiro olhar e outras aparentavam o pudor feminino dos tempos passados, o pudor que exige a conquista e que pede o carinho e o afago, antes do carnal contacto.

Os dias se foram rápidos, passaram velozes, como se representassem gotas d’água fluindo catarata abaixo. Desapareceu a Festa da Mocidade  e também, morreu Mirtes. De Noêmia nem sei mais e com as meninas perdi o contacto. Os amigos da juventude se foram, cada qual pra seu lado. Vejo-os, ocasionalmente, passam ligeiro e acenam, somente acenam, porque não há mais como parar na noite de Natal. Ficaram as reminiscências, reminiscências que renascem, ressurgem no que se escreve, quando uma palavra, um nome, faz o pensamento voltar, regredir quarenta anos no tempo, como se possível fosse atrasar o mesmo reloginho, milhares de vezes, fazendo os ponteiros se tocarem na hora do nascer do Cristo, há duas vintenas de anos atrás. E como não há meio de retornar no tempo, escrevo, só escrevo, para externar o sentimento próprio.
 
(*) Um artigo antigo, guardado em meus alfarrábios virtuais, que atualizo e saudo o Natal que vai chegando, desejando a todos que os sinos da noite mágica continuem dobrando, alertando os irmãos em Cristo para o pecado do ódio e do desprezo. Desejando o leitor comentar, use o espaço mesmo do Blog ou o faça para pereira.gj@gmail.com ou ainda para pereira@elogica.com.br

 

 

 

 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Estão voltando os pássaros

             Este pássaro que começa a cantar tão cedo, antes da 4:00 horas da manhã, por certo é uma ave exótica, pois que dificilmente alguém teria coragem de manter aprisionado passarinho assim, cantador, se fosse bicho da terra. A minha insônia do despertar precoce me faz ouví-lo quase que todos os dias, quando vou ao banheiro, depois de ter me levantado da cama precocemente. Bem que poderia dormir mais um pouco, mas entram ai as minhas heranças parentais; repito o meu pai, a minha tia e a minha avó. É isso mesmo!

Mas, a boa nova que me ocorre lembrar é, justamente, aquela que me transmitiu o nosso Roberto Harrop, fotógrafo quase oficial lá pras bandas de Aldeia. Estão voltando os canários-da-terra mandou me dizer e depois repetiu de corpo presente, como diziam os antigos radioamadores. Foram flagrados por sua câmera, bicando sementes no capim do Bosque das Águas de Aldeia. E comentou, com a sabedoria dos entendidos: “Eram canários jovens, de cor branca (leia-se escura), o que faz crer que nascidos há pouco. Tinham se livrado da sanha maldosa dos pardais, bichos inclementes, trazidos para cá por quem desejou matar os velhos “lacerdinhas”, insetos incômodos e portadores de um líquido urticante.

Lembrei, vendo as fotografias que enviou, dos meus tempos de menino, quando tinha no terreiro de casa uma quantidade enorme de canários-da-terra. Passarinhos de todos os tipos, brancos e amarelos, como o ouro que reluz. Canários cantores e outros de briga. Eram todos abarrancados, como cabe ser aos bichinhos do mato. Eram mudas de mato, muito raramente um muda de casa. É que eu mesmo espalhava alpiste pelo quintal e depois disfarçava os alçapões e arapucas e prendia os bichinhos. Ainda lembro de duas canárias do tipo “coruja” que no piso do viveiro brigavam que dava gosto, para garantirem um macho da cabecinha encarnada feito um rubi.

Como não consigo dormir o quanto desejo, saio de casa muito cedo e encontro o nosso ilustre fotógrafo a clicar paisagens e pássaros. E digo: conte-me lá uma boa nova. E ele: “Estão voltando os pássaros!”.

(*) Desejando o leitor comentar, que o faça do espaço mesmo do Blog ou escreva para pereira@elogica.com.br ou ainda para pereira.gj@gmail.com O texto é reproduzido no Jornal da Besta Fubana, órgão sob a supervisão do Papa Berto I e de sua papisa.